Que rua é hoje? – outubro

Bem-vindos a outubro:

No Ipiranga, pertinho da Ricardo Jafet

No Ipiranga, pertinho da Ricardo Jafet.

A aprazível pracinha 1 de outubro homenageia, segundo a Prefeitura, o “dia do viajante comercial”. Talvez não seja por acaso que uma das ruas próximas à 01/10 seja justamente a…

Lá, quando dá 4:20, o povo fica todo viajandão #legalize

Lá, quando dá 4:20, o povo fica todo viajandão #legalize

Além dos viajantes comerciais (que podem ser até os de Telexfree Herbalife, dentro do Marketing Multinível™), o dia 01/10 também é o dia mundial do vegetarianismo, veja só.

Dois dias depois…

No Limão, zona norte.

No Limão, zona norte.

Essa praça, na verdade uma calçada arborizada da rua Salvador Ligabue, de acordo com a Prefeitura, homenageia o dia das eleições presidenciais. Mas, como você deve ter reparado nos últimos anos, as eleições em geral sempre têm ocorrido no primeiro domingo de outubro, que pode cair entre os dias 1 e 7. Mas, até elas serem gentilmente interrompidas pela ditadura militar, as eleições diretas presidenciais realmente tinham esta data como fixa – a partir da constituição de 1946. Então, Getúlio Vargas (em 1950), JK (em 1955), e Jânio Quadros em 1960, foram mesmo eleitos em dias 3 de outubroO dia também marca a morte de duas sumidades religiosas (pelo menos para seus devotos): o criador da umbanda Zélio de Morais (em 1975). E o fundador da bizarríssima Tradição Família e Propriedade, e, segundo certos devotos, dotado de poderes sobrenaturais, o sr. Plínio Correa de Oliveira, em 1995 – cujo túmulo, no cemitério da Consolação, até hoje atrai os tradicionais estandartes medievais da comunidade e os honrados homens de bem que dão sua vida pela luta contra o cOmUnIsMo.

No Jabaquara, zona sul

No Jabaquara, zona sul

A 5 de outubro é uma rua até grandinha no coração do Jabaquara. Mas sobre ela, a única informação que a Prefeitura dá é que foi denominada pelo decreto nº 15.784 de 04/04/1979. Prefiro considerar que o dia homenageado é o 05/10 de 1969, quando estreou o Monty Python na TV britânica. Ou ainda a proclamação da República… de Portugal, que aconteceu 21 anos depois da nossa, em 05/10/1910.

No Tatuapé, ZL

No Tatuapé, ZL

A 7 de outubro, travessa da Serra de Botucatu, “no coração do Tatuapé”não tem explicação para o nome.  Espero que não seja uma homenagem ao Manifesto de Outubro, quando os integralistas ~botaram para quebrar~ lançando seu manifesto, em 1932. Sorte que só dois anos depois, os galinhas-verdes foram literalmente postos para correr. Mas sabendo que a nossa querida cidade tem ruas como a Plínio Salgado, é capaz que tenha algo a ver com a primeira data.

Na Lapa

Na Lapa

A maior artéria da Lapa, que concentra boa parte do comércio do bairro (e o Mercado), foi uma grande fornecedora de roupas na minha primeira infância, em lojas como a Pelicano. Mas qual dos 12 de outubro que a rua homenageia? Segundo a Prefeitura, o mais antigo deles: a descoberta da América, por Cristóvão Colombo, em 12 de outubro de 1492. Mas, além disso, também é o dia de Nossa Senhora Aparecida e o das crianças, como se sabe.

Em Artur Alvim, ZL

Em Artur Alvim, ZL

Um dos caminhos para se adentrar a “comunidade” do Cambalacho (sim, o nome é por causa da novela) é a rua 14 de outubroo qual (adivinhe) a Prefeitura não sabe explicar. Hipóteses: a fundação da CNBB, em 1952, ou ainda o Nobel de Martin Luther King, em 1964, quatro anos antes da sua morte.

No Tatuapé

Na Vila Carrão, ZL

A praça 15 de outubro marca a confluência da avenida Conselheiro Carrão com as ruas ManilhaAstarté, Taubaté e a 19 de Janeiro. Baita encruzilhada, perfeita para os macumbeiros de plantão. E que, claro, homenageia aquele dia em que você fingia que era legal e dava a maçã que não fora comida na hora do lanche ao seu querido professor. A data, que só é comemorada neste dia aqui no Brasil, é uma homenagem à santa Teresa D’Ávila, padroeira dos professores – e que, por sua vez, inspirou D. Pedro I a regulamentar a abnegada profissão, no dia 15 de outubro de 1827. Dia 15 de outubro também é, acredite, o dia mundial da lavagem das mãos.

Em Interlagos, zona sul

Em Interlagos, zona sul

Na frente do shopping Interlagos, como a velha plaquetinha explicativa diz, a rua 17 de outubro homenageia o tal dia do securitárioOu seja, os corretores de seguros, vendedores de seguros, etc, etc. Merece até uma vinheta, a que eu mais gostei do Pânico em todos os 10 anos de programa:

No Jardim Maria Estela, zona sul

No Jardim Maria Estela, zona sul

Quase em São Bernardo, às margens da Anchieta, está a 18 de outubro. Segundo a Prefeitura, é porque na data se comemora o dia do médico. Para variar, os doutores ganharam o dia por causa do santo padroeiro, São LucasJá em 18 de outubro de 1968, John Lennon e Yoko Ono foram presos por porte de drogas. Maior vacilo.

