Ruas amorosas

Hoje é dia dos namorados! Já tem quem esquente sua orelha à noite, nesse friozinho? Espero que sim! E, para comemorar o dia, nada melhor que um roteiro romântico pela cidade, com o oferecimento do Banco de Nomes™ 🙂

Desde 2003

Desde 2003

Um segredo sobre os vereadores: se eles não gostam muito de denominar ruas das quebradas, deixando a tarefa para o Banco de Nomes, eles simplesmente não se aguentam quando veem um “espaço verde inominado”. Daí, qualquer bosque, rotatória, ilha central de avenida vira praça – embora às vezes não haja sequer um banquinho para sentar. E vem bem a ser o caso da Praça dos Namorados, que foi batizada pelo então vereador Jooji Hato em 2003, com essa justificativa: “a denominação foi solicitada pelos moradores locais através de abaixo-assinado e expressa uma característica da praça, frequentada por namorados”. Eu só queria saber onde que os casais ficam…

Só achei esse "casal" no Street View... e eles trouxeram as cadeiras de fora

Só achei esse “casal” no Street View… e eles trouxeram as cadeiras de fora

Pois é: a pracinha, na Saúde, na confluência da rua Guararema com a travessa Ângelo Pecin não tem nem um banquinho para namorar… resta sentar no morrinho, bem no estilo FFLCH.

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Môoooor!!!!!!!!!!!!!!!! Môooorrrrrrr!!!!!!!!!

mozão fica satisfeito quando dá um passeio na “Via de Pedrestre Amor“, travessa da rua Francisco Peixoto Bizerra, no Jardim Brasil (ZN). Mas engana-se quem pensa que o Amor é aquele nobre sentimento. A Prefeitura explica que é “personagem da mitologia Grega, um dos mais poderosos mortais, era filho de Vênus” – ninguém mais, ninguém menos que o outro nome do Cupido, aquele que é bem…

No Jardim da Conquista, onde mais?

No Jardim da Conquista, onde mais?

Nem precisa de muita explicação, não é? É a música mesmo.

No <3 da Vila Sônia

No ❤ da Vila Sônia

Na Vila Sônia, entre as ruas Francisco Marson Karlina Reiman Wandabeg, está a Praça dos Amores – nome que a Prefeitura não sabe explicar, mas que batiza uma pracinha bem aproveitável (quando a grama está bem cortada):

Dá até para ganhar umas lambidas

Dá até para ganhar umas lambidas

Na Vila Santa Catarina, uma linda rotatória entre as ruas Contos Gauchescos Latif Fakhouri tem o nome oficial de Rosa do Amor. Pelos Contos, que é um livro tri-clássico da literatura gaúcha, você já imagina que Rosa tem algo com literatura, não é? Sim: é um livro de poemas, escrito em 1902 por Vicente de Carvalho (que hoje é nome de praia em Santos).

Tudo que move é sagrado

E remove as montanhas

Com todo o cuidado, meu amor…

by Beto Guedes, 1978

by Beto Guedes, 1978

Aqui não se trata de Banco de Nomes: assim como os vizinhos do Jardim da Conquista, os moradores da Amor de Índio, no Conjunto Residencial José Bonifácio, na ZL, deliberadamente escolheram batizar as ruas com nomes de músicas da MPB – como as suas paralelas Casa No Campo Águas de Março.

Na ZL

Na ZL

Por sua vez, o tema do Jardim Popular, próximo à avenida São Miguel, na ZL, são as flores. Que coisa linda, não é? Evidentemente que em algum momento chegaria a vez do Amor-perfeito:

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No Aricanduva, ZL

Cantiga de Amor, se você lembra das aulas de Literatura do colégio, é um gênero do Trovadorismo. Mas esta aqui não: é um trecho dos Motetos Profanos do compositor alemão (naturalizado brasileiro) Bruno Kiefer, baseado num texto medieval.

Ninguém mora na rua Cravo de Amor :(

Ninguém mora na rua Cravo de Amor 😦

Por que ninguém mora na Cravo de Amor, em São Miguel (ZL)? Porque nada mais é que uma passagem, com menos de 50 metros de extensão… tem muro dos dois lados, ligando a José Dias Miranda à Osvaldo Santini. E o Cravo, o que é? Você já deve imaginar, não?

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“Gypsophila paniculata. Planta perene, de caule ramificado que atinge 1 metro de altura, folhas lanceoladas e pequenas flores brancas. Espécie ornamental. É originária da Ásia e bem aclimatada no Brasil. (Família das cariofiláceas)”

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Sinônimos: Dois Irmãos, Picão e Sapatinho-dos-Jardins. É da família das Euforbiáceas – diz a Prefeitura

Essa travessinha da Sadamu Inoue, em Parelheiros, tem nome de planta também – daquela bem comum e que gruda na roupa. Mas, pensando bem, os moradores da Dois Amores deram foi sorte: imagine se o nome da rua fosse Picão ou Sapatinho dos Jardins?

