A história das placas – parte 1

Cada um sinaliza sua rua como pode

Cada um sinaliza sua rua como pode

A coisa mais comum de ver por aqui, como você já deve ter percebido, são placas de ruas. Mas quem já andou por São Paulo, mesmo que seja como turista, já reparou que elas são bem diferentes entre si. Tem explicação – e que precisa de uma boa história, que contarei resumindo as informações do Dicionário de Ruas.

Tudo começa nos primeiros anos do século XIX, quando São Paulo ainda se resumia, basicamente, à atual região central. Mais precisamente em 1809, quando há a primeira menção à denominação das ruas, de acordo com os vereadores de então:

“as denominações deveriam ser escritas “em cada princípio de rua, na quina ou canto de casa, (da maneira) que ficar mais cômodo”

Você entendeu bem: os nomes eram rabiscados na parede.

Tipo isso, só que com o nome da rua escrito

Tipo isso, que orna a rua Eugênio Grieco (ZL), só que com o nome da rua escrito

Placas só passariam a ser mencionadas em 1846, quando a Câmara de Vereadores mandou orçar e contratou um serviço de “numeração e denominação“, especificando, inclusive, que as placas deveriam ser “pretas e brancas”, ou seja, com fundo preto e texto branco. Durante o restante do século XIX, segundo o Dicionário, houve diversas menções nas atas da Câmara sobre placas, mas sempre neste formato.

Era algo mais ou menos parecido com esta placa de Portugal.

Lembrava esta placa, em Portugal.

EIS QUE, muito tempo depois, em 1915, enfim era editada uma legislação a respeito das placas e nomes de ruas, o “ato 769″. Ele previa que o “prefeito daria denominação às ruas, avenidas e praças que não a tiverem e mudando as que tiverem duplicata”. Tão logo isto fosse feito, seriam “colocadas, por conta da Municipalidade, placas nos prédios que ficarem nos cruzamentos das vias públicas.“Até o tamanho era previsto pelo Ato: 45 cm de comprimento por 25 cm de altura“.

Em 1929, o ato seria endossado pela lei 3427, conhecida como “código de obras Arthur Saboya”, nome do fera que bolou a coisa toda. A única diferença do ato de 1915 é que agora as placas teriam fundo azul-escuro. Em 1936, o ato 1013 também previa que as ruas particulares teriam fundo vermelho. E, logo abaixo do nome da rua, “virá, em letras menores, entre parêntesis, texto explicativo do nome dado à via pública”.

Guardadas as devidas proporções, era algo mais ou menos assim, como nesta placa antiga de Porto Alegre.

Guardadas as devidas proporções, era algo mais ou menos assim, como nesta placa antiga de Porto Alegre.

Enquanto isso, a cidade crescia em proporções nunca vistas e exigia novas decisões do poder público no tocante à denominação das vias, que começaram a ser feitas na década de 1970. Para que você tenha uma ideia, só nesta época que as vias começaram a ser cadastradas a sério, por meio do CADLOG (CADastro de LOGradouros). O batismo das que não tinham nomes (ou eram duplicados) foi (mal) resolvido com o nosso querido Banco de Nomes, todos criados na segunda metade dos anos 70. Naquele tempo, o Decreto 13.023, de 1976, previu outros detalhes das placas, que “não poderão contar com mais de 25 letras” e que “poderão contar com subplaca com dizeres relacionados à denominação”. Muitas destas placas você ainda vê por aí:

Em São Rafael (zona leste), esta é da primeira leva do Banco de Nomes. Rodrigo Martins foi conquistador de Sergipe no século XVI.

Em São Rafael (zona leste), esta é da primeira leva do Banco de Nomes. Rodrigo Martins foi conquistador de Sergipe no século XVI – como diz a plaquetinha, oras.

Quem tinha morrido há menos tempo ganhava uma subplaca com o tempo de vida.

Quem tinha morrido há menos tempo ganhava uma subplaca com o tempo de vida. Segundo o dicionário, o sr. Augusto, no Butantã, era “funcionário da Prefeitura de São Paulo: foi Assistente Administrativo da Sub-Procuradoria do Departamento do Patrimônio da Secretaria dos Negócios Internos e Jurídicos da Prefeitura, e faleceu em 29 de novembro de 1976” – bom, ter trabalhado na Prefeitura multiplica de 5 a 50 vezes a probabilidade de se tornar nome de rua, #apontaestudo

Neste tempo, o Banco já se empenhava em batizar ruas com os nomes mais irrelevantes possíveis:

A Wasabi Street fica na Vila Curuçá (zona leste).

A Wasabi Street fica na Vila Curuçá (zona leste). Raiz-Forte, diz a plaquinha, é “planta comestível”.

Só nessa brincadeira já foram mais de 100 anos de placas, né? Mas calma, muita água vai rolar ainda por aqui – só que em outro post.

Obrigado! Mas só sei pesquisar mesmo...

Obrigado! Mas só sei pesquisar mesmo… Boa Memória, além desta rua do Jaçanã, é um distrito de Maracaju, no Mato Grosso, Capital Mundial da Linguiça.

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