Marginais de leste a sul – parte 1

Uma brincadeira divertida a fazer com um turista recém-chegado a São Paulo que queira chegar ao centro, vindo de qualquer um dos aeroportos e rodoviárias, é mandá-lo pegar a Rodovia Professor Simão Faiguenboim. Aí diga que, caso ele queira ir para a zona norte, poderá ir pela Embaixador Macedo Soares. Já para a zona sul, entre outras opções, haveria a Major Sylvio de Magalhães Padilha. Daí é só aguardar os xingamentos…

De quebra, ele ainda ganhou uma praça, no Alto de Pinheiros.

Simão Faiguenboim era professor de química. Foi um dos fundadores da rede de cursinhos Anglo. Morreu em 1991. Era tão querido que além da Marginal ganhou essa praça, no Alto de Pinheiros

Mas que nem teriam motivo: é que na verdade, todos esses nomes simplesmente designam uma (ou as duas) Marginais, que ligam a cidade de leste a sul. Para começar, desde que o último trecho da Marginal Pinheiros foi entregue, em 1991, as marginais Tietê e Pinheiros são parte de um mesmo complexo rodoviário, a SP-015. Ou melhor: Rodovia Professor Simão Faiguenboim, que tinha morrido na época. Parece que há uma placa com o nome do mestre em algum lugar confirmando o batismo, mas nunca vi. Fique então com a lei que o oficializou. (Mas se algum dos leitores achar, por favor me mande a localização da placa, ok?).

Alarme falso. Você nunca verá essa placa nas Marginais

Alarme falso. Você nunca verá essa placa nas Marginais – e nem mais nesta rua, que hoje se chama Sylvio Lagreca, em Raposo Tavares.

Mas precisamos sair de algum lugar. Vamos supor que nosso amiguinho veio do aeroporto de Guarulhos e adentrou a cidade pela rodovia Ayrton Senna (que um dia já foi Trabalhadores, quando o piloto era vivo). É só pisar em território paulistano que a “Marginal” assume o nome de Morvan Dias de Figueiredo:

O pernambucano Morvan foi Ministro do Trabalho do governo Dutra, entre 1946 e 1948. Antes, dizem que foi até estivador. Morreu em 1950

O pernambucano Morvan foi Ministro do Trabalho do governo Dutra, entre 1946 e 1948. Antes, dizem que foi até estivador. Morreu em 1950

Morvan permanece marginalizado por um bom tempo, ainda que tenha uma interferência. Entre o shopping Center Norte e a rodoviária do Tietê, a pista local assume o nome da rua da Coroa, como se fosse um prolongamento da própria, que começa no centro da Vila Guilherme. As outras seguem como Morvan, mas por poucos metros.

Segundo a prefeitura, não é nenhuma nobreza: a referência é a Ilha da Coroa Comprida, no Pará, que logo vai acabar.

Segundo a prefeitura, não é nenhuma nobreza: a referência é a Ilha da Coroa Comprida, no Pará, que logo vai acabar. Mas há indícios que isso seja mentira, como aponta a enciclopédia urbana de Ralph Giesebrecht

Cruzando a ponte das Bandeiras, chegamos na Avenida Assis Chateaubriand:

Esse merece homenagens: "apenas" trouxe a TV para o país, bancou boa parte da imprensa, etc e tal. E isso mesmo depois de ter sofrido um derrame. Dizem que seu amigo Lima Duarte se inspirou em Assis para compor o Dom Lázaro, da novela Meu Bem Meu Mal.

Chatô (1892-1968) merece homenagens: “apenas” trouxe a TV para o país, bancou boa parte da imprensa, etc e tal. E isso mesmo depois de ter sofrido um derrame. Dizem que seu amigo Lima Duarte se inspirou em Assis para compor o Dom Lázaro, da novela Meu Bem Meu Mal.

