A ditadura nas ruas

Não cabe aqui ficar falando dos efeitos da ditadura militar na história do país. Embora haja até quem sinta saudades, felizmente estes são minoria. Muita gente foi morta e torturada enquanto seus líderes de altas patentes, quando morriam, vinham sendo homenageados com estátuas, placas e avenidas.

O Elevado Costa e Silva, por Felipe Morozini

O horrendo Elevado Costa e Silva, por Felipe Morozini

olympio

Muitos dos ditadores homenageados são figuras infames como o marechal Olímpio Mourão Filho, rua do Jaguaré. Ele era conhecido como “Popeye”, porque não largava o cachimbo. Outro apelido seu era “marechal de pijama” porque mandou suas tropas saírem do quartel por telefone, de casa (e de pijamas). Antes, já tinha sido integralista (aff) e ajudado a criar o chambeta Plano Cohen, durante o Estado Novo.

Mas não é deles que estamos falando aqui, mas de suas vítimas. Por mais que muitos dos militantes tivessem ideias fadadas a dar muito errado, do seu jeito queriam mudar a situação em que viviam – e não mereciam ter morrido, ainda mais torturados. Até porque quem sobreviveu, como nossa presidenta, mostra que, um dia, a razão chegaria.

Quem morreu comprovadamente ou nunca mais foi visto acabou se tornando rua de São Paulo durante a gestão da prefeita Luiza Erundina (1989-1992). Vários, inclusive, de uma tacada só, como no bairro Nova América, em Marsilac, onde o Street View não foi, mas eu já:

A rua principal do Nova América homenageia Eduardo Collier Filho

A rua principal do Nova América homenageia Eduardo Collier Filho, desaparecido desde 1974, militante da Ação Popular Marxista-Leninista.

Recentemente, o ex-delegado de polícia Cláudio Guerra, que se converteu à religião evangélica, contou tudo o que sabia no livro Memórias de uma guerra sujaInclusive que o corpo de Collier tinha sido incinerado numa usina de açúcar no Rio de Janeiro. O mesmo destino teria tido Ana Rosa Kucinski Silva, militante da Ação Libertadora Nacional e sumida, também, desde 1974. Ana Rosa nomeia uma rua na Cidade Dutra, vizinha a vários colegas de militância:

Ana Rosa era irmã do jornalista Bernardo Kucinski, que lutou muito para descobrir seu paradeiro, revelado apenas por Cláudio Guerra

Ana Rosa era irmã do jornalista Bernardo Kucinski, que lutou muito para descobrir seu paradeiro, revelado apenas por Cláudio Guerra

Se as duas últimas ruas são de bairros bem pobres, o mesmo não se pode dizer do Joaquinzão do Araguaia, que, aparentemente, nem era muito militante, mas apenas um camponês que entrou, por azar, na linha de tiro da Guerrilha do Araguaia, em 1974. Hoje, é uma rua do luxuoso condomínio Villas de São Francisco. A casa do fundo estava à venda por R$ 1,5 milhão.

Só se sabe que Joaquinzão teve a cabeça decepada e enviada para Xambioá, onde as tropas do exército se concentravam.

Consta que Joaquinzão teve a cabeça decepada e enviada para Xambioá, onde as tropas do exército se concentravam.

Não são apenas as ruas recém-criadas, como a do condomínio, ou as que ficam nas periferias. No coração da Lapa, a rua que dá acesso aos fundos do cemitério de mesmo nome lembra Maria Augusta Thomaz, que era estudante da PUC-SP e sequestrou um Boeing da Varig em 1969. Ela também dá nome a uma avenida de sua cidade natal, Leme, no interior de São Paulo.

Maria Augusta era militante do Movimento de Libertação Popular

Maria Augusta era militante do Movimento de Libertação Popular

Consta que Maria Augusta foi morta numa emboscada com um colega de militância, Márcio Beck Machado, numa fazenda em Goiás, no mês de maio de 1973. No final da ditadura, quando viram que a casa ia cair, os milicos desenterraram as ossadas dos dois e as incineraram, sumindo com qualquer vestígio deles. Mas hoje, “eternizados” em ruas, estão bem longe um do outro.

A Cidade Tiradentes é muito mal-sinalizada. A avenida é enorme mas só tem essa placa chambeta visível.

A Cidade Tiradentes é muito mal-sinalizada. A avenida é enorme mas só tem essa placa chambeta visível.

Márcio, sem dúvida, é um dos militantes mais “bem-homenageados”, se dá para dizer assim. Além do principal acesso da Cidade Tiradentes (ok, não é grande coisa…), ele também dará nome a uma das futuras estações do Monotrilho da Linha Verde do Metrô, cujo ponto final é a própria Cidade. Já tem até gente vendendo apês com o “plus” de ser perto da futura Márcio Beck.

Outro lugar rico em ruas “militantes” é a Jova Rural, antiga fazenda que virou conjunto habitacional, no Jaçanã. A principal rua da Jova, praticamente uma estrada (são mais de 5 km de extensão), homenageia Ari da Rocha Miranda, da Ação Libertadora Nacional.

Fogo amigo foi o que matou Ari

Vítima de “fogo amigo”, o companheiro Ari.

Porém, Ari não foi morto por nenhum torturador, mas por um colega, quando assaltavam (ou, segundo eles, expropriavam capital) uma agência do antigo Banco Nacional, na Lapa, em 1970. De acordo com a documentação existente, a arma que o matou provavelmente era de…

Hiroaki Torigoi, estudante de medicina da Santa Casa

Hiroaki Torigoi, estudante de medicina da Santa Casa.

Hoje, Hiroaki é uma rua de São Miguel Paulista, na zona leste, bem longe de Ari. Ele foi morto em 1972 numa emboscada armada pelas forças repressivas, na rua Albuquerque Lins, Santa Cecília.

A mesma sorte não teve um grupo de militantes, como Heleny Telles Guariba, que batizaria várias ruas no Jaguaré. Os “quarteirões” ficam mais ou menos atrás do estacionamento do Shopping Continental, de acordo com decreto de 1992. É que, até hoje, não há rua nenhuma.

Até o último update do Google Maps, esse espaço vazio de cima tinha as ruas "desenhadas"

Até o último update do Google Maps, esse espaço vazio de cima tinha as ruas “desenhadas”

De quebra, eles ainda teriam o carma de serem vizinhos a uma aprazível rua que eterniza um grande fdp, o empresário Henning Boilesen, presidente da Ultragás e financiador das forças repressivas paulistanas. Foi “justiçado” pela ALN em 1972, mesma época em que esta rua foi aberta.

Um dos prazeres de Boilesen era assistir às sessões de tortura. Ele achava divertido

Um dos prazeres de Boilesen era assistir às sessões de tortura. Ele achava divertido

E o que dizer deste aqui, então? Era amigaço do Boilesen e ajudou a exterminar muita gente aqui citada:

Tiraram o "Paranhos" do meio mas é ele mesmo

Tiraram o “Paranhos” do meio mas é ele mesmo

O “gentil” delegado Fleury, que morreu “afogado” na praia em 1979, é uma tranquilíssima travessa da avenida Imperatriz Leopoldina, sem saída e fechada com guarita. Mas essas aí os “lutas” não vão lá esculachar, ao contrário da avenida Roberto Marinho, que vive acordando com “Vladimir Herzog” grudado por cima das placas.

Anúncios

3 pensamentos sobre “A ditadura nas ruas

  1. Zona Sul Extreme – parte 4 (final) – As ruas mais estranhas de São Paulo

  2. Galeria de tipos irrelevantes – I – As ruas mais estranhas de São Paulo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s