Você já conhece

Você já conhece

Se você me acompanha faz algum tempo, já conhece a Rua dos Ventos do Amor – que fica no mimoso Jardim Oriental, em Parelheiros – onde todas as ruas têm nomes estranhos. A principal rua, por onde se chega ao bairro, é a dos Ventos, nome de uma composição do Itinerário Amoroso e Idílico de um certo José de Almeida Prado, composta em 1976. Caso queira conhecer a rua, pode marcar um evento na Chácara das Flores, que fica lá.

Não é música

Não é música

Pois é: Duetos de Amor, uma ruinha sem saída no Jardim Selma, dentro do Jd. São Luís, não é uma música, e sim um poema, de Alphonsus de Guimaraens, de onde vem esse lindo verso:

A minha face é uma caveira

Que tu não podes lisonjiar

Que aroma

Que aroma

Nada de novo no front: São Miguel, ZL, nessa altura, só pode ser planta. Ou melhor: “designação comum a algumas plantas rústicas da família das hidrofiláceas, originárias da Califórnia e cultivadas no Brasil.”. A criatividade passou longe: suas paralelas são a Flor da Paixão e a Flor de Noiva – e é travessa da Flor de Baile. 

"O nome desta rua foi solicitado pela Associação de Moradores do Jardim Celeste II."

“O nome desta rua foi solicitado pela Associação de Moradores do Jardim Celeste II.”

Essa ruinha, que, como a descrição diz, fica no Jardim Celeste, travessa da rua Nossa Senhora da Moradia, no Cursino (ZS), ganhou o nome em 2003. Pois bem: pela data, e pela ausência de outras explicações, tudo indica que se trata da cidade ficcional na qual a novela ‘O Beijo do Vampiro’ se passava – exibida justamente entre 2002 e 2003. Se ainda fosse uma novela melhorzinha… se eu contar para essa moça aqui, é capaz dela querer se mudar para a Maramores.

Que lindo

Que lindo

A rua Primaveras do Amor, no meio do Parque Arariba, no Capão Redondo (ZS) tem o nome de um “Livro de poesia de Ibrantina de Oliveira Cardona. Nascida em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, em 1868. ” E quem é essa senhora? É Ibrantina Froidevaux de Oliveira Cardona, autora de pérolas como Plectros Heptacórdio – e que é nome de uma escola em Holambra, no interior do estado. Ou seja: ninguém.

O Parque do Carmo, na ZL, é tão grande que ainda tem uns bairrinhos escondidos nas suas bordas e nas roça dos japoneses que ainda plantam pêssegos por ali. Na Gleba do Pêssego, há uma área bem literária, onde a principal rua é a Cinza das Horas (do Manuel Bandeira). Uma de suas minitravessas é a…

Não é poema

Não é poema

… que é o nome de uma “obra musical para conjunto de 3 vozes iguais, sobre textos de diversos autores, música do renomado compositor paulista Osvaldo Lacerda”que morreu não faz muito tempo, em 2011, que, dizem, era um dos melhores professores de música erudita do mundo, com material didático usado até hoje.

Na Cidade Tiradentes, ZL

Na Cidade Tiradentes, ZL

Lá na quebrada da Cidade Tiradentes, no Conjunto Habitacional Inácio Monteiro, fica a Semente do Amor…

Não, isso não é a semente do amor

… que não é a “sementinha” que seu papai colocou na mamãe para você nascer, tá? E sim uma obscura composição de uma obscura compositora, Najla Jabor – que não era parente do Arnaldo – e que, para variar, teve seu nome “editado” pela prefeitura para virar nome de rua: na verdade, a composição se chama “A semente é dor amor“. 

Sabe por que eu sei onde é a Seresta do Amor? Porque eu estava lá!

Sabe por que eu sei onde é a Seresta do Amor? Porque eu estava lá!

O nome dessa rua da Chácara Santo Amaro, no extremo sul, é tão singelo, não é? Mas a música que a intitula talvez não seja tão romântica assim – já que é composta por esse cidadão:

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… que, como o nome diz, foi o pioneiro da música eletrônica no Brasil. Mas não pense que você vai ouvir Jorge Antunes na balada: sua pegada é mais no estilo Kraftwerk (e que não deve ser ouvida à noite, pois é trilha sonora de pesadelos). É dele também a Valsa Sideral – mais uma rua do meu querido Jardim Oriental – e paralela da…

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Valsa Amorosa que consiste apenas nessa curvinha, saindo dos Ventos do Amor, que logo a transformam em Valsa Lenta – e que é (pra variar) o nome de uma outra composição musical – agora, de Souza Lima.

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Na ZL

E se eu te telefonar
Se mandar te buscar
Der o braço a torcer
Sei que irias ganhar
E eu não iria perder
Da outra vez eu sofri
Te magoei, me feri
Foi difícil aprender

Dica: a Verbos do Amor fica no Conjunto Habitacional José Bonifácio – então é da MPB – mais precisamente, do João Donato e do Abel Silva. E você já deve ter ouvido, pois toca até hoje na rádio, na voz da Gal Costa, gravada em 1982:

.

