O poético Jardim Novo Horizonte

Quem sabe você chegou aqui pela matéria de ontem na Globonews, que me entrevistou. Se foi por isso (ou não), bem-vindo!

Para alegrar a tarde de vocês, hoje vamos com uma seleta aleatória urbana! Afinal, o único critério do batismo das ruas paulistanas é… não ter critério!

Bem, ou melhor, tem um critério: todas as ruas aqui descritas ficam longe, muito longe do centro de SP. De Interlagos para baixo, quase no limite com Itanhaém e Mongaguá (você sabia que São Paulo tem limite com elas?). Pois bem: nada melhor do que começar o nosso desfile de ruas com a Rua do Desfile, no Jardim Novo Horizonte, coração do Grajaú:

É um poema

É um poema

Você me pergunta: que desfile é esse? De moda? De gado? Não… é mais um poema de Carlos Drummond de Andrade, mais precisamente de A rosa do povo, de 1945, ultimamente mais conhecido porque cai nos vestibulares. Tive de pesquisar, já que quando prestei meu último vestibular, não li o livro, embora devesse… Começa assim:

O rosto no travesseiro,

escuto o tempo fluindo

no mais completo silêncio.

Como remédio entornado

em camisa de doente;

como na penugem

de braço de namorada;

como vento no cabelo,

fluindo: fiquei mais moço.

Não é bonito? Mais bonita é essa aqui, paralela à Desfile:

Eterno, título de magistral poema de Carlos Drumond de Andrade, segundo o Dicionário de Ruas.

Eterno, título de magistral poema de Carlos Drumond de Andrade, segundo o Dicionário de Ruas.

Veio de outro livro, Fazendeiro do ar, de 1954. 

E como ficou chato ser moderno.
Agora serei eterno.

Eterno! Eterno!
O Padre Eterno,
a vida eterna,
o fogo eterno. (…)

terno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e
                                     [nenhuma força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou.(…)

E como tudo que passou, passou, ô loco bicho! Mais do que nunca, às 15:13 da tarde, vamos então à gloriosa rua Gloriosa! Tanto no pessoal quanto no profissional, exemplo de caráter urbano! Não!!!!

Começa assim: Pomba! dos céus me dizes que vieste, Toda c’roada de astros e de rosas,

Começa assim: Pomba! dos céus me dizes que vieste,Toda c’roada de astros e de rosas,

Essa ruinha, travessa da Paulo Guilguer Reimberg, e para onde as ruas do Desfile do Eterno convergem é nada mais que um outro poema, do simbolista Cruz e Souza. O Banco de Nomes gosta bastante dele: são mais de 30 logradouros com nomes de obras dele. Veja só que coisa mais catita essa Gloriosa:

Pomba! dos céus me dizes que vieste,
Toda c’roada de astros e de rosas,
Mas há regiões mais que essas luminosas.
Não, tu não vens da região celeste

Há um outro esplendor em tua veste,
Uma outra luz nas tranças primorosas,
Outra harmonia em teu olhar — maviosas
Cousas em ti que tu nunca tiveste.

Não, tu não vens das célicas planuras,
Do Éden que ri e canta nas alturas
Como essa voz que dos teus lábios tomba.

Vens de mais longe, vens doutras paragens,
Vens doutros céus de místicas celagens,
Sim, vens de sóis e das auroras, pomba.

Ei, você ainda está aqui? Não desistiu não, né? Sim, ele falava de uma pomba! O poema é tão profundo, tão incrível, que esperou mais de 60 anos para ser publicado. Só o foi em 1961, muito depois da morte do poeta, em 1898.