Na Vila Sônia, zona oeste

Na Vila Sônia, zona oeste

Na Vila Sônia, entre as avenidas Eliseu de Almeida Francisco Morato, está a 23 de outubroque homenageia o dia do aviador. Afinal, foi no dia 23 de outubro de 1906 que Santos Dumont sobrevoou o Campo de Bagatelle, em Paris.

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Não é por acaso que eles estão juntos, em Santana

O avião? Você conhece bem:

No meio (e embaixo) da 9 de Julho.

No meio (e embaixo) da 9 de Julho.

Nada como um dia após o outro:

No Ipiranga

No Ipiranga.

O dia 24 de outubro ser rua em São Paulo ajuda a calar um pouco a boca daqueles que dizem “ah, São Paulo é o único lugar onde não há rua com nome do Getúlio Vargas, só aqui os trabalhistas não são reconhecidos, etc etc”. Ok, além disso não ser verdade…

Ok, a rua fica em Perus, perto do nada e de lugar nenhum, mas existe

Ok, a rua fica em Perus, perto do nada e de lugar nenhum, mas existe.

… o dia 24 de outubro de 1930 marcou o fim da revolução de 1930, que enxotou Washington Luiz do poder e alçou Vargas à presidência. Os paulistas, como se sabem, não deixariam barato e logo se meteriam na ~revolução~ de 1932, que rendeu várias avenidas e ruas datadas, como a 9 de Julho e a 23 de Maio

No Tremembé, perto do Horto Florestal.

No Parque Casa de Pedra, perto do Horto Florestal.

Diz a Prefeitura que 25 de outubro é “dia da Democracia”. A origem da data não podia ser mais controversa: uns dizem que é alusiva à “”””eleição “”” de Emílio Médici à presidência, em 1969, depois da morte de Costa e Silva e da junta militar. Outros dizem que o 25/10 é o de seis anos depois, em 1975, quando o jornalista Wladimir Herzog foi “suicidado” nas dependências do DOI-Codi, fato que acelerou a “abertura” do regime militar (que, ainda assim, duraria mais 10 anos). Segundo consta, os moradores da 25 de outubro não gostavam tanto assim do nome – tanto que o então vereador (e apresentador de tv) Dárcio Arruda apresentou um abaixo-assinado dos moradores para dar o nome de um padre do bairro à 25/10. Mas não deu certo – e o tal padre até hoje não dá nome a nenhum logradouro.

outubro26

No Jardim Nazaré, quebrada da Vila Curuçá (ZL).

A travessa 26 de outubro é a “caçulinha” da lista: só foi oficializada em 2011. Mas engana-se quem pensa que há alguma explicação. O chute é o dia do músico, comemorado nesta data.

Em Heliópolis

Em Heliópolis, no Sacomã.

Segundo a Prefeitura, há duas ruas 28 de outubro: essa aí de cima, na comunidade de Heliópolis, cujo nome foi escolhido pelos moradores e deve ter alguma explicação deles, e outra, no Tatuapé, que homenagearia o dia do funcionário público. A ironia é que essa última foi privatizada: é fechada com portão nas duas pontas e, aparentemente, é um estacionamento. Tá certo então.

Na Vila Matilde, ZL.

Na Vila Matilde, ZL.

Que lindo: o dia 29 de outubro desta longa rua da ZL seria o Dia do Livro, em homenagem à data em que a Real Biblioteca Portuguesa foi trazida para o Brasil, em 1810. Neste dia, em 4004 a.C, segundo um alucinado monge do século 15, Deus teria terminado de criar o mundo. E, como você sabe, levou seis dias. Logo, começou lá no dia 23/10. Tá certo (2).

Na Capela do Socorro, zona sul.

Na Capela do Socorro, zona sul.

Para a prefeitura, o 30 de outubro desta travessa sem saída da avenida do Rio Bonito é o dia do comerciário – que, por sua vez, alude a uma grande manifestação dos comerciários por melhores condições de trabalho, no Rio de Janeiro. Só que não foi no dia 30, mas no dia 29 de outubro de 1932. Porém, ficou o 30 porque foi nesse dia que o então presidente Getúlio Vargas, para fazer uma média, aceitou as reivindicações da categoria em forma de lei, impondo rotina de oito horas diárias e descanso aos domingos. Veja só.

No Mandaqui, ZN

No Mandaqui, ZN

O dia 31 de outubro virou dia das bruxas na Inglaterra porque coincidia com o ano-novo celta, “pagão”. Vai saber se não é a origem do 31 de outubro da rua, já que a Prefeitura não sabe explicar. Outra explicação mais plausível é que o 31/10 é o dia mundial da Reforma Protestante. Ou ainda, a independência da Hungria, em 31/10 de 1918.

Acabou? Não! Ainda tem ela, a…

No Grajaú, zona sul.

No Grajaú, zona sul. 1DASUL procês.

Nossa Musa de Outubro, que vem a ser um poema de Carlos Drummond de Andrade. A quebrada do extremo sul onde fica a Musa é especialmente literária. Lá perto, além do Luar de Lágrimas (que é um poema de Cruz e Sousa), temos as ruas do Eterno e do Desfile. 

Chega. Até a próxima!

