Link: O famigerado Banco de Nomes

Navio Perdido, Cidade Ademar

Navio Perdido, na Cidade Ademar, que é um livro do poeta Augusto Frederico Schmidt.

Eu não posso começar a falar de nomes bizarros de ruas sem apontar o principal responsável. Vereadores malucos sem nada para fazer? Antes fosse.

Não: apenas uma cidade que crescia muito rápido na década de 1970, em incontáveis loteamentos, clandestinos e legalizados. O problema é que ninguém primava muito pela criatividade: as ruas eram todas “Um”, “A”, “33”, ou ainda “das Magnólias”, “das Amoreiras”, “Dom Pedro”, enfim, nomes que já existiam de sobra. Em 1975, segundo jornais da época, já eram 20 mil ruas nessas condições, quase metade das 45 mil que a cidade então tinha. Imagine o que não tinha de correspondência indo para o lugar errado…

A solução final encontrada pela Prefeitura foi criar uma fonte, a partir da pesquisa realizada por especialistas. Eles sugeriram, afinal, 25 mil nomes, registrados eletronicamente pela Prefeitura em 1977 em fichinhas de cartão perfurado – que hoje “moram” no Arquivo Histórico Municipal e são a fonte do site Dicionário de Ruas, gerido pela Prefeitura desde 2004, atualizado por funcionários do Arquivo.

Mas como é costumeiro acontecer em serviços públicos, os especialistas simplesmente pegaram enciclopédias e copiaram os verbetes, de tudo que viram pela frente. Duvida? Olha de onde vinham os nomes, segundo a própria Prefeitura: América do Sul, Artes Plásticas, Astronomia, Biografias, Botânica, Cinema, Folclore, Geografia Universal, História da Arquitetura, História do Brasil, História da Ciência, História da Dança, História da Igreja, História da Música, História do Paraná, História do Teatro, História Universal, Lingüística, Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa, Literatura Universal, Mineralogia, Mitologia, Música, Música Popular Brasileira, Nobiliarquia, Química, Sociologia, Topônimos e Zoologia. Ou seja: nada mais do que já abordava qualquer Barsa ou Brittanica daquele tempo.

Só que resolveram avacalhar, colocando qualquer pessoa ou qualquer coisa. Daí nasceram ruas como “Almotacel” (que era como se chamavam os inspetores de pesos e medidas no século 16), “do Flúor” (o elemento químico) ou ainda as aparentemente insuspeitas, como “Manoel Simões” (que vinha a ser um “almotacel” do século 16. Ou seja, um cara que verificava pesos em 1500 e bolinha virou algo importante). Como a cidade cresceu para os extremos, não é difícil concluir que a maioria destas seja situada nos bairros mais periféricos.

E olha que ainda salvaram algumas ruas de ganharem nomes de difícil escrita ou pronúncia ou, ainda, nomes estranhos ligados geralmente a temas como Química (nomes de elementos químicos) e Botânica (nomes científicos de plantas), que não eram adequados para a denominação de logradouros. 

Mas, como dissera antes, a cidade cresceu tanto que, já na década de 1980, esses bizarros nomes acabaram! A equipe da então prefeita Luiza Erundina resolveu arejar um pouco a listinha: além de passar a pesquisa para o Arquivo Municipal, que passou a usar outras fontes, também permitiu que os moradores dos bairros enviassem suas sugestões, que iam de nomes de músicas até antigos líderes comunitários. Mortos mais “recentes” também seriam contemplados: praticamente todos os mortos e desaparecidos da ditadura militar hoje nomeiam logradouros paulistanos, por exemplo.

Mas quem disse que começariam a fazer direito? Nessa “brincadeira”, conferindo livros sérios como Direito à Memória e À Verdade, entrou de “cagueta” até ruas que ganharam o nome de guerra dos caras, como Joaquinzão do Araguaia (que até hoje ninguém descobriu quem era!).

Hoje, o Banco ainda existe, aproveitando os topônimos do nosso enorme país. A preferência atual tem sido cursos d’água, como os Arroios gaúchos (Cambará, Estrela, Chuí, etc), cachoeiras (Do Arrependido, do Encanto, Maçaranduba, etc) ou ainda personalidades falecidas há menos tempo, de diversos campos, de atores (Rogério Cardoso, Gérson de Abreu) até genealogia, como um certo engenheiro Paulo Carneiro da Cunha, que parecia ser um grande especialista no assunto.

PS: a fonte dos textos citados é o site http://www.dicionarioderuas.prefeitura.sp.gov.br/, que será bem citado por aqui.

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Um pensamento sobre “Link: O famigerado Banco de Nomes

  1. Parabéns pelo Blog, o vi na comunidade Anti Video-Show. Só para colocar mais um nome “esquisito” na lista, há a rua Sinfonias do Ocaso, lá no Sapopemba (paralela da Vilanova Artigas)

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