Dura pouco esse nome: já no cruzamento com a ponte da Casa Verde, Chatô (de quem o ator Guilherme Fontes é muito fã) dá lugar a um certo Otaviano (que não é esse):

O rico empresário Otaviano não tinha onde gastar seu dinheiro e fundou uma certa Folha da Manhã, que depois passou para as mãos da família Frias. Também era "fisiocrata por idealismo", segundo a Prefeitura.

O rico empresário Otaviano certamente não tinha onde gastar seu dinheiro. Por isso, em 1925, fundou uma certa Folha da Manhã, que depois chegaria às mãos da família Frias. Também era “fisiocrata por idealismo“, segundo o Dicionário de Ruas.

Não deixa de ser curioso que a sede do Estadão, no Limão, fique, oficialmente, numa “avenida” cujo nome é o do fundador de seu principal concorrente. Ele só sai de cena depois da saída lateral da rodovia Anhanguera, uns bons quilômetros depois. Caia para trás com a descoberta:

Não me leva a mal, aqui é marginal

Não me leva a mal, aqui é marginal

O nome Marginal permanece até um pouquinho antes da entrada da rodovia Castello Branco – que, você nem percebe, mas já é Osasco. Lá, vira Avenida Presidente Kennedy. Um pouco antes, na saída da Anhanguera, a Marginal se confunde com os leitos das avenidas Manoel Monteiro de Araújo Domingos de Sousa Marques – dois irrelevantes artesãos do século XVIII. Breve mostrarei que esses nomes são mais comuns do que se pensa.

Mas eis que você cruzou o Cebolão, inaugurado apenas em 1978 (ou melhor, Complexo Viário “Heróis” de 1932) e chegou na marginal Pinheiros, não? Não! Primeiro que a pista final do Cebolão, embora não tenha placas, se chama André Beauneaveu – um escultor francês da Idade Média. Daí, sim você chegou aqui:

O engenheiro americano Asa White Billings foi importado para o Brasil para construir hidrelétricas, como a de Cubatão - e, claro, a represa que também leva seu nome.

O engenheiro americano Asa White Billings, morto em 1949, foi importado para o Brasil para construir hidrelétricas, como a de Cubatão – e, claro, a represa que também leva seu nome. Fizeram até revista em quadrinhos sobre sua vida.

Mas olha que loucura: a Billings começa, na verdade, lá dentro do Jaguaré, na avenida Presidente Altino, fazendo esquina com ela mesma! É que a avenida Billings já existia antes e já fazia essa curva… Mas se você tivesse vindo da pista direita da Castello Branco, ainda teria passado por duas “ruas”, a Andries Both e a Antoine Bourdelle:

Tanto Andries (que nem tem placa) quanto Antoine são obra do Banco de Nomes: Andries era um pintor holandês do século 17. Antoine, um escultor francês - tem obras dele espalhadas por toda Paris.

Tanto Andries (que nem tem placa) quanto Antoine são obra do Banco de Nomes: Andries era um pintor holandês do século 17. Antoine, um escultor francês – tem obras dele espalhadas por toda Paris.

Mas passou, tá? Depois disso, ela continua Billings até a ponte Cidade Universitária. Daí, o engenheiro troca de lugar com o médico:

Doutor José Ferraz Magalhães de Castro foi um dos pioneiros da homeopatia no Brasil, tendo aberto sua clínica em 1890. Morreu em 1942.

Doutor José Ferraz Magalhães de Castro foi um dos pioneiros da homeopatia no Brasil, tendo aberto sua clínica em 1890. Morreu em 1942.

