Zona Sul Extreme – parte 4 (final)

O Engenheiro Marsilac foi homenageado ainda vivo. Foi ele quem coordenou a construção da linha Mairinque-Santos. Morreu em 1985, quando o bairro já tinha seu nome.

O Engenheiro Marsilac foi homenageado ainda vivo. Foi ele quem coordenou a construção da linha Mairinque-Santos, isso mesmo depois de ter perdido quase toda a visão quando uma granada estourou em seu rosto, na “revolução” de 1932. Morreu em 1985, quando a região já era conhecida por seu nome faz tempo.

De volta ao Embura, o jeito é seguir a estrada Engenheiro Marsilac, que, se você conferir no mapa, passa a seguir a leste, em paralelo à linha da Mairinque-Santos. As paisagens laterais são compostas quase que apenas pelo trem e por uma ou outra construção, como as ruínas da colônia de férias da Kibon. Mas há até indústrias nas vias vicinais, como a estrada da Ponte Seca.

Andando por cima da ponte seca

Andando por cima da ponte seca

E eis que chegamos ao bairro de Engenheiro Marsilac. O nome, como já citei antes, se dá a antiga estação de mesmo nome, já demolida há muito tempo.

A entrada de Marsilac

A entrada de Engenheiro Marsilac

A população não deve passar das duas mil pessoas. O casario é bastante antigo e falta tudo por aqui. Basta dizer que, apesar das ruas do bairro terem nomes escritos nas placas, nenhuma delas é legalizada. Correspondências devem ser mandadas para um barzinho na beira da Estrada, a única via com CEP. Tratamento de esgoto é quase nulo. Pelo menos há algumas linhas de ônibus, que levam ao centro de Parelheiros – e, dali, para o centro de São Paulo, que fica a três horas dali via buzão.

Como a linha de trem deixou de levar passageiros há muito tempo, o bairro acabou se isolando – e vendo sua população se estabilizar. O lado bom foi que a maioria das vias foi pavimentada – o que hoje é bastante restringido pela legislação ambiental. Também há escola (profª Regina Maria B. de Carvalho), um ou outro comércio e um posto de saúde, além de base da PM. Aliás, segurança por ali não é um problema, apesar de Marsilac ter um grande nível de assassinatos. Segundo apurei com um policial que já trabalhou ali, este número é grande porque a zona rural é perfeita para desovar quem foi morto em áreas densamente povoadas. Tanto é que o PCC, até recentemente, mantinha um tribunal do crime por lá.

O casario de Engenheiro Marsilac

O casario de Engenheiro Marsilac. Ao fundo, a kombi do correio trazendo as correspondências. O asfalto acaba lá, também.

Aí você me pergunta: acabou? Não, não acabou. Seguindo pela estrada, que ali deixa de ser asfaltada, chega-se à Evangelista de Souza, outra estação – esta, ainda usada por funcionários da empresa que administra a linha. Um dia, segundo consta, houve um vilarejo por ali.

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Foto da estação em 2004, roubada do site Estações Ferroviárias, de Ralph Giesbrecht.

A área da estação, assim como as diversas cachoeiras e trilhas que se entremeiam pela Serra do Mar, é bastante usada para ecoturismo e passeios de bike. Dali, a próxima estação da linha já é dentro do território de Itanhaém.

Acabou? Calma, pra quê a pressa? Originalmente, em Evangelista de Souza, havia uma bifurcação da linha para o ramal de Jurubatuba da antiga Sorocabana, que nada mais é que a linha 9 da CPTM. Esta, como você sabe, tem seu ponto final atual no Grajaú, bem antes.

O trem passou por aqui

O trem passou por aqui

Malemal encontram-se os trilhos por ali, mas a estrada que corre em paralelo à velha linha ainda está lá. Não por acaso, chama-se Estrada de Engenheiro Marsilac à Barragem, já que Barragem era, originalmente, a estação seguinte, no sentido Jurubatuba. Seguindo direto por ela, toda de terra, chega-se ao nosso já conhecido bairro da Colônia. Virando à direita um pouco antes, na Estrada da Barragem, você vai chegar a outro dos mais isolados bairros da cidade, que você já viu por aqui: o Nova América.

Todas as ruas ruas têm nomes de mortos e desaparecidos na ditadura militar. A principal rua é a Eduardo Collier Filho, de quem já falei aqui, mas há várias outras importantes. Quando passei por lá, em julho do ano passado, a rua Jane Vanine abrigava uma animada quermesse.

Este é o final da Jane Vanine com a Armando Teixeira Frutuoso

Este é o final da rua Jane Vanine Ela, assim como eu, já foi repórter de revista feminina da editora Abril. Desemboca na “rua” Armando Teixeira Frutuoso, que nem asfaltada é.

Mas ainda não chegamos onde realmente ficava a estação da Barragem. Antes, passa-se por alguns minibairros como os Jardins Represa e o Clube de Campo de São Paulo – este, um condomínio fechado. Pouco depois, chegamos ao bairro da Barragem (se não ficou bem claro, é a barragem que marca o final da represa Billings, inaugurada nos anos 30). A velha estação é lembrada pela rua Estação da Barragem, ora pois.

Tudo que está dentro das áreas de proteção ambiental tem placas explicativas.

Tudo que está dentro das áreas de proteção ambiental tem placas explicativas, como esta, na entrada do bairro Barragem.

Seguindo pela estrada da Barragem, você encontrará uma base da Polícia Ambiental e a entrada do Núcleo Curucutu. Além de base dos ecoturistas, é onde fica a aldeia indígena Tenondé-Porã, cuja vida é bem precária. Sempre se veem índios pedindo esmola ou vendendo artesanato pela estrada, à medida que a aldeia se aproxima.

A entrada do núcleo Krukutu.

A entrada do núcleo Krukutu.

Como você viu pela outra placa do lado, as propriedades rurais continuam pululando por ali. Mas, metros depois, já é São Bernardo do Campo, embora nada ali lembre você disso. Seguindo a estrada Barragem, que é mais ou menos paralela ao rio Capivari, você ainda chega à Estrada do Rio Acima que – veja só – chega àquela mesma estrada de Itaquaquecetuba que pegamos lá na Ilha do Bororé.

Você nem reparou que tinha uma estrada embaixo da rodovia, né?

Você nem reparou que tinha uma estrada embaixo da rodovia, né?

Mas, se quiser ir pela Rio Acima, depois de cruzar a rodovia dos Imigrantes, e com a paciência que passa por pegar outra balsa sobre a Billings e um bom caminho por terra, pode voltar à civilização. Mais precisamente na confluência da rodovia Anchieta com a rodovia Caminho do Mar, dentro do bairro de Riacho Grande, em São Bernardo.

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