Mas a maior rua do bairro não é nenhuma delas, mas essa aqui:

Esta foto é um oferecimento de Kuka Comercial, a melhor opção em "1 real"

Esta foto é um oferecimento de Kuka Comercial, a melhor opção em “1 real”

Não deu para fotografar a placa, mas ao menos o letreiro da Kuka Comercial não me deixa mentir: falo da Rua. Da Sereia… 

“Ela mora no mar, ela brilha na areia, no balanço das ondas, a paz ela semeia”

Será que elas existem ??!??!?!?!?!? Bom, como você viu, ao menos no Jardim Novo Horizonte, sim. E, como você deve imaginar, é o nome de um poema – de Cecília Meireles, do livro Viagem, de 1939, que curiosamente tem uma versão em PDF salva no site de um partido político:

Linda é a mulher e o seu canto,
ambos guardados no luar.
Seus olhos doces de pranto
— quem os pode enxugar
devagarinho com a boca,
ai!
com a boca, devagarinho…

Tem um quê de erótico, não é? Mas, pelo que diz essa análise acadêmica, é uma alusão à morte:

“Este poema parece explicar, pois, qual é o destino do canto que os anteriores poemas exortavam. E esse destino é funesto: a morte. Se, de fato, uma das encarnações do feminino em Cecília Meireles parece ser, pois, a sereia, não posso deixar de concluir que, através dessa emblemática, a mulher perfaz, nesta obra, um trágico circuito. Ela é aquele ser indulgente e magnânimo, capaz de transformar a dor em música para dar alma e enlevo ao mundo; todavia, enquanto executa sua heróica missão tutelar, acaba morrendo em nome desta.”

Nessa rua só tem quartos trancados, espinhas e um CCzinho daqueles

Nessa rua só tem quartos trancados, espinhas e um CCzinho daqueles

Um pouco mais adiante da Sereia, temos a Rua dos Adolescentes. Será um refúgio de revoltadinhos? Onde vão fumar escondidos? Ainda que o arvoredo atrás da placa dê essa impressão, trata-se de nada mais, nada menos, que outro poema de Cecília Meireles. Na verdade, não há nenhum com o nome exato da rua – o que, sabe-se, não é um empecilho para o Banco. O nome inteiro seria O adolescente só por belo:

O adolescente só por belo

não morreu.
Íntegro está, puro e singelo,
nu, vertical e paralelo
mármore de museu.

Amaremos sua beleza
secular
com profundíssima tristeza:
em pedra a sua vida presa.

Pesado, né? Cruzando a Paulo Guilguer Reimberg, chegamos a uma curiosa bifurcação, infelizmente não explorada pelo Street View (e nem por mim, quando passei por lá):

Uma confluência de estilos

Uma confluência de estilos

Pelo nome e pela vizinhança, você já sacou que são poemas, não é? Mas resolveram cruzar dois estilos bem diferentes: a Musa de Outubro, do Drummond, foi publicada no jornal Correio da Manhã, exatamente no dia 17 de setembro de 1960 – e compilada no livro Versiprosade 1967:

MUSA DE OUTUBRO
Seu número qual é? – Muito obrigado!
Vai escolher-me para deputado?
– Não. É mero palpite para o bicho.
(Diga-me ao pé do ouvido, num cochicho.)
Mas se for favorável a centena,
minha adesão eu lhe ofereço, plena.
Olhe, aproxima-se outro candidato,
na Cinelândia, prometendo a jato
com tal estrondo e com zoeira tal
que abala a Biblioteca Nacional. (…)

O mais curioso é que o poema faz parte de uma “série” (toda reproduzida no livro) que fala das eleições presidenciais de 1960que aconteceriam dali a poucas semanas. Quando, você sabe, foi eleito o homem da vassoura, Jânio Quadros.

O mesmo Jânio que, no dia 23 de março de 1988, era prefeito de São Paulo e – veja só – assinou o decreto que nomeia a rua Musa de Outubro – e várias outras do Jardim Novo Horizonte. Coincidência?!?!??!?

Já no Luar de lágrimas quem volta é o nosso queridão Cruz e Sousa:

E voa, voa, voa, voa, voa
Nas Esferas sem fim perdida a toa.

