Marginais de sul a leste – parte 2

Ok, você chegou até a avenida Guarapiranga vindo lá de Guarulhos. Ok. Agora, vamos partir do limite sul da Rodovia Simão Faiguenboim: a rua Miguel Yunes. Ela começa (ou acaba) no cruzamento da avenida Nossa Senhora do Sabará, na entrada da região da Pedreira. O nome “rua” é uma lembrança do tempo em que era só uma estreita rua atrás do autódromo de Interlagos. A duplicação, que a fez se tornar um prolongamento natural da avenida anterior, a partir do cruzamento com a Avenida Interlagos…

O "brimo" Miguel Yunes era comerciante. Morreu em 1943, aos 62 anos.

O “brimo” Miguel Yunes era comerciante. Morreu em 1943, aos 62 anos.

… que vem a ser a Avenida das Nações Unidas! Na verdade, no seu trecho final, entre a ponte do Socorro e a Miguel Yunes, é só uma avenida mesmo: o rio Pinheiros segue passando por trás dos lotes do seu lado direito, rumo à represa do Guarapiranga.

Nações Unidas são os países unidos, oras. Oficialmente, é uma homenagem à ONU.

Nações Unidas são os países de todo o mundo unidos, oras. Oficialmente, é uma homenagem à ONU.

Este trecho entre a avenida Interlagos e a ponte do Morumbi (mais ou menos onde está a placa acima) foi o último a ser inaugurado, no início da década de 1970, como lembra Giesbrecht. Ainda assim, entre a Socorro e a Interlagos, já existia uma “avenida” primordial, que hoje é um curioso estacionamento escondido no canteiro central da via.

Olha ele aí, na frente do shopping SP Market

Olha ele aí, na frente do shopping SP Market

Daí, a Nações Unidas (vulgo Marginal Direita de Pinheiros) continua margeando o rio (e a linha 9 da CPTM, antigo leito da Sorocabana, que levava ao litoral). Este trecho foi inaugurado em 1969, pelo prefeito Faria Lima, que terminou de retificar o leito do rio (processo iniciado ainda nos anos 1940). Logo a prefeitura começaria a canalizar os diversos córregos afluentes do Pinheiros, que você nem sonha que um dia existiram, como o do Sapateiro e o Uberaba, que correm sob as avenidas Faria Lima, Hélio Pellegrino e Juscelino Kubitschek (saiba mais aqui). Alguns sobreviveram até os anos 80 e 90. Do que eu estava falando mesmo? Ah, da Marginal Pinheiros… pois bem: ela continua como Nações Unidas por muito tempo. Mas, depois da ponte Cidade Jardim, mais precisamente quando cruza a rua Professor Artur Ramos, a pista local se mimetiza na rua…

Hungria "orna" com as ruas do Jardim Europa, ainda que esteja relativamente longe delas.

Hungria “orna” com as ruas do Jardim Europa, ainda que esteja relativamente longe delas.

A explicação é simples: a rua (e alguns de seus prédios) já existiam na década de 1960, quando a Marginal foi aberta (e engoliu todas as casas do lado ímpar da Hungria). A rua húngara termina discretamente na esquina com a rua Ofélia, acesso para uma das entradas do shopping Eldorado. Daí, a pista local recupera o nome Nações Unidas.

Sumidouro era onde o "caçador de esmeraldas" Fernão Dias vivia, no tempo dos bandeirantes. É nessa esquina que fica o NEA.

Sumidouro era onde o “caçador de esmeraldas” Fernão Dias vivia, no tempo dos bandeirantes. É nessa esquina que fica o NEA.

Ainda assim, sempre há confusão com os nomes. Cansei de marcar reuniões de leitoras da Gloss no tempo em que trabalhava lá e falava, inocentemente, que era na Abril da Marginal Pinheiros. E sempre tinha uma ou duas fofas que acabavam indo parar na outra sede da editora, na Otaviano Alves de Lima, vulgo Marginal Tietê. Pouco depois, mais precisamente na esquina com a rua Miralta, a pista local troca de nome:

General Jerônimo Furtado Nascimento, nasceu em 1873. Descendente de tradicional família cearense, tinha honrosa folha de relevantes serviços prestados a Nação. Possuia o curso das três armas.

General Jerônimo Furtado Nascimento nasceu em 1873. Descendente de tradicional família cearense, tinha honrosa folha de relevantes serviços prestados a Nação. Possuia o curso das três armas(!). Faleceu em 1951.