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Que rua é hoje? – abril

E não é que chegamos no mês de abril? E como já se tornou tradição, é hora de “comemorar” as ruas do mês:

É verdade! A travessa fica no Morro da Esperança, quebrada da Cachoeirinha (zona norte).

É verdade! A travessa fica no Morro da Esperança, quebrada da Cachoeirinha (zona norte).

A Prefeitura não sabe explicar porque a travessa tem o nome do tradicional dia da mentira, que tem origem controversa. Uns dizem que surgiu na França, em 1564, quando o atual calendário gregoriano foi adotado. Daí quem ainda usava o calendário antigo, com o ano começando em abril, era sacaneado sem dó. No Brasil, o registro mais antigo de zueiras de primeiro de abril foi em 1828, quando um jornal apócrifo divulgou a morte de D. Pedro I, que só aconteceria anos depois. Embora hoje a gente nem leve tão a sério essa “tradição”, lá fora amam. Diversos jornais e sites divulgam notícias absurdas, que volta e meia os brasileiros desavisados compram. Vide o clássico boimateque seria uma “fusão de células de boi com células de tomate, perfeita para a produção de bifes à parmegiana”, que a revista Veja divulgou com gosto em 1983. Por muito tempo foi uma das maiores gafes da imprensa brasileira, só superado por um jornalista (precocemente falecido) que enforcou Jesus. Bom, mas voltando ao tema original, é bem possível que a travessa tenha esse nome por causa da data de oficialização do loteamento, o que é comum em várias quebradas da cidade.

Uma das mais antigas ruas de São Paulo, no centro, nem sempre teve esse nome

Uma das mais antigas ruas de São Paulo, no centro, nem sempre teve esse nome

A origem da Sete de Abril remonta ao longínquo final do século 18, quando o governador Conde de Sarzedas (que hoje dá nome a “25 de março dos crentes”), mandou botar calçamento e melhorar o acesso à todas as ruas de São Paulo (que então se resumia apenas ao atual centro). Entre as obras, estava uma pequena ponte sobre o Anhangabaú, mais ou menos onde está a atual Ladeira da Memória. A continuação da ponte, no lado antigo, ganhou o nome de estrada para a Cidade Nova, embora o povão preferisse chamá-la de Rua da Palha, já que o telhado das casas era feito desse material. No século 19, segundo os alfarrábios paulistanos, essas casinhas abrigavam as repúblicas onde viviam os estudantes da faculdade de Direito, não muito distante. Em maio de 1831, um vereador sugeriu que alguma rua passasse a ter o nome de Sete de Abril, em homenagem a abdicação de D. Pedro I, no mês anterior. Mas ele queria dar esse nome à então rua do Rosário (atual 15 de Novembro). Já que não deu, o nome foi parar na pontezinha sobre o rio. Anos depois, em 1865, era a vez do Largo dos Curros ganhar o nome de Sete de Abril. Só em 1873 que a nomenclatura passaria à então Palha, que afinal, já levava ao velho Curros – que nada mais é que a atual Praça da República.

Você não vê direito mas é a 13 de Abril, no Capão Redondo, zona sul.

Você não vê direito mas é a 13 de Abril, no Capão Redondo, zona sul.

Para compensar a verborragia das duas ruas anteriores, da 13 de Abril, no Capão Redondo, não tem muito o que falar. A Prefeitura só diz “pesquisa em andamento”. Muito provavelmente também tem a ver com a legalização do loteamento em que se encontra, já que é paralela com a rua “Consciência Popular” e faz esquina com a “Pró-Moradia Zona Sul”. De quebra, termina na “União dos Movimentos”, esquina com a “Unidos Venceremos”. Além disso, 13 de abril também é aniversário do ex-jogador de futebol Beto Fuscão (de 1950), e dia “do hino nacional brasileiro”, dia “da carta régia”, dos jovens” e, de quebra, é o ano-novo tailandês. Para eles, no próximo dia 13 chegaremos ao ano 2551.

Para a Prefeitura, 14 de abril é o "dia pan-americano". A rua está na Cidade Ademar.

Para a Prefeitura, 14 de abril é o “dia pan-americano”. A rua está na Cidade Ademar.

Segundo a Wikipedia, é verdade: 14 de abril é mesmo o “dia pan-americano”, seja lá o que isso for. Além disso, é “dia mundial do café” e aniversário de Catanduva, a capital nacional dos ventiladores. Além disso, no dia 14 de abril de 1977, nasceram pessoas muito importantes para nossa vida, como os jogadores de futebol Erjon Bogdani (o maior jogador albanês de todos os tempos!!!), Cristiano Zanetti, Mugurel Buga, além da eterna Buffy Sarah Michelle Gellar (obrigado, Wikipedia).

Sim, é uma homenagem a Tiradentes. Como vocês perceberam? A rua, quase não preciso dizer, fica no Bom Retiro.

Sim, é uma homenagem a Tiradentes. Como vocês perceberam? A rua, quase não preciso dizer, fica no Bom Retiro.

Além de “comemorarmos” o nosso mártir Tiradentes, enforcado em 21 de abril de 1792, cuja história é bem mais controversa do que aprendemos na escola, o dia também tem outras efemérides importantes. Uma delas é a estreia do Jornal Hoje, em 1971, mesmo dia em que empacotava o temível Papa Doc, ditador haitiano. Em 1985, seria a vez de outro “””mártir””” brasileiro morrer: Tancredo Neves (embora haja quem diga que ele já estava morto ao “posar” com os médicos nesta foto, tirada dias antes)…

Aqui, como dizem os PMs, "sem novidade". Também é, obviamente, uma alusão ao dia do "descobrimento" do Brasil

Aqui, como dizem os PMs, “sem novidade”. Também é, obviamente, uma alusão ao dia do “descobrimento” do Brasil. A rua está em Itaquera, zona leste – e o nome foi dado pelo Bancoque ainda não tinha dado as caras por aqui.

