Ruas literárias – 1

Se já sabemos que o Banco de Nomes adorava dar uma passada pelo nosso cancioneiro (tanto o erudito quanto o popular), a literatura não ficou atrás. Uma riquíssima biblioteca passou a batizar as ruas paulistanas a partir de 1978.

Sem dúvida, onde elas mais aparecem é Santo Amaro, na zona sul. É que a região, que já foi uma outra cidade independente, até aquele ano, tinha várias ruas com os mesmos nomes das áreas mais centrais. Aí a maior rua ficava com o nome antigo. Por isso que Amador Bueno, por exemplo, ficou por lá enquanto a rua do centro, de apenas uma quadra, virou a rua do Boticário (outra coisa que o Banco gosta: profissões).

Mas, na maioria das vezes, era o contrário: as ruas santamarenses trocando de nome. E eis que, oficialmente a partir do dia 23 de fevereiro de 1979, algumas das principais artérias do bairro acordaram literárias:

13 de Maio...

13 de Maio virou uma antologia de poemas lusitanos editada por José Pedro Machado

7 de setembro...

7 de Setembro, outra antologia poética portuguesa, editada em 1975 (apenas três anos antes)…

e 15 de Novembro, passou a homenagear, meramente, um estilo artístico e literário

e 15 de Novembro, passou a homenagear, meramente, um estilo artístico e literário

Os estilos, aliás, não eram o Charlie Brown mas invadiram a cidade:

Quando tive isso na escola, achava que era doença. Mas não: é só chato mesmo. A rua está no Brás e tinha outro nome antes também (só não descobri qual ainda).

Quando tive isso na escola, achava que era doença. Mas não: é só chato mesmo. A rua está no Brás e tinha outro nome antes também (só não descobri qual ainda).

Uma odisseia mesmo deve ser chegar à rua da Poesia Épica, numa quebrada da Brasilândia (zona norte).

Uma odisseia mesmo deve ser chegar à rua da Poesia Épica, numa quebrada da Brasilândia (zona norte).

Não muito longe, na Cachoeirinha, estão as Lendas

Não muito longe, na Cachoeirinha, estão as Lendas

Nasci no Cambuci da rua da Mooca sou travessa sou a rua do Lirismo

Nasci
no Cambuci
da rua da Mooca
sou paralela
sou a rua do Lirismo

E ainda tem muito mais – e isso porque nem todas previstas pelo decreto original acabaram ganhando os nomes planejados. A antiga São Francisco, também em Santo Amaro, escapou de virar a rua da Ficção Científica por pouco. Virou Henri Dunant, o fundador da Cruz Vermelha. Mas voltemos à nossa biblioteca:

Bem perto da Cancioneiro Popular, outro obscuro livro "luso-português".

Bem perto da Cancioneiro Popular, outro obscuro livro “luso-português”. A ideia com certeza era confundir os visitantes do bairro

O curioso da Novo Cancioneiro, antiga Rua das Magnólias, que dá nome até a uma ~clínica de massagem~ da via, é que é a única do antigo loteamento que mudou de nome. As outras vizinhas conservaram os nomes florais: Sempre-Vivas, Margaridas, Pássaros e Flores… Mas ainda tem um Cancioneiro:

"“识字教学用通用键盘汉字字形输入系统”评 语言教育政策国际学术研讨会在上外举行 简繁汉字智能转换系统评测大纲 第"

““识字教学用通用键盘汉字字形输入系统”评
语言教育政策国际学术研讨会在上外举行
简繁汉字智能转换系统评测大纲
第”, é um dos principais textos do livro. A rua está no M’Boi Mirim (zona sul).

Antes fosse algo realmente relacionado à literatura chinesa. Seria mais interessante que o que é, na verdade: um insuportável livro de poesias parnasiano, de Antônio Feijó, publicado em 1890. O estilo mais mala da literatura em todos os tempos tinha uma quedinha por temas orientais. Não é à toa que pouco tempo depois outro poeta publicaria o clássico dos clássicos parnasiano: o Vaso Chinês – que, felizmente, não tem rua. A literatura, embora seja predominantemente brasileira, também dá umas passadinhas lá fora. Veja só:

Contos de fadas, porque não? Essa é a mais famosa, no Itaim

Contos de fadas, porque não? Essa é a mais famosa, no Itaim, mas tem companhia:

Mas engana-se quem pensa que o conto dos Irmãos Grimm que batiza a rua. Oficialmente, é esse poema da Cecília Meirelles

Mas engana-se quem pensa que o conto dos Irmãos Grimm que batiza a travessinha do Tucuruvi (zona norte). Oficialmente, é esse poema da Cecília Meirelles. E desculpa: o site toca música.

Nossos clássicos também estão presentes, como não? Antigamente, a ideia da Prefeitura era fazer “bairros temáticos”. O literário foi parar no Jardim São Savério, entre as avenidas do Cursino dos Ourives. A quebrada é quase uma listinha de leitura do vestibular.Entre outras, temos:

Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá. Seno A cosseno B, Seno B cosseno A (por isso que fica perto da avenida do cursinho kkkk)

Minha terra tem palmeiras
onde canta o sabiá. Seno A cosseno B,
Seno B cosseno A
(por isso que fica perto da avenida do Cursinho kkkk)

A entrada do bairro simboliza o caminho dos alunos ao Centro Educacional Unificado mais próximo? Não: é um conto de Monteiro Lobato.

A entrada do bairro simboliza o caminho dos alunos ao Centro Educacional Unificado mais próximo? Não: é um conto de Monteiro Lobato.

Machado de Assis vem em peso:

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Street View teve a pachorra de borrar todas as placas da rua, mas você já viu qual é, né? A ~apascentando almas~ fica na Dom Casmurro

O seu último livro, de 1908.

O seu último livro, de 1908.

Bem longe dessas, uma microtravessa da Juscelino Kubitschek, no Itaim, tem o romance que faltava:

É um dos primeiros, ainda da fase romântica do Machado.

É um dos primeiros romances, de 1878, ainda da fase romântica do Machado.

Quer mais? E não é que tem? Contos Fluminenseslivro de 1870, é uma aprazível pracinha (de verdade, com banco e tudo) na altura do número 700 da rua Avanhadava, no centro. Além disso, pertinho da Iaiá Garcia, há a rua HelenaE no Ipiranga, perto de Heliópolis, a ProtocoloMas em nenhuma delas podemos garantir que se tratam das obras machadianas. Para fechar, faltou uma:

É que não é a do Dom Casmurro. E também não é a Giovanna Antonelli...

É que não é a do Dom Casmurro. Muito menos a Giovanna Antonelli

Capitu dessa quebrada do Capão Redondo (zona sul) era uma ~coleguinha~ minha, Carmem de Almeida, que usava o pseudônimo de Capitu (coisa comum naquele tempo). Foi ela quem criou o Suplemento Feminino do Estadão, em 1953, precursor de muitas das revistas femininas atuais – e que foi extinto em 2011. Mas não é que dona Carminha tem uma rua com o nome original?

Pois é: tem, e fica no outro extremo da cidade, no Itaim Paulista (ZL)

Pois é: tem, e fica no outro extremo da cidade, no Tijuco Preto, bairro do Itaim Paulista (ZL).

Tsk, tsk… tanta gente sem rua nenhuma e a saudosa periodista com duas? E ela está longe de ser a única, viu? Logo também falarei disso…

Um pensamento sobre “Ruas literárias – 1

  1. Que rua é hoje? – maio – As ruas mais estranhas de São Paulo

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