A Rua sobre o Bebê

Vamos viajar para um curioso bairro do extremo sul de São Paulo, a Chácara Santo Humbertus:

jusa

Sua via de acesso é a tal Rua do Juza, travessa da Sadamu Inoue. Uma tradicional atividade dali é a desova e desmanche de carros roubados.

Lá, segundo o mapa, existe a rua Diógenes dos Santos Melquisedec:

diogenez

Sem ser chamado BravinhaCachoeira do Pinguelo ou CornucópiaDiógenes é, sem dúvida, um dos batismos mais absurdos de todas as ruas de São Paulo. Aí você me pergunta, por que?

Porque, segundo os registros oficiais da Prefeitura,

Porque, segundo os registros oficiais da Prefeitura, Diógenes era um BEBÊ, que “faleceu no dia 29 de setembro de 1975, com 4 (quatro) meses de idade.”

O decreto que nomeou as ruas do Chácara Santo Humbertus, em 1988, não explica os motivos deste batismo, nem quem seriam, talvez, os pais tão enlutados do pobre infante – que, claro, não é esse da foto aí de cima, mas também está morto.

Eu fiz questão de ir ao Arquivo Histórico da cidade (na Luz) para conferir a fichinha física com a pequena biografia de Diógenes, que hoje teria 40 anos. E é a mesma descrita na legenda da foto, retirada do Dicionário de Ruas. Pelo menos deu para ter certeza de que ninguém tinha digitado errado a idade do Diógenes.

Mas queria chegar lá no condomínio para conferir a placa da sua rua. Depois de muitos solavancos, cheguei ao decadente Chácara Santo Humbertus. Se hoje ainda é uma tristeza para chegar, antigamente era pior. Os prints abaixo são da mesma página do Estadão de 01 de julho de 1994. Mais de 20 anos depois, garanto, continua igual:

semluz

reclamasam

A estrada do Jusa nunca foi alargada. A guarita chegou, mas é praticamente cenográfica. E o mesmo sr.Elard Biskamp entrevistado pelo jornal continuava reclamando muito no twitter (pelas mesmas coisas) em 2010.

Na cabine, as teias de aranha garantem a segurança.

Na cabine, as teias de aranha garantem a segurança.

Mas você reparou numa coisa da segunda nota do jornal? Eles citam várias ruas do bairro, como a Maurício Klein…

"Industriário, Maurício Klein, nasceu em 01 de agosto de 1977 na cidade de São Paulo, e faleceu com 18 anos de idade - cedo, mas não tanto quanto Diógenes"

“Industriário, Maurício Klein nasceu na cidade de São Paulo. Faleceu com 18 anos de idade em 01 de agosto de 1977” – cedo, mas não tanto quanto Diógenes.

… mas não citam a Diógenes dos Santos Melquisedec. O motivo, descobriria logo:

isto é a rua Diógenes dos Santos Melquisedec

Isto é a rua Diógenes dos Santos Melquisedec na esquina com a Maurício Klein..

É: a rua foi apenas projetada: nunca existiu de fato – embora seu início seja um “hiato” de árvores no meio do bosque. Talvez quando o loteamento tivesse sido aberto, seu leito, por onde passa até um lago, até existisse (e, talvez, houvesse até uma placa com o nome do bebezinho pendurada em alguma das árvores). Como meu carro não é um Land Rover, e já tinha chovido naquele dia, não quis arriscar.

Tudo isso para dar um gancho para um futuro post, sobre as ruas projetadas. Aquelas que existem apenas nos mapas e não na vida real – diferente de várias ruas da cidade que levam este nome:

Projetada Violenta

Projetada Violenta

Mas isso é para outra vez. Enquanto isso, veja que não há idade para virar rua, caso desta pequena travessa da avenida Mutinga, na Vila Jaguara (zona noroeste):

"Carolina Cabrera de França, faleceu em 04 de agosto de 1991. Era filha de tradicional família da Vila Piauí, que muito contribui para o progresso desse bairro. A doença de Carolina mobilizou a Sociedade Amigos Unidos de Vila Piauí e seus moradores no intuito de recuperar a saúde de uma criança de 9 anos, que queria muito viver." - é o que diz a prefeitura.

“Carolina Cabrera de França faleceu em 04 de agosto de 1991. Era filha de tradicional família da Vila Piauí, que muito contribui para o progresso desse bairro. A doença de Carolina mobilizou a Sociedade Amigos Unidos de Vila Piauí e seus moradores no intuito de recuperar a saúde de uma criança de 9 anos, que queria muito viver.” – é o que diz a prefeitura.

Às vezes, a tragédia se abate sobre a família ao mesmo tempo, caso dos Giunchetti Rosin na manhã do dia 5 de julho de 1966, mais precisamente na estrada entre Suzano e Ribeirão Pires. Os dois irmãos estavam num carro…

Diógenes era o caçula, tinha 16 anos. É uma travessa da avenida Imirim, na Casa Verde.

Diógenes era o caçula, tinha 16 anos. É uma travessa da avenida Imirim, na Casa Verde.

Dráusio era o mais velho, com 23. Também fica na Casa Verde, mas um pouco longe do irmão.

Dráusio era o mais velho, com 23. Também fica na Casa Verde, mas um pouco longe do irmão.

… e morreram num grave acidente – o que fez com que a mãe deles passasse a escrever uma série de livros espíritas depois de seu desencarne. Diógenes e Dráusio logo arranjaram amizades no outro mundo, pelo menos de acordo com as psicografias de Chico Xavier. Uma delas é a estudante Volquimar, morta no incêndio do edifício Joelma, em 1974. Ela cita os dois em algumas das cartas que mandou do nosso lar.

Viagem, não? E eles não são os únicos, não: logo vai dar para voltar a todos esses assuntos – além das ruas projetadas, também há muitos jovens espíritas (tanto médiuns quanto almas) na original toponímia paulistana.

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