Naquele dia de 1500, Pedro Álvaro Escabral, como uma vez escreveu uma colega de escola décadas atrás, avistou o Monte Pascoal, na Terra de Santa Cruz. Nem queria chegar aqui: a ideia era achar as tais Índias. Além disso, o 22 de Abril é “niver” dos atores Jack Nicholson (de 1937), Sérgio Mamberti (de 1939), além de ser o dia da grande mãe babilônica Ishtar

A primeira missa do Brasil é lembrada até hoje, nesta rua da Penha (ZL).

A primeira missa do Brasil é lembrada até hoje, nesta rua da Penha (ZL).

Quatro dias depois do Pedrão ter pisado aqui, o frei Henrique de Coimbra pegou sua batina e fez o que mais sabia fazer: rezou uma missa, a primeira em solo brasileiro. Legal, né? Só para a turma dos lusitanos, porque certamente ainda não tinha dado tempo de estuprar, escravizar, matar, digo, converter os índios que por aqui estavam. 465 anos depois, outra data importante para o Brasil, boa para alguns e ruim para outros: a inauguração da Rede Globo (na Argentina, conhecida como Red O’Globo”, como se houvesse alguma ascendência irlandesa entre os Marinhos).

Flor de Abril é uma árvore, na verdade - e a rua está na Cachoeirinha, zona norte.

Só no “bananão” acontecem essas coisas: Flor de Abril é uma árvore,! A rua está na Cachoeirinha, zona norte.

Além das datas em si (a prefeitura também acusa as ruas 9 e 29 de Abril, que, no entanto, não aparecem em mapa algum), este mês também batiza as mais diversas coisas: de editora até bairro, como o Jardim d’Abril, que se divide entre São Paulo e Osasco – embora a maior parte esteja nesta última. A Flor de Abril (também conhecida por Maçã-de-elefante), por sua vez, é mais um dos milhares de batismos botânicos dados pelo Banco de Nomes – predominantemente na Zona Leste (falarei disso mais adiante).

Bartolomeu Abril era um pintor espanhol do século XVI, conhecido como "El Barto", no Tatuapé (ZL).

Bartolomeu Abril era um pintor espanhol do século XVI, conhecido como “El Barto“, no Tatuapé (ZL).

Pelo irrelevante currículo (e época antiga), você percebeu que é um nome do Banco. Já outras pessoas “d’Abril” sequer têm biografia, como Domitilia e Serafina (em São Miguel), e o casal Vitantônio e Maria Teresinha (na Cidade Ademar). Muito provavelmente eram loteadores dos bairros, já que as duas duplas estão bem perto. Para fechar, ainda tem o mais antigo de todos, também obra do Banco: 

Fica lá no Jardim Irene, terra do Cafu

Fica lá no Jardim Irene, zona sul – a terra do Cafu

O tal Abril , na verdade Dom Abril Peres de Lumiares, segundo este link, era neto bastardo do rei lusitano Dom Afonso Henriques, e um dos principais inimigos de outro rei, Dom Sancho III. Abril queria porque queria, lá para 1200 e pouquinho, tomar para si o atual concelho (algo como um distrito, em Portugal) de Touça. Ele até conseguiu mas acabou morrendo em 1242. Daí, uns 736 anos depois, seu nome saiu das trevas do esquecimento para virar o nome de uma rua paulistana. Claro, culpa do Banco de Nomes.

Chega, né? Semana que vem volto com outro assunto.

Ruas estranhas, apenas – 2

Hoje é dia de falar de mais ruas estranhas que, de tão estranhas que são, mal cabem em algum critério. Por isso inventei um: as ruas “das” coisas. Tem cada uma… Claro, aqui não vou falar de “rua das amoreiras”, “dos pinheiros” (embora nessa não tenha nenhum pinheiro plantado), etc, que a ideia já tá meio que na cara. Mas vamos lá:

I <3 TATUAPÉ S2 S2 S2

I ❤ TATUAPÉ S2 S2 S2 S2 S2

Essa ruela, travessa da rua Emílio Mallet, foi aberta nos anos 60 e foi chamada de “rua da Amizade”. Em 1990, mesma época em que a Prefeitura fez um novo levantamento de ruas repetidas ou mal-batizadas (de onde vieram as Borboletas, lembra?), ela ganhou o nome de Campeadores (que, assim como as Butterflies,  também é uma obscura obra de música erudita). Mas veja só: mesmo com o nome até “normal” o pessoal tatuapense botou os campeadores pra correr! Daí, como já existe uma travessa da Amizade no Jaçanã, resolveram o problema botando o aposto “do tatuapé”. E os campeadores?

achoooou!!!

achoooou!!!

Eles foram exilados na Vila Emília, bairro do Sacomã (zona sul). Fazendo esquina, fica a Cantiga Ingênua, outra obscurantíssima peça para piano de uma certa Adelaide Pereira da Silva.

