Galeria de tipos irrelevantes – I

Como já falamos aqui, no longínquo ano de 1978, a cidade tinha um grave problema: MILHARES de ruas sem nome, ou ainda, com aqueles nominhos-padrão, tipo “São João”, “das Amoreiras”, “Dom Pedro”, “A”,etc.

Por causa disso, a prefeitura convidou o professor de arquitetura Benedito Lima de Toledo, que coordenou um mapeamento de todas as ruas com problemas e criou um velho conhecido nosso: o Banco de Nomes. A equipe que ele coordenava juntou mais de 20 mil nomes de todos os tipos – vários que você também já viu por aqui. Em entrevistas, Toledo dizia que a ideia, inclusive, era de “utilizar os nomes em forma de manchas: um bairro teria ruas com um só tema” – como realmente aconteceu na região de São Miguel, na ZL, por exemplo. Lá, quase todas as ruas têm nomes de frutas, ervas ou plantas, como a Avenida Mimo-de-Vênus. 

Mas o desespero para rebatizar as ruas era tão grande que QUALQUER fonte era usada para batizar as vias paulistanas. Até mesmo livros como este:

Nossa, que leitura empolgante

Nossa, que leitura empolgante

Quem tiver o prazer de pegar esse livro em mãos vai se deparar com uma mera listinha de nomes, apenas com a profissão desses artistas artífices mineiros, sem maiores detalhes, mas que já eram o suficiente para a Prefeitura usar TODOS os verbetes desse dicionário. Certamente nem mesmo eles imaginariam ter sua posteridade, 200 anos depois da morte, e ainda por cima em São Paulo!

São mais de MIL nomes nessas condições. Ainda assim, não chamam a atenção porque são parecidos com os nomes de qualquer pessoa dos dias de hoje, como se vê abaixo. A decepção só surge quando você descobre quem eram.

Hoje, pela lei atual, de 2007 – 29 anos depois do batismo dessas ruas – isso seria impossível, pois a pessoa homenageada teria de ter prestado algum “serviço relevante” à sociedade. O que, cá entre nós, um pedreiro mineiro que trabalhou em 1750 de certo não prestou. Se tiver alguma coisa que ele fez de pé já é lucro.

Veja alguns:

"Francisco Correa, morava em Itatiaia, Minas Gerais, e trabalhava na comarca de Vila Rica, atual Ouro Preto, na primeira metade do século XVIII."

“Francisco Correa morava em Itatiaia, Minas Gerais, e trabalhava na comarca de Vila Rica, atual Ouro Preto, na primeira metade do século XVIII.“. A rua fica em Ermelino Matarazzo, zona leste.

Quer dizer, nem se sabe o que o Chico fazia, na verdade. Ele apenas existia.

Esta rua foi denominada através do Decreto nº 17.337 de 02/10/1978. Guilherme Magalhães :Carpinteiro , exercia o ofício em Serro(MG), na segunda metade do séc. XVIII.

“Esta rua foi denominada através do Decreto nº 17.337 de 02/10/1978. Guilherme Magalhães: Carpinteiro , exercia o ofício em Serro(MG), na segunda metade do séc. XVIII.”. A rua está no Campo Limpo, zona sul.

Tem artesãos irrelevantes em bairros ricos e bairros pobres. O de baixo fica num ponto chiquíssimo do Morumbi:

"Gil Roseiro, ativo em Ouro Preto, Minas Gerais na segunda metade do século XVIII. Executou trabalhos de pintura na igreja de Nossa Senhora das Mercês e Perdões."

“Gil Roseiro, ativo em Ouro Preto, Minas Gerais na segunda metade do século XVIII. Executou trabalhos de pintura na igreja de Nossa Senhora das Mercês e Perdões.”

Calma que piora:

"Goalter Alves de Azevedo exerceu o ofício de pedreiro na cidade de Itabirito (MG) na primeira metade do século XVIII, onde realizou serviços na Igreja de Nossa Senhora do Rosário."

“Goalter Alves de Azevedo exerceu o ofício de pedreiro na cidade de Itabirito (MG) na primeira metade do século XVIII, onde realizou serviços na Igreja de Nossa Senhora do Rosário.” A rua fica em Pirituba, zona norte.

Com todo respeito aos pedreiros (que hoje ganham mais do que muito profissional formado), mas dificilmente um deles, a não ser que tenha sido líder comunitário, político ou querido pela comunidade, viraria nome de rua nos dias de hoje. Mas esse zé-ninguém do Goalter e muitos outros de 300 anos atrás viraram.

Não são só ruas pequenas dentro dos bairros:

"Carpinteiro de Sabará do Século XIX. Exerceu o ofício de carpinteiro na primeira metade deo século XIX em Sabará (MG). Este nome foi retirado do BANCO DE NOMES."

“Carpinteiro de Sabará do Século XIX. Exerceu o ofício de carpinteiro na primeira metade deo século XIX em Sabará (MG). Este nome foi retirado do BANCO DE NOMES.”

Essa aí de cima é a rua (ou melhor, avenida) que faz a ligação entre o final da rodovia Anhanguera e a Marginal Tietê. Talvez você já tenha até visto o nome do Manoel em embalagens de xampu, já que a fábrica da L’Oreal fica lá, bem como  garagens de ônibus e da Porto Seguro.

E você acha que pára por aí? É só a primeira parte! Tem uma lista imensa de pessoas irrelevantes batizando ruas, como falarei depois:

– Músicos e pintores medievais;

 Artistas e políticos do Paraná (em quantidade bem maior que a dos outros estados, daí);

– Políticos argentinos do século 19; Deve ter gente que nem em Buenos Aires é nome de rua. A maioria fica na região de Brasilândia;

– TODOS os mortos na ~revolução~ de 1932, seja durante a própria ou depois (ah, vai, esses são ok)

– Atores do ELENCO DE APOIO de filmes do início do cinema; Acredite ou não, São Paulo não tem nenhuma rua “Cary Grant”, “James Stewart”, “Marilyn Monroe” mas tem outras com o nome de gente que até o IMDb tem dificuldade de encontrar.

– TODOS os bandeirantes e exploradores quinhentistas que você puder imaginar, que pilharam agiram em todo o país. Também deve haver mais de mil nomes nessa condição;

TODOS os pracinhas brasileiros mortos durante a II Guerra (ok, esse é justo também)

até outros mais recentes, como boa parte dos mortos na ditadura militar (tema de um dos primeiros posts deste blog). Ou ainda, os mortos no acidente da base de Alcântara, em 2003. Dez anos depois, quase todo mundo virou rua, do chefe da equipe até o cameraman da missão.

Mas aí já é assunto pra outro post. Chega!

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3 pensamentos sobre “Galeria de tipos irrelevantes – I

  1. Tá rolando uma química… – As ruas mais estranhas de São Paulo

  2. Galeria de tipos irrelevantes, daí – parte 3 – As ruas mais estranhas de São Paulo

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