A Magalhães continua com esse nome até a ponte Cidade Jardim – ou melhor, ponte Engenheiro Roberto Rossi Zuccolo. Embora já tivesse uma avenida com seu nome, a homenagem (dada nos anos 90) foi merecida. É que, na “cena arquitetônica”, Zuccolo (morto em 1967) era conhecido como o homem das pontes” – justamente por ter ajudado a erguer a própria Cidade Jardim. Mas a partir daí, Marginal passa a ser a…

Se meus pais fossem religiosos, talvez meu nome seria Bonifácio - já que o seu "dia" é o mesmo do meu aniversário: 5 de junho

Se meus pais fossem ultracarolas católicos, talvez meu nome fosse Bonifácio – já que o seu “dia” é o mesmo do meu aniversário: 5 de junho. O maior feito de São Bonifácio foi ter derrubado o carvalho sagrado dedicado ao deus nórdico Thor, no ano 723.

Essa rua já existia antes de ser “engolida” pela Marginal, na década de 1970 – tanto que, depois da ponte, ainda havia casas que davam para a pista. Algumas delas, recentemente demolidas para a construção de uma nova alça para a Cidade Jardim. No final da São Bonifácio, você tem uma bifurcação para a ponte Ary Torres, que leva à avenida dos Bandeirantes. Caso queira prosseguir, sem que se note, você entrou na

O professor Alcides dava aula de História e Geografia no Grupo Escolar do Bananal. Morreu em 1931, aos 50 anos.

O professor Alcides Sangirardi dava aula de História e Geografia no Grupo Escolar do Bananal. Morreu em 1931, aos 50 anos.

Agora, pense em algo louco, bem louco. Mas muito louco meeesmo. Talvez uma avenida que volte a ter o mesmo nome que tinha antes:

Isso. A partir da esquina com a rua Joapé, na frente do shopping Cidade Jardim, a marginal volta a se chamar Magalhães de Castro.

Isso mesmo. A partir da esquina com a rua Joapé, na frente do shopping Cidade Jardim, a Marginal volta a se chamar Magalhães de Castro !

É que, na verdade, a Marginal nunca perdeu esse nome. Tecnicamente, todo o tempo em que Magalhães passou longe da gente foi porque ele estava nomeando só a pista expressa, não a local – a numeração continua o trecho anterior, inclusive. Este trecho da Marginal ainda é relativamente recente: só tem uns 35 anos, tendo sido construído pelo então governador Abreu Sodré. Dá mesmo para dizer que foi o Rodoanel da época, como diz Giesbrecht.

O trecho seguinte, a partir da ponte do Morumbi, foi inaugurado em 1982 pelo atual presidente da CBF. Aquele, que antes de ter sido governador-tampão também foi cúmplice de assassinato. Por ter sido inaugurada depois, ainda manteve o nome de Marginal Esquerda do Rio Pinheiros. Para o desespero dos vereadores, o batismo “sem graça” até que sobreviveu bastante, 22 anos. Só em 2004 ganhou outro:

Até 2004, era apenas "Marginal Esquerda do Rio Pinheiros"...

E, enfim, o famigerado ACR, aquele que é senador e vereador ao mesmo tempo, conseguiu. Desde então, a avenida homenageia o Major Sylvio, que foi presidente do Comitê Olímpico Brasileiro entre 1963 e 1990 – e que bateu as botas em 2002.

Por alguns poucos anos, a então Marginal acabava na entrada da ponte João Dias. Mas logo sairia a ampliação, no finalzinho da década de 1980, impulsionada pelo grande centro empresarial que foi aberto ali (e que não tinha acesso…). Daí, você ganhava uma ligação com o outro lado da via (tema do próximo post), pela ponte Transamérica, ou ainda seguir em frente até a avenida Guarapiranga. Este último trecho foi uma gentileza com a fábrica de bicicletas que já existia ali – até porque desde muito antes, já havia uma rua com o mesmo nome no Brooklin:

Fundador da Caloi, Guido morreu em 1955.

Fundador da Caloi, Guido morreu em 1955.

A bem da verdade, deveria ter começado este post ao contrário, já que estes são os trechos mais recentes. Mas como nosso turista imaginário sairia de Guarulhos de outro jeito? Aguarde o próximo que eu explicarei o caminho de volta pelas marginais – ops, pela Rodovia Professor Simão Faiguenboim.

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