Galeria de ruas estranhas, apenas – 1

As ruas de São Paulo têm batismos tão sui generis que as vezes fica até difícil juntar materiais para posts temáticos como os que você vê por aqui. É que a viagem – nem sempre culpa do Banco de Nomes, as vezes são obras dos próprios moradores – é tão grande que nenhum critério é suficiente. Veja só:

A rua fica na Vila Maria (zona norte). O nome foi dado pelos próprios moradores.

A rua fica na Vila Maria (zona norte). O nome foi dado pelos próprios moradores.

A placa acima está bem ruim de ver, mas se trata do ilustríssimo Coronel Cucoque nunca pisou em nenhum quartel ou congênere simplesmente porque nunca existiu. Era apenas o pseudônimo do apresentador de um obscuro programa de rádio dos anos 1960 – segundo o colaborador do Dicionário de Ruas, na extinta Rádio Marconi. Já outros dizem que era na igualmente extinta Rádio Cometa.

Ada, na Cidade Ademar (zona sul)

Ada, na Cidade ADAmar (zona sul) KKKKK

Essa é controversa: segundo o Dicionário de Ruas, Ada é “palavra árabe que designa tanto o pagamento de uma dívida, quanto o cumprimento de um dever religioso. – Ada, na informática é linguagem de programação de alto nível. Mas acho que a explicação é mais simples: apenas um loteador querendo homenagear a mulher (ou uma loteadora querendo homenagear o marido). É que só uma quadra depois fica outra rua que “orna” com a “Ada”: a Adalberto.

O sonho de Anarello fica no Paraíso. Bonito, não?

O sonho de Anarello fica no Paraíso. Bonito, não?

Para começar a explicar o curioso nome da rua, você precisa conhecer o simpático italiano Giovanni Bruno. Garçom do famoso Gigetto, frequentado por artistas, ganhou do diretor de teatro Antunes Filho o apelido de Anarello, por causa do personagem principal do filme A Rosa Tatuada, de 1955. Logo, Bruno foi abrindo seus próprios restaurantes (um deles até pegou fogo), que foi vendendo. Até que, em 1980, realizou seu sogno, abrindo a cantina Il Sogno di Anarellono número 58 da rua Timbuí (nome de um rio no Espírito Santo). Lá, até hoje, ele atende pessoalmente os clientes e prepara pratos clássicos. Tanto carinho foi retribuído por um vereador paulistano que, em meados dos anos 80, transformou a Timbuí em Il Sogno di Anarello. Na Sogno só não vá no salão de cabeleireiro que fica no número 40, dizem que é um cenário de filme de terror.

No Carnaval, a venda de tapaxanas deve aumentar substancialmente

No Carnaval, a venda de tapaxanas deve aumentar substancialmente

Humor estilo Zorra: a gente vê por aqui. Não, Tapaxanas não são o que você está pensando. São (ou melhor, eram) uma tribo indígena já extinta que habitava as margens do rio Solimões, no Amazonas. A rua, por sua vez, fica quase dentro do parque da Cantareira, no Tremembé (zona norte).

Que legal, o pessoal da Prefeitura gosta tanto de usar o Photoshop e o Illustrator...

Que legal, o pessoal da Prefeitura gosta tanto de usar o Photoshop e o Illustrator… A rua está no Jardim Helena, zona leste.

Como você, um atento leitor, já percebeu, é claro que o Adobe não tem nada a ver com a empresa de softwares como o Photoshop. Até porque a placa é dos anos 70, mais precisamente da primeira leva do Banco de Nomes. Mas antes fosse, porque a homenagem é para um tipo de tijolo rudimentar, uma espécie de bloco de pau-a-pique, que pode ser feito até com esterco de vaca.

