As famosas Borboletas Psicodélicas – e um certo Henrique de Curitiba

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Você já está careca de ouvir falar da rua Borboletas Psicodélicas quando abordam o assunto “ruas com nomes estranhos” em São Paulo. É que, provavelmente, esta foi a primeira a ficar num lugar menos periférico – o tradicional Jabaquara, na zona sul. E, também, porque a rua já tinha outro nome antes, nada estranho: Marcelo Vieira Barbosa.

Tanto é que, na época em que a rua foi rebatizada, em 1991, o Estadão mandou o repórter Tão Gomes Pinto pesquisar porque cargas d’água havia acontecido a tal mudança. A matéria, publicada na edição de 5 de outubro daquele ano, é genial e merece ser transcrita parcialmente aqui (são todos os trechos em itálico). E vou dar um spoiler: a culpa é do Banco de Nomes. 

Para começar, o repórter procurou os moradores:

Uma arte produzida na época pelo Estadão

Uma arte produzida na época pelo Estadão

“Vocês são da Transamérica?”, quis saber a moradora Vania Villani ao ser informada que a rua Marcelo Vieira Barbosa passara a se chamar Borboletas Psicodélicas. Aflita, ela procurava um microfone ou uma câmera indiscreta com medo de estar sendo vítima de um desses programas de perguntas idiotas. Outra moradora, Maria Consuelo Ferrer, limitou-se a dar vazão ao seu temperamento espanhol: “Dios, que cosa mas loca!”

Os nomes que estão sendo utilizados agora estão catalogados num “banco de nomes de ruas” criado pelo prefeito Olavo Setúbal. 

Até aí, você já sabe por ler o blog. E também que o Banco é pródigo em batismos bizarros. Mas, veja só, Borboletas teve uma história um pouco diferente:

Além disso, existem as posturas municipais. A mudança da convencional Rua Marcelo Vieira Barbosa começa com uma dessas posturas. O responsável pela Seção de Denominação de Logradouros Públicos do Arquivo Histórico Municipal, Luís Soares de Camargo, investigou pessoalmente o caso e descobriu que Marcelo é um jovem de 20 de poucos anos que mora em Santo André. Isso o torna inviável como nome de rua. 

A rua ainda com a placa antiga, em foto reproduzida do Estadão

A rua ainda com a placa antiga, em foto reproduzida do Estadão

Marcelo transformou-se naquela placa desbotada que ainda assinala sua ex-rua porque seu pai construiu a primeira casa do local e achou-se no direito de batizar a rua, então anônima, com o nome do filho. A Prefeitura, numa primeira tentativa, tentou fazer com que a rua se chamasse Juan Gris. A rua resistiu a essa tentativa de homenagear o cubista espanhol contemporâneo de Picasso. O IPTU vinha como Juan Gris. A conta de luz como Marcelo Vieira Barbosa. Os guias da cidade também optaram por Marcelo.

Já que o Juan Gris estava por ali mesmo, acabou virando o nome de uma baita praça ao lado da Borboletas.

Já que o Juan Gris estava por ali mesmo, acabou virando o nome de uma baita praça ao lado da Borboletas, que abriga um clube da Prefeitura.

A cereja do bolo é a explicação dada pelo então chefe da nomeação de ruas, o historiador Luís Soares de Camargo (que foi meu professor na PUC). Ele disse que…

… instalada a campanha do batismo em massa das ruas, alguém foi ao computador (ou ao arquivo, pois o computador não estava funcionando) e puxou as Borboletas Psicodélicas.

Como se vê, os funcionários pinçam qualquer coisa da lista e danem-se os moradores, né?

alguém foi ao computador (ou ao arquivo, pois o computador não estava funcionando) e puxou as Borboletas Psicodélicas.

RECONSTITUIÇÃO: “alguém foi ao computador (ou ao arquivo, pois o computador não estava funcionando) e puxou as Borboletas Psicodélicas.”