Contrariando o que diz Galvão Bueno, a Curva é Curva mesmo, não é reta

Contrariando o que diz Galvão Bueno, a Curva é Curva mesmo, não é reta

Essa ruinha, na Vila Guilherme (ZN), tem um grande atrativo:

A curva da rua curva é mais curva que a curva da rua reta (Paulo Leminski)

A curva da rua curva é mais curva que a curva da rua reta (Paulo Leminski)

Sim, uma curva. E ponto final. Nem o Dicionário sabe explicar, mas é um alento saber que a rua curva é curva (em U, para ser mais exato).

Fica na Casa Verde (zona norte).

Fica na Casa Verde (zona norte).

E a rua da Divisa? Pode botar no mapa: ela não divide nada com lugar nenhum, pelo menos nos dias de hoje. O Dicionário também não tem explicação. Alguém sabe? Mistério…’

"Olha, quem entra aqui nessa rua é no mínimo um imbecil, mal-educado. Olha, sai daqui, tá?"

“Olha, quem entra aqui nessa rua é no mínimo um imbecil, mal-educado. Olha, sai daqui, tá?”

Não tem nada a ver com grosseria, nem com a qualidade do asfalto. Essa rua do Jaraguá (zona norte) foi agraciada pelo Banco com o nome de uma serra, na verdade “das asperezas que fica na micro-cidade gaúcha de Pinheiro Machado.

fica no Jabaquara (zona sul).

fica no Jabaquara (zona sul).

Não se encontrarão exemplares de Ouro Rublo, Grande Midas ou Picolé, muito menos A Recreativa (que é bem mais chata de fazer). As cruzadas da rua são mesmo aquelas da Idade Média. Melhor assim.

#mtosincera: essa rua é uma porcaria, não vem morar aqui não, tá? #mtofranka

#mtosincera: essa rua é uma porcaria, não vem morar aqui não, tá? #mtofranka

Quem disse que as ruas não têm sentimentos? Essa aqui fica no Jaraguá (zona norte), pertinho da Rua da Franqueza. Mas, francamente, é bem quebrada ali: ambas são vias de um conjunto habitacional da região, já bem perto da Brasilândia.

Pode ficar tranquilo, aqui não tem assalto, todo mundo fica com a porta aberta...

Pode ficar tranquilo, aqui não tem assalto, todo mundo fica com a porta aberta…

Antes fosse assim nessa ruelinha da Vila Matilde (zona leste)… na verdade, deve ter sido um positivista ou algo do gênero que loteou o bairro, já que o Bem termina na rua da Ordem e é paralela à rua Do Trabalho Da Economia.

E, como tantas, a Cordialidade fica no meio de uma quebrada, o Jardim São Luís (zona sul). Pelo street view parece ser um lugar até aprazível (pelo menos de dia…). Aliás, falando em Cordialidade…

Se tem alguém cordial aqui é o homem. O cara.

Se tem alguém cordial aqui é esse homem. O cara.

Pois é, a maneira que o Sérgio Buarque de Hollanda tentou descrever o caráter do brasileiro, nem sempre de forma positiva, sabe-se lá o motivo, batiza a ruinha da Cidade Dutra (zona sul). Muito provavelmente, foi um “jeitinho” de fazer mais uma homenagem ao escritor, que morava no Pacaembu, pertinho do estádio. Não por acaso, a praça que fica em frente à casa dele ganhou o nome de sua obra seminal, publicada em 1936:

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Quando moleque, o Chico Buarque gostava de furtar carros estacionados e dar uns rolês pelas ruas do Pacaembu, até acabar a gasolina. Tanto que ele sabe até hoje dar ligação direta. Boa parte das ruas onde Chico pilotava têm nomes de cidades do interior de São Paulo, como Itápolis e Buri, que se unem ao lado da praça. A única desalojada foi Sorocaba:

A maior de todas, como você vê pela numeração, é a Itápolis. Ela dá várias voltas até cortar o estádio do Pacaembu pelo lado direito

A maior de todas, como você vê pela numeração, é a Itápolis. Ela dá várias voltas até cortar o estádio do Pacaembu pelo lado direito

Sorocaba, aliás, nunca mais voltou a ser nome de rua (a não ser uma não-oficial no Morro Doce, quebradinha na zona norte). Já o professor Ernest Marcus, zoólogo alemão radicado no Brasil, e morto em 1968, não tomou o nome da rua por acaso. É porque ele morava lá: sua casa, aliás, era essa mesma que tem a placa pendurada… Mas se as ruas do Pacaembu, em geral, têm nomes de cidades, o contrário também acontece, a umas oito horas de distância:

Bem-vindo a Pacaembu! A cidade mais querida do Brasil tem temperatura média de 39 graus à sombra e um site bem do chambeta

Bem-vindo a Pacaembu! A cidade mais querida do Brasil tem temperatura média de 39 graus à sombra e um site oficial bem do chambeta

Essa cidadela, de apenas 12 mil habitantes, fica lá no extremo oeste do estado, mais perto do Mato Grosso do Sul do que daqui da capital. Lembro que saí um tempinho com uma menina que era da cidade vizinha (e um pouco maior), Adamantina, e ela disse que rolavam umas festinhas por lá. Na verdade, apesar de serem independentes, as cidades daquela região, como Lucélia e Lavínia acabam meio que funcionando como “bairros”, de pequenas que são (e, todas predominanemtente rurais) – é uma conurbação, como dizem os geógrafos. Boa parte delas só começou a existir porque a estrada de ferro trouxe gente para lá (história de 9 entre 10 cidades do interior de SP, cá entre nós).