O general Furtado permanece até a altura do shopping Villa-Lobos (que, inclusive, fica oficialmente na Avenida das Nações Unidas, 4700). Seguindo, logo você encontrará o Ceagesp. Cruzando-o, já estará na avenida Mofarrej, que termina lá na Gastão Vidigal, dentro da vila Leopoldina. Antes do Cebolão ser inagurado, só passando por dentro destas ruas (que até hoje concentram armazéns de hortifrutis, embora alguns tenham virado até balada, como a antiga Pacha, meca dos douchebags de anos atrás) que se chegava à Tietê. Mas você não vai até lá: vai é pegar o viaduto ao lado do Cadeião de Pinheiros e, bem… continuará na Nações Unidas! O “quilômetro zero” da Marginal Tietê só é abaixo da ponte dos Remédios, esquina com a rua Major Paladino: 

O diplomata José Carlos de Macedo Soares foi ministro das Relações Exteriores de JK entre 1955 e 1958. Morreu em 1968. Coincidentemente, ano em que este trecho da Marginal foi aberto.

O diplomata José Carlos de Macedo Soares foi ministro das Relações Exteriores de JK entre 1955 e 1958. Morreu em 1968. Coincidentemente, ano em que este trecho da Marginal foi aberto.

O embaixador fica até a ponte da Freguesia do Ó. A partir dela, é a vez dele, o homem, o cara:

Alarme falso! Mas bem que gostariam que fosse ele..

Alarme falso! Mas bem que gostariam que fosse ele. A rua Carlos Marighella fica na Brasilândia.

É que a avenida Presidente Castello Branco vive tendo suas placas “esculachadas” por militantes de esquerda, que grudam os nomes de revolucionários do passado sobre o nome do primeiro presidente da ditadura militar, o marechal sem pescoço:

Castello era do grupo mais moderado entre os militares. Era contra o endurecimento do regime. Tanto que seus "colegas" resolveram se livrar dele derrubando o avião em que viajava, em 1967. A história até hoje é mal-explicada.

Castello era do grupo mais moderado entre os militares. Era contra o endurecimento do regime. Tanto que seus “colegas” resolveram se livrar dele derrubando o avião em que viajava, em 1967. A história até hoje é mal-explicada.

Pouco depois da ponte da Casa Verde, acontece algo curioso: a avenida Castello Branco se bifurca em duas: um lado entra no Bom Retiro e segue assim até o início da Avenida do Estado. O outro segue margeando o Tietê, passando sobre o afluente Tamanduateí. Rodam-se mais alguns quilômetros e só lá na frente, depois da ponte da Vila Maria (ou presidente Jânio Quadros), que o Castello vai abaixo, tornando-se a…

Bethinha, para os íntimos (1773-1864) era a fundadora da Congregação das Irmãs de São Vicente de Paulo, que tinham uma escola no bairro da Penha.

Bethinha, para os íntimos (1773-1864) era a fundadora da Congregação das Irmãs de São Vicente de Paulo, que tinham uma escola no bairro da Penha.

Só que a Elizabeth de Robiano, de repente, passa a ter “vida própria” a partir do Parque São Jorge, o velho estádio do Corinthians, dando a volta em toda a área do clube. Ao lado do rio, embora não haja placa, a Marginal se torna a Rogério Alves de Toledo, nome assumidamente retirado do Banco de Nomes que relembra um dos fundadores da cidade de Bebedouro, no interior paulista.

Logo depois do Corinthians (que tem o endereço oficial nessa Rogério mesmo), Elisabeth volta como se nada tivesse acontecido. Siga-a toda vida, caso queira pegar a Ayrton Senna (ex-Trabalhadores). A rodovia começa oficialmente tão logo se cruza a ponte Nordestino, que liga a Penha a Guarulhos.

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Ainda assim, a Elisabeth tem uma curta sobrevida como “marginal” da Ayrton Senna, quando dá na entrada do Parque Ecológico do Tietê. Sua última saída para algum bairro, no entanto, se dá um pouquinho antes, na esquina com a avenida Gabriela Mistral, antigo trecho da Estrada da Conceição e também antiga Estrada de Guarulhos – mas que desde 1957 tem o nome da escritora espanhola. 

Gabi foi Nobel de Literatura em 1945. Morreu em 1957, mesmo ano em que virou avenida.

Gabi foi Nobel de Literatura em 1945. Morreu em 1957, mesmo ano em que virou avenida.

Este trecho da Gabriela serve tão somente de alça de acesso à ponte Nordestino. Para acessar o bairro da Penha, você teria de ter entrado antes… mas fique tranquilo que lá tem placa (eu acho).

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