De João Donato, vamos para Sullivan e Massadas: as máquinas de compor música dos anos 80. Fizeram toneladas delas, para Xuxa, Faustão e Tim Maia, dentre outros milhares de artistas. São músicas como…

Jardim da Conquista, claro

Jardim da Conquista, claro

Vida minha, vida minha
Meu amor cigano
Como posso me enganar
Fingir que não te amo
Vida minha, vida minha
Não me deixe agora
Logo quando eu mais
Preciso de você
Diz pra mim que não deixou de me querer

que você provavelmente já ouviu na voz de Fafá de Belém. Algumas quadras adiante, você fica:

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… que é um clássico do brega, conhecido na voze de Lindomar Castilho, inclusive com versão em espanhol

Reconheço não mereço seu carinho,
Mas de si não guardo ódio nem rancor,
O que eu sinto é vê-la sem felicidade,
E você só quer me ver ébrio de amor…

 

Isso em 2011

Isso em 2011

Já na Vila Império, no meio da Cidade Ademar, há a Travessa Fonte do Amor, que só existe no mapa – e que, em 2011, aparentemente estava para desabar. Tudo bem: é só mais um poema do Cruzzzzzzz…. e Sousa.

Por isso eu te amo querida,
Quer no prazer, quer na dor…
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor.

A travessa Gondoleiro do Amor, poema de Castro Alves de onde vem a estrofe acima, é primeira de todo esse post a não ficar na periferia: trata-se do nome oficial de uma aprazível vilinha, travessa da rua Venâncio Aires, na Pompeia – mas acho que nem os moradores sabem disso, pois devem dar a Venâncio como endereço, só marcando o número da casa.

Entre uma loja de cadeiras e outra de congelados

Entre uma loja de cadeiras e outra de congelados

“Grande amor, grande amor, grande mistério
Que as nossas almas trêmulas enlaça…
Céu que nos beija, céu que nos abraça
Num abismo de luz profundo e sério.”

É do Cruz e Sousa

É do Cruz e Sousa

Pelo romance que transborda da estrofe, já deu para notar que é mais um poema do Cruz e Sousa, que fica no Campo Limpo, margeando a área do condomínio Morumbi Sul, e que é travessa da rua Lira Cearense (também literária, como se pode notar). O curioso é que enquanto “ruas” como a Cravo-do-Amor não têm nem 30 metros, a travessa Grande Amor até que é grande…

E eis que voltamos ao Conquest Garden:

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Nada mais é que a versão brasileira do Hymne à l’Amourda Edith Piaf – feita pela nossa lendária (e caótica) Maysa.

Para mostrar como nosso Jardim da Conquista é musicalmente florido, a paralela da Hino ao Amor é sertaneja:

Essa é a história de um amor
Que aumentou o meu sofrer
e me fez compreender
/Todo o mal de querer
Tu me deste luz e vida
destruindo-me depois, oh que vida amargurada
Vivo só sem teu calor…

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… você já lembrou, né? É do Leandro e Leonardo.

Mas a música não tem esse nome

Mas a música não tem esse nome

Procurando, você acha músicas gospel com esse nome, ou ainda uma antiga novela da Globo. Mas, segundo a prefeitura, o nome vem da música Terceiro Amor – do Francis Hime… que começa falando de “primeiro amor”.

O primeiro amor já passou
O segundo amor já passou
Como passam os afluentes
Como passam as correntes

Ainda na Conquista, temos a…

Direto da Jovem Guarda

Direto da Jovem Guarda

Passeando em um jardim eu te encontrei meu bem
Foi tão grande a emoção que minha voz perdi
E com certa timidez de mim se aproximou
Para ir a uma festa você me convidou

Será que o jardim ao qual a cantora Diana, da Jovem Guarda, se referia era o da Conquista? D E S C U B R A.

No Ipiranga

No Ipiranga

Essa travessinha da rua Bamboré, no Ipiranga, é daquelas vilinhas com cara de cidade do interior – e o nome vem do mesmo livro Versiprosa, do Drummond, de onde vieram o Desfile e a  Musa de Outubro do último post. E como a Musa eram as eleições, o Velho Amor do Drummond não era nenhuma musa, mas a arte do seu amigo Rodrigo Andrade, diretor do Departamento Histórico na época…

Mestre Rodrigo, o da DPHAN,que me perdoe se neste cantohoje canto a gentil balzacade seus encantos e quebrantos,aquela que, noite após noite,e dia após dia, inclusiveos domingos – outrora livres,os feriados – antes gozados.

…e que, ao menos no mapa, é nome de uma praça na Brasilândia.

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E fechamos com o nosso Jardim da Conquista, com mais uma surpresinha: Veneza do Amor – uma maravilha do lado B da Perla – a paraguaia! Ali perto, só lembrando, também tem a Galopeeeeeeeeeeeeeeeeeeeira:

galopeiraPronto: agora já deu. Feliz dia dos namorados!

 

 

 

 

 

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Um pensamento sobre “Ruas amorosas

  1. Parece mas não é… – As ruas mais estranhas de São Paulo

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