Mas do que eu estava falando mesmo? Ah sim: Pacaembu, fundada em 1947, reza a lenda, tem esse nome porque, quando rolou sua emancipação de Lucélia,   os moradores começaram a brigar entre si, cada um com sua sugestão. Daí “um deputado que intermediava a conversa e tinha acabado de assistir um jogo do Corinthians no Pacaembu” (aham, naquela época ele teria levado umas 10 horas de trem pra chegar), “falou que a gritaria e a bagunça estavam parecendo a torcida no estádio”. Daí, a turma acabou gostando do nome e ficou: Pacaembu.

Galeria de ruas estranhas, apenas – 1

As ruas de São Paulo têm batismos tão sui generis que as vezes fica até difícil juntar materiais para posts temáticos como os que você vê por aqui. É que a viagem – nem sempre culpa do Banco de Nomes, as vezes são obras dos próprios moradores – é tão grande que nenhum critério é suficiente. Veja só:

A rua fica na Vila Maria (zona norte). O nome foi dado pelos próprios moradores.

A rua fica na Vila Maria (zona norte). O nome foi dado pelos próprios moradores.

A placa acima está bem ruim de ver, mas se trata do ilustríssimo Coronel Cucoque nunca pisou em nenhum quartel ou congênere simplesmente porque nunca existiu. Era apenas o pseudônimo do apresentador de um obscuro programa de rádio dos anos 1960 – segundo o colaborador do Dicionário de Ruas, na extinta Rádio Marconi. Já outros dizem que era na igualmente extinta Rádio Cometa.

Ada, na Cidade Ademar (zona sul)

Ada, na Cidade ADAmar (zona sul) KKKKK

Essa é controversa: segundo o Dicionário de Ruas, Ada é “palavra árabe que designa tanto o pagamento de uma dívida, quanto o cumprimento de um dever religioso. – Ada, na informática é linguagem de programação de alto nível. Mas acho que a explicação é mais simples: apenas um loteador querendo homenagear a mulher (ou uma loteadora querendo homenagear o marido). É que só uma quadra depois fica outra rua que “orna” com a “Ada”: a Adalberto.

O sonho de Anarello fica no Paraíso. Bonito, não?

O sonho de Anarello fica no Paraíso. Bonito, não?

Para começar a explicar o curioso nome da rua, você precisa conhecer o simpático italiano Giovanni Bruno. Garçom do famoso Gigetto, frequentado por artistas, ganhou do diretor de teatro Antunes Filho o apelido de Anarello, por causa do personagem principal do filme A Rosa Tatuada, de 1955. Logo, Bruno foi abrindo seus próprios restaurantes (um deles até pegou fogo), que foi vendendo. Até que, em 1980, realizou seu sogno, abrindo a cantina Il Sogno di Anarellono número 58 da rua Timbuí (nome de um rio no Espírito Santo). Lá, até hoje, ele atende pessoalmente os clientes e prepara pratos clássicos. Tanto carinho foi retribuído por um vereador paulistano que, em meados dos anos 80, transformou a Timbuí em Il Sogno di Anarello. Na Sogno só não vá no salão de cabeleireiro que fica no número 40, dizem que é um cenário de filme de terror.

No Carnaval, a venda de tapaxanas deve aumentar substancialmente

No Carnaval, a venda de tapaxanas deve aumentar substancialmente

Humor estilo Zorra: a gente vê por aqui. Não, Tapaxanas não são o que você está pensando. São (ou melhor, eram) uma tribo indígena já extinta que habitava as margens do rio Solimões, no Amazonas. A rua, por sua vez, fica quase dentro do parque da Cantareira, no Tremembé (zona norte).

Que legal, o pessoal da Prefeitura gosta tanto de usar o Photoshop e o Illustrator...

Que legal, o pessoal da Prefeitura gosta tanto de usar o Photoshop e o Illustrator… A rua está no Jardim Helena, zona leste.

Como você, um atento leitor, já percebeu, é claro que o Adobe não tem nada a ver com a empresa de softwares como o Photoshop. Até porque a placa é dos anos 70, mais precisamente da primeira leva do Banco de Nomes. Mas antes fosse, porque a homenagem é para um tipo de tijolo rudimentar, uma espécie de bloco de pau-a-pique, que pode ser feito até com esterco de vaca.

Fui à Vila Olímpia, bati de porta em porta e não achei o ator em nenhuma casa

Fui à Vila Olímpia, bati de porta em porta e não achei o tal ator, chatiado

Esta importante rua da Vila Olímpia já foi point dos baladeiros, em casas como a antiga Ibiza, que não foi a nossa Kiss por muito pouco. Mas garanto que ninguém sabe o motivo do nome, oficializado ainda no longínquo 1952. É que naquele tempo havia uma espécie de Retiro dos Artistascomo o carioca, justamente chamado de Casa do Ator – e que fechou ainda nos anos 50, pelo que consta. Isso num tempo em que a Vila Olímpia ainda era um pântano com cara de cidade do interior. Curiosamente, o Retiro dos Artistas carioca também fica na Rua Retiro dos Artistas. 