Não vou copiar o poema todo porque senão você nem vai querer mais ler o blog…. Ali do lado, mais uma rua sem placa:

Bárbara? Barbosa?

Bárbara? Barbosa?

É porque a Barbora não passa de uma pinguelinha… tanto é que não é o nome de um poema – mas de um trecho de poema. Sim, um pedaço. Mais precisamente, uma sombra de Os anjos da meia-noite, de Castro Alves, “Sucessão de poemas que englobam amores fictícios ou reais do poeta. A observar a utilização do soneto, forma bastante rara na obra de Castro Alves, e, no último texto, o encontro com a “amada” maior dos poetas românticos: a morte.”. Quer dizer, segundo esse texto, a Barbora foi uma paixão, talvez imaginária, do atormentado poeta – e que foi parar nas quebrada da ZS:

2ª SOMBRA

BÁRBORA

Erguendo o cálix que o Xerez perfuma.
Loura a trança alastrando-lhe os joelhos,
Dentes níveos em lábios tão vermelhos,
Como boiando em purpurina escuma;

Um dorso de Valquíria… alvo de bruma,
Pequenos pés sob infantis artelhos,
Olhos vivos, tão vivos, como espelhos,
Mas como eles também sem chama alguma;

Garganta de um palor alabastrino,
Que harmonias e músicas respira…
No lábio – um beijo… no beijar – um hino;
Harpa eólia a esperar que o vento a fira,

– Um pedaço de mármore divino…
– É o retrato de Bárbara – a Hetaira. –

Olha as ideia do cara…Pensa que acabou? O Novo Horizonte ainda tem uma simpática via, tão pequena que ganhou o nome de…

De Vaga Música, livro de 1942

do livro Vaga Música, de 1942

Pequena canção

Pássaro da lua,
que queres cantar,
nessa terra tua,
sem flor e sem mar?

Nem osso de ouvido
Pela terra tua.
Teu canto é perdido,
pássaro da lua…

Pássaro da lua,
por que estás aqui?
Nem a canção tua
precisa de ti!

Pequena Canção é mais uma da Cecília Meireles – e uma das várias canções do livro do qual foi tirada. Outras, como a…

Canção Excêntrica, caso você não tenha conseguido ler

Canção Excêntrica, caso você não tenha conseguido ler

Canção Excêntricaestão espalhadas pela cidade – esta, uma travessinha da dr. Jesuíno Maciel, no Campo Belo.

Mas, voltando ao Novo Horizonte, podemos ir embora? Não: falta ainda a…

É onde termina a Pequena Canção

É onde termina a Pequena Canção

Cismas do Destino… pelo nome já dá para imaginar o que vem: poema. Dessa vez, de um que não tinha aparecido ainda: Augusto dos Anjos. Está no único livro dele, Eu e outras poesias. 

As cismas do destino

I

Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!

(…)

Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!

Sim, ele rimou ponte com rinoceronte. Parabéns! Teoricamente, o post deveria acabar aqui, mas ouço tambores! É que…

Oooo bate forte o tambor !
Bate forte o tambor !
Sultão das Matas já chegou !

sultaodasmatas

“Foi ele quem me contou. Um certo dia ele estava na sua aldeia e chegou um colonizador e começou a fazer contato com ele. Esse colonizador tinha uma filha, que quando viu o sultão das matas, ficou logo apaixonada, mas o Sultão das Matas não correspondeu com o mesmo sentimento, pois sabia que eles faziam parte de um mundo diferente e aquele romance não seria possível.”

Sim, o último quarteirão do Novo Horizonte é todo dedicado ao Candomblé! Além da Sultão das Matas – nome de um “caboclo”, temos a artéria do bairro… Avenida Ogum.

avenidaogum

Na Ogum tem até igreja evangélica, veja só que curioso. E, ao ladinho da Ogum, outro orixá, seu irmão Oxóssi:

oxossi

Êpa rei!

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