Zona Sul Extreme – parte 3

Seguindo a Estrada Engenheiro Marsilac, dá até vontade de começar a cantar Retrato em Branco e Preto:

Mas eis que depois de muitos cruzamentos com picadas que levam às chácaras (algumas até com nomes de “ruas”, como a Lídia Schmidt, onde um cara queria vender um pedaço da mata dizendo que era terreno), você chega numa espécie de trevo. É a escolha de Sofia:

Longe ou mais longe?

Longe ou mais longe?

Se pegar a direita, entrando na Estrada do Cipó, terra do glorioso Sadamu Inoue, em poucos quilômetros chegará à vizinha Embu-Guaçu. Para que se tenha ideia de como é longe, se você pegar algumas picadinhas chega ao sítio que era frequentado por um certo Champinha. Por isso, sigamos à esquerda, pela Marsilac – e por onde o Street View não mais passou, mas eu sim. Ainda estamos bem perto de Embu-Guaçu, e viramos na avenida Sumaré.

Ué, o que você está estranhando?

Ué, o que você está estranhando?

Oficialmente, é “Avenida Sumaré – Engenheiro Marsilac” para que não se confunda com a de Perdizes. Virando nela à direita, você entra na Caiubi, avenida Dra. Nise da Silveiraporta de entrada do Jardim Fontes, que, depois de décadas de reclamações dos moradores, teve suas ruas asfaltadas há bem pouco tempo (e por isso, ainda estavam um tapete, coisa muito rara na região). O Banco contemplou algumas das poucas ruas com nomes de artistas do cinema mudo, como Louise Fazenda e sua amiga, Mabel Normand (na placa da rua, Mabel Normando):

mabelnormando

A primeira versão deste post tinha sido escrita antes de eu ir até lá. Já que eu fui, tive que fotografar a placa.

Esta simpática atriz foi uma das primeiras comediantes do cinema. É tão antiga que foi ela quem "lançou" o Chaplin. Mas, tadinha, enchia a cara.

Esta é Mabel, que foi uma das primeiras comediantes do cinema. É tão antiga que foi ela quem “lançou” um certo Charles Chaplin. Mas, tadinha, enchia a cara e morreu com apenas 37 anos.

Fazenda na Louise Fazenda

Louise Fazenda tinha esse nome porque, apesar de americana, era descendente de portugueses. Mal saberia ela que viraria uma rua “fazenda” – com direito até a vaquinha pastando.

Indo mais em frente por ali mesmo, mais precisamente pela rua Fonte Nova, você chegará a outro bairro rural, bem na fronteira com Embu-Guaçu, o Jardim Oriental. Como você poderá ver pelo decreto que nomeou suas 14 ruas, é uma pior que a outra. Todos, obviamente, advindos do Banco, que optou por passear pela música erudita:

Composição musical para piano, de título completo "Dos Ventos do Amor e da Paixão", integrante da série "Itinerário Idílico e Amoroso", de autoria de Almeida Prado. Fonte: "Almeida Prado - Comp. Bras. - Cat. Obras". Rio de Janeiro: MRE, 1976. pág. 16. Nome retirado do Banco de Nomes de SEHAB/CASE.

A rua principal do Jardim Oriental tem apenas uma parte do nome da peça de piano de um certo Almeida Prado, que na verdade é “Dos ventos do amor e da paixão”

A escolha de nomes só não é pior que as condições de vida: ruas sem nenhuma pavimentação, muito menos postos de saúde ou escolas. E não é de hoje: já em 2008 os moradores reclamavam da falta de esgoto. Aliás, os moradores quase nem se consideram paulistanos, dado que Embu-Guaçu é bem mais perto – tanto que ainda havia pelas ruas propagandas de candidatos à prefeito daquela cidade. Mas voltemos às ruas – e só pelo estado do entorno das placas nota-se a penúria:

Henrique de Curitiba, daí

É lá que ficam os três episódios do Henrique de Curitiba: Lento, alegre e vivaz

Valsa Sideral é uma peça bem louca de Jorge Antunes

Valsa Sideral, por sua vez, é uma peça do pioneiro da música eletrônica Jorge Antunes, vivo até hoje e que a compôs em 1962. Tente ouvir até o final: é a prova que música ruim não tem idade.

A rua mais espaçosa do bairro deve seu nome a três (ooohhh) obras para piano do maestro Cláudio Santoro.

A rua mais espaçosa do bairro deve seu nome a três (ooohhh) obras para piano do maestro Cláudio Santoro.  Um dos espaços, os Infinitos, também nomeia uma rua no Itaim Paulista (que fica dentro de uma favela e não tenho placa para mostrar)

Essa é uma das raras "famosas"

Essa é uma das raras “famosas”. A bela Sonata Patética é de Beethoven.