Uma microparalela da Jacu-Pêssego, no coração de Itaquera (parece propaganda de prédio)

Uma microparalela da Jacu-Pêssego, no coração de Itaquera (parece propaganda de prédio)

Nada a ver com o ator Paulo Gorgulho ou sua família. É pior: o Banco de Nomes achou por bem batizar uma rua com esse nome graças à outra acepção do termo Gorgulho: Detritos de rocha, ou seja, um nome diferente para cascalho. 

Mas rapaz, é uma fixação com pedra, gente...

Com certeza havia um fã de pedras na prefeitura

Como você vê pelas duas placas, a categoria de pedras moídas está muito bem representada na cidade, com a companhia da rua Brita, em Cangaíba, também na ZL. Além delas, também tem o Barão de Cascalho, mas ele existiu mesmo: foi o fundador da cidade de Cordeirópolis, no interior de São Paulo – aliás, “fundadores de cidades do interior” também são uma categoria bem grande do Banco de Nomes.

A classe média sofre mesmo: não bastam os escorchantes impostos diários, ainda "homenageiam" uma rua com um deles

A classe média sofre mesmo: não bastam os escorchantes impostos diários, ainda “homenageiam” uma rua com um deles

Isso mesmo que você leu. Uma das vertentes do Banco de Nomes, aparentemente, foi “eternizar” coisas e palavras em desuso há séculos nas coitadas das ruas. É o caso da Capitaçãoque fica no Lajeado (ZL), que nada mais era que um dos impostos que o Império cobrava dos exploradores de diamantes em Minas Gerais, nos séculos 17 e 18. Bom, pelo menos a “capitação” fica na boca do povo, assim como o…

Almotacel designa "O antigo inspetor de pesos e medidas", diz o Dicionário.

Almotacel, que designa “O antigo inspetor de pesos e medidas”, de acordo com o Dicionário. A rua está na Brasilândia (zona norte).

Na verdade, segundo consta, o almotacel, além de verificar os pesos e medidas, tinha cargos em lugares tão curiosos como a Câmara dos Vereadoresna prática sendo uma espécie de “moderador” dos vereadores. E pelo “al” do início, muito provavelmente o termo tem origem árabe. Mas já no século 19, ninguém mais precisava de almotaceis. Eles só voltariam a ser úteis a partir de 1978, quando um certo Banco de Nomes resolveu arrolar TODOS os almotaceis brasileiros e transformá-los em ruas. É, você leu certo: cerca de 100 ruas paulistanas (e eu não terminei de contar ainda), têm nomes de almotaceis, pelo simples motivo de terem existido um dia.

"Manoel Simões exerceu o ofício de carpinteiro em Conceição do Mato Dentro no Estado de Minas Gerais, na primeira metade do século XVIII. Foi almotacel do século XVI."

“Manoel Simões exerceu o ofício de carpinteiro em Conceição do Mato Dentro no Estado de Minas Gerais, na primeira metade do século XVIII. Foi almotacel do século XVI.” A rua é do Sacomã (zona sul).

Diz a lenda que é de Manoel Simões, que na verdade se chamava João Manoel Simões, a origem do termo Zé Mané, que designa o famoso ninguém. Atente para o detalhe do texto da Prefeitura na legenda da foto – que não editei. Segundo ele, Mané viveu 200 anos…

Espero voltar na semana que vem com mais nomes estranhos. Aguardem (mas sem pressa, tá?)

Galeria de tipos irrelevantes (argentinos) – 2

Para aproveitar nuestro novissimo papa hermano, vulgo Francisco, o tema da nossa galeria de tipos irrelevantes de hoje são os argentinos.

Este é um argentino

Um argentino típico

É porque, sabe-se lá por que cargas d’água, o sempre surpreendente Banco de Nomes resolveu usar algum obscuro livro da história portenha para batizar várias ruas da periferia de São Paulo. Não são tantos quantos os pedreiros mineiros do século 17 que você viu na semana passada, mas é um número considerável. São pelo menos umas 100 ruas com nomes de personalidades (?) argentinas do início do século XIX.

"Daniel Cerri: militar argentino, nasceu em 1841 e faleceu em 1914; lutou na Guerra do Paraguai e foi o primeiro governador dos Andes. Este nome foi retirado do Banco de Nomes de SEHAB-CASE." A rua está na Brasilândia, como vários outros portenhos

“Daniel Cerri: militar argentino, nasceu em 1841 e faleceu em 1914; lutou na Guerra do Paraguai e foi o primeiro governador dos Andes. Este nome foi retirado do Banco de Nomes de SEHAB-CASE.” A rua está na Brasilândia, como vários outros portenhos. Já Francisco Margall era um escritor, mas espanhol.

"Gregório Funes, Historiador argentino. Reitor da Universidade de Córdoba. Foi deputado e clérigo famoso.". A rua está no Tucuruvi.

“Gregório Funes, Historiador argentino. Reitor da Universidade de Córdoba. Foi deputado e clérigo famoso.”. A rua está no Tucuruvi.

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João das Heras: político da Argentina, nasceu em 1780 e faleceu em 1861. Foi governador de Buenos Aires no período de 1824 a 1826, tendo também dirigido a Campanha do Sul do Chile. A rua está no Lajeado, ZL.

Frederico Lacroze :Célebre economista e político argentino, nascido em 1.838, levantou a economia do país, projetou a primeira linha de ônibus urbano de Buenos Aires

Frederico Lacroze :Célebre economista e político argentino, nascido em 1.838, levantou a economia do país, projetou a primeira linha de ônibus urbano de Buenos Aires. Também fica na Brasilândia.