Com o nome vem sempre a ementa, ou seja, a justificativa do nome. “Borboletas”, segundo a ementa, referem-se ao título do terceiro movimento da obra For Martinapara piano, do compositor paranaense Henrique Morozowicz.

Prazer, Henrique de Curitiba, daí

Henrique de Curitiba

O músico Henrique Morozowicz, que morreu em 2008, preferia assinar como Henrique de Curitiba, e realmente era muito respeitado na cena da música erudita brasileira. Na época da matéria, ele era professor da Universidade Federal do Paraná, e foi entrevistado por Tão Gomes Pinto. Como pessoa lúcida que era, pasmou-se:

A prova do crime

A prova do crime

Ao saber que as Borboletas haviam virado nome de rua em São Paulo, ele mergulhou num longo e eloquente silêncio. Deve ter considerado a hipótese de se tratar de uma brincadeira. “Ora, vejam só”, foi a primeira frase que conseguiu articular. Depois, explicou que Pour Martina foi uma homenagem singela, feita em 1972, a uma de suas alunas, Martina Graf. “Uma peça rápida, sem pretensões, dessas que se faz para o terceiro ou quarto ano de piano”. Quanto ao “psicodélicas”, ele diz que usou apenas por ser uma peça buliçosa. 

Não encontrei em nenhum lugar para ouvir Pour Martina, que, segundo consta, é usada para treinamento de piano, já que seu tocar é relativamente simples – como, aliás, o próprio Henrique disse ao jornal. O que o compositor talvez nem tenha chegado a saber é que as Borboletas não são suas únicas obras eternizadas na toponímia paulistana. Com certeza, ele ficaria ainda mais pasmo. Ora, vejam só:

Essa tem até para ouvir no Youtube. Fica na Vila Formosa, zona leste

Essa tem até para ouvir no Youtube. Fica na Vila Formosa, zona leste. Peça lançada em 1977.

Henrique de Curitiba, daí

Os três episódios são Lento, Alegre Vivaz. A rua, no isoladíssimo Jardim Oriental, em Parelheiros (zona sul), um bairro em que todas as precárias vias são musicais. Aguarde que falarei somente delas em breve.

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Já falei dela antes, né? Suíte de Natal também é da década de 1970. Fica no Parque do Carmo (zona leste).

Você talvez conheça Evocação das Montanhas na voz de Milton Nascimento - mas é de Henrique.

Você talvez conheça Evocação das Montanhas na voz de Milton Nascimento – mas é de Henrique. A rua fica no Iguatemi (ZL).

Essa fico devendo a placa, porque está dentro de um condomínio fechado, o Morumbi Sul, que apesar do nome é no Campo Limpo.

Essa fico devendo a placa, porque está dentro de um condomínio fechado, o Morumbi Sul, que apesar do nome é no Campo Limpo. O nome inteiro da peça é O repicar dos sinos na Igreja de Nossa Senhora da Glória.

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Peça Pastoral é uma composição para flauta, composta de 1971. A rua é na Cidade Tiradentes, zona leste.

E se você pensa que Henrique de Curitiba já saiu do Banco, enganou-se! Em 2012seus Pequenos Prelúdios, uma variação sobre a obra de Bach, foram nomeados como uma travessa num conjunto habitacional na beira da rodovia Fernão Dias, trazendo Henrique de Curitiba à zona norte, a única ainda não agraciada com sua obra. Aliás, é possível que ainda haja outras ruas com nomes de trechos de peças dele, como afinal eram as Borboletas.

Se quiser saber mais sobre Henrique, vale a pena ler este artigo de uma pesquisadora brasileira – ainda que esteja em inglês, já que foi publicado pela Universidade da Flórida, nos EUA.

Ele assina embaixo

Ele assina embaixo

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5 pensamentos sobre “As famosas Borboletas Psicodélicas – e um certo Henrique de Curitiba

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