Fui à Vila Olímpia, bati de porta em porta e não achei o ator em nenhuma casa

Fui à Vila Olímpia, bati de porta em porta e não achei o tal ator, chatiado

Esta importante rua da Vila Olímpia já foi point dos baladeiros, em casas como a antiga Ibiza, que não foi a nossa Kiss por muito pouco. Mas garanto que ninguém sabe o motivo do nome, oficializado ainda no longínquo 1952. É que naquele tempo havia uma espécie de Retiro dos Artistascomo o carioca, justamente chamado de Casa do Ator – e que fechou ainda nos anos 50, pelo que consta. Isso num tempo em que a Vila Olímpia ainda era um pântano com cara de cidade do interior. Curiosamente, o Retiro dos Artistas carioca também fica na Rua Retiro dos Artistas. 

Uma microparalela da Jacu-Pêssego, no coração de Itaquera (parece propaganda de prédio)

Uma microparalela da Jacu-Pêssego, no coração de Itaquera (parece propaganda de prédio)

Nada a ver com o ator Paulo Gorgulho ou sua família. É pior: o Banco de Nomes achou por bem batizar uma rua com esse nome graças à outra acepção do termo Gorgulho: Detritos de rocha, ou seja, um nome diferente para cascalho. 

Mas rapaz, é uma fixação com pedra, gente...

Com certeza havia um fã de pedras na prefeitura

Como você vê pelas duas placas, a categoria de pedras moídas está muito bem representada na cidade, com a companhia da rua Brita, em Cangaíba, também na ZL. Além delas, também tem o Barão de Cascalho, mas ele existiu mesmo: foi o fundador da cidade de Cordeirópolis, no interior de São Paulo – aliás, “fundadores de cidades do interior” também são uma categoria bem grande do Banco de Nomes.

A classe média sofre mesmo: não bastam os escorchantes impostos diários, ainda "homenageiam" uma rua com um deles

A classe média sofre mesmo: não bastam os escorchantes impostos diários, ainda “homenageiam” uma rua com um deles

Isso mesmo que você leu. Uma das vertentes do Banco de Nomes, aparentemente, foi “eternizar” coisas e palavras em desuso há séculos nas coitadas das ruas. É o caso da Capitaçãoque fica no Lajeado (ZL), que nada mais era que um dos impostos que o Império cobrava dos exploradores de diamantes em Minas Gerais, nos séculos 17 e 18. Bom, pelo menos a “capitação” fica na boca do povo, assim como o…

Almotacel designa "O antigo inspetor de pesos e medidas", diz o Dicionário.

Almotacel, que designa “O antigo inspetor de pesos e medidas”, de acordo com o Dicionário. A rua está na Brasilândia (zona norte).

Na verdade, segundo consta, o almotacel, além de verificar os pesos e medidas, tinha cargos em lugares tão curiosos como a Câmara dos Vereadoresna prática sendo uma espécie de “moderador” dos vereadores. E pelo “al” do início, muito provavelmente o termo tem origem árabe. Mas já no século 19, ninguém mais precisava de almotaceis. Eles só voltariam a ser úteis a partir de 1978, quando um certo Banco de Nomes resolveu arrolar TODOS os almotaceis brasileiros e transformá-los em ruas. É, você leu certo: cerca de 100 ruas paulistanas (e eu não terminei de contar ainda), têm nomes de almotaceis, pelo simples motivo de terem existido um dia.

"Manoel Simões exerceu o ofício de carpinteiro em Conceição do Mato Dentro no Estado de Minas Gerais, na primeira metade do século XVIII. Foi almotacel do século XVI."

“Manoel Simões exerceu o ofício de carpinteiro em Conceição do Mato Dentro no Estado de Minas Gerais, na primeira metade do século XVIII. Foi almotacel do século XVI.” A rua é do Sacomã (zona sul).

Diz a lenda que é de Manoel Simões, que na verdade se chamava João Manoel Simões, a origem do termo Zé Mané, que designa o famoso ninguém. Atente para o detalhe do texto da Prefeitura na legenda da foto – que não editei. Segundo ele, Mané viveu 200 anos…

Espero voltar na semana que vem com mais nomes estranhos. Aguardem (mas sem pressa, tá?)

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