Guillermo Correa, jornalista, jurista, professor e romancista argentino nascido em 1858, na cidade de Catamarca. Foi membro do Partido Autonomista Nacional, duas vezes governador de Catamarca, tendo também representado sua província no Congresso Nacional (1904-1908). A rua fica no Jaraguá.

Guillermo Correa, jornalista, jurista, professor e romancista argentino nascido em 1858, na cidade de Catamarca. Foi membro do Partido Autonomista Nacional, duas vezes governador de Catamarca, tendo também representado sua província no Congresso Nacional (1904-1908). A rua fica no Jaraguá.

Histórico: Esta rua foi denominada através do Decreto nº 17.825 de 11/02/1982. João Pujol: estadista argentino, nasceu em 1817 e faleceu em 1861; foi o criador do primeiro selo de seu país. Fica no Aricanduva, ZL.

Histórico: Esta rua foi denominada através do Decreto nº 17.825 de 11/02/1982. João Pujol: estadista argentino, nasceu em 1817 e faleceu em 1861; foi o criador do primeiro selo de seu país. Fica no Aricanduva, ZL.

Curiosidade: desses aí, só Frederico Lacroze é nome de algo em Buenos Aires – uma das estações do metrô. Mas há alguns famosos:

Ah vai, ele era francês, mas é como se fosse argentino... a praça fica do lado do ginásio do Ibirapuera.

Ah vai, ele era francês, mas é como se fosse argentino… a praça fica do lado do ginásio do Ibirapuera.

Deixa a argentinada saber que a Evita é só uma viela no meio de uma quebrada da Cidade Tiradentes...

Deixa a argentinada saber que a Evita é só uma viela no meio de uma quebrada da Cidade Tiradentes…

Esse quem já foi a "BsAs" conhece porque é o nome do aeroporto - justamente porque ele foi um dos pioneiros da aviação argentina. E não por acaso a rua fica no parque Edu Chaves, outro aviador.

Esse quem já foi a “BsAs” conhece porque é o nome do aeroporto – justamente porque ele foi um dos pioneiros da aviação argentina. E não por acaso a rua fica no parque Edu Chaves, outro aviador.

Além disso, um vereador sem nada o que fazer já quis trocar o nome do Minhocão para “Elevado Presidente Nestor Kirchner”. Mas o Costa e Silva não sai de lá tão cedo.

Mas aí você me pergunta: não tinha opção melhor para batizar as ruas a usar esses nomes obscuros lá de cima? Bom, espero que você nunca trabalhe numa secretaria de habitação com mais de VINTE MIL ruas para dar nome…

Marginais de leste a sul – parte 1

Uma brincadeira divertida a fazer com um turista recém-chegado a São Paulo que queira chegar ao centro, vindo de qualquer um dos aeroportos e rodoviárias, é mandá-lo pegar a Rodovia Professor Simão Faiguenboim. Aí diga que, caso ele queira ir para a zona norte, poderá ir pela Embaixador Macedo Soares. Já para a zona sul, entre outras opções, haveria a Major Sylvio de Magalhães Padilha. Daí é só aguardar os xingamentos…

De quebra, ele ainda ganhou uma praça, no Alto de Pinheiros.

Simão Faiguenboim era professor de química. Foi um dos fundadores da rede de cursinhos Anglo. Morreu em 1991. Era tão querido que além da Marginal ganhou essa praça, no Alto de Pinheiros

Mas que nem teriam motivo: é que na verdade, todos esses nomes simplesmente designam uma (ou as duas) Marginais, que ligam a cidade de leste a sul. Para começar, desde que o último trecho da Marginal Pinheiros foi entregue, em 1991, as marginais Tietê e Pinheiros são parte de um mesmo complexo rodoviário, a SP-015. Ou melhor: Rodovia Professor Simão Faiguenboim, que tinha morrido na época. Parece que há uma placa com o nome do mestre em algum lugar confirmando o batismo, mas nunca vi. Fique então com a lei que o oficializou. (Mas se algum dos leitores achar, por favor me mande a localização da placa, ok?).

Alarme falso. Você nunca verá essa placa nas Marginais

Alarme falso. Você nunca verá essa placa nas Marginais – e nem mais nesta rua, que hoje se chama Sylvio Lagreca, em Raposo Tavares.

Mas precisamos sair de algum lugar. Vamos supor que nosso amiguinho veio do aeroporto de Guarulhos e adentrou a cidade pela rodovia Ayrton Senna (que um dia já foi Trabalhadores, quando o piloto era vivo). É só pisar em território paulistano que a “Marginal” assume o nome de Morvan Dias de Figueiredo:

O pernambucano Morvan foi Ministro do Trabalho do governo Dutra, entre 1946 e 1948. Antes, dizem que foi até estivador. Morreu em 1950

O pernambucano Morvan foi Ministro do Trabalho do governo Dutra, entre 1946 e 1948. Antes, dizem que foi até estivador. Morreu em 1950

Morvan permanece marginalizado por um bom tempo, ainda que tenha uma interferência. Entre o shopping Center Norte e a rodoviária do Tietê, a pista local assume o nome da rua da Coroa, como se fosse um prolongamento da própria, que começa no centro da Vila Guilherme. As outras seguem como Morvan, mas por poucos metros.

Segundo a prefeitura, não é nenhuma nobreza: a referência é a Ilha da Coroa Comprida