Só mais uma, prometo:

Dizem que nessa rua tinha um velhinho muito gagá, que não ouvia nada.

Dizem que nessa rua tinha um velhinho muito gagá, que não ouvia nada, o surdinho. Não: é simplesmente um instrumento arcaico criado na Itália muitos séculos atrás, hoje em desuso.

Para voltar à estrada Engenheiro Marsilac, só há um caminho: voltando por onde se veio. Se quiser ir a Embu-Guaçu, basta apenas seguir pela Ventos do Amor, que levarão você até lá (porque asfalto ali não leva muito não). Voltando à Engenheiro, poucos quilômetros depois chega-se ao bairro do Embura.

A igreja na pracinha do Embura.

Até as igrejas são diferenciadas no Embura

Na frente da igrejinha católica tem essa aí, uma espécie de genérica da IURD.

Nesta pracinha, cujo nome oficial é João Adão, você tem três caminhos: seguir pela Engenheiro Marsilac, virar na rua Benedito Schunck (que leva ao Cipó e, consequentemente, a Embu-Guaçu) ou entrar na estrada da Ponte Alta, nossa escolha.

Meu Trem, Meu Mal

Meu Trem, Meu Mal: os ambientalistas querem sumir com a linha, hoje apenas de cargas, entre Mairinque e Santos. A ideia é manter Marsilac como santuário ecológico. Aqui, é a linha vista da Estrada Engenheiro Marsilac.

Seguindo pela Ponte Alta esta se torna a Estrada do Gramado. É pouco depois de quando se cruza (por uma ponte, daí o nome), a linha do trem de cargas que até hoje faz a linha Mairinque-Santos. Boa parte dos bairros que sobraram na região está em torno das antigas estações desta linha, que já transportou passageiros. Como é costumeiro na região, a estrada do Gramado (cujo nome deve ser porque o asfalto já acabou bem antes dela) é recheada de chácaras. Ali, especialmente, há várias clínicas de recuperação de drogados – muito provavelmente porque terão de andar muito até encontrar a civilização. E, a certa altura da estrada, está o quarteirão mais meridional de São Paulo. quarterao

O mapa deste microbairro, o Jardim dos Eucaliptos, engana. Quem vê, pensa até que as ruas são de verdade. Ledo engano, já que apenas os eucaliptos o são, como você vê pelo lugar onde a placa está afixada.

Josefina Miro foi uma atriz

Josefina Miró foi uma atriz portuguesa do começo do século 20. Tão importante que só é mencionada, de leve, neste artigo. É a paralela à direita da Marcos Freire.

No entanto, ironicamente, a não ser pela Josefina, este lugar que liga nada a lugar nenhum não usou do Banco de Nomes para batizar suas ruas. Todos apenas tinham morrido no ano da legalização do bairro, 1987. Caso do Padre Domênico, que nada mais é do que o Cônego Domênico Rangoni que batiza a antiga rodovia Piaçaguera-Guarujá. Já Pedro Macaroff Filho, coitado, foi um motorista de ônibus, morto em cumprimento do dever. O ministro Marcos Freire, principal via do bairro, era titular da pasta da Reforma Agrária durante o governo José Sarney. Morreu num acidente aéreo no Pará.

Ministro Marcos Freire

E esta é a “rua” Ministro Marcos Freire, habitada por palmeiras e sem asfalto. A placa não deu para fotografar pois estava apagada.

Seguindo pela Estrada do Gramado, com paciência, chega-se ao centro de Embu-Guaçu. Mas São Paulo não acabou ainda. Vamos voltar à estrada Marsilac, ali onde a deixamos, no Embura. Só que não aqui, mas em outro post.

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3 pensamentos sobre “Zona Sul Extreme – parte 3

  1. Que de-Lycia! – As ruas mais estranhas de São Paulo

  2. Galeria (cinematográfica) de tipos irrelevantes – As ruas mais estranhas de São Paulo

  3. eu gostaria de saber se vom asfltar. avenida sumare no bairro jardim das fontes numero da cp e 04894499 que fica perto do portao do caulim eu fiquei sabendo que ja consta a rua asfaltada pois ate agora nao tem asfalto neum tem que manda algum fiscal aqui pra ver isso pois precusamos muito do asfalto aqui tem muita criancas que nao estao indo pra escola quando chove pois tem muita lama as criancas chegan na escola toda chujas sera que da para alguem resouver esse pobrema muito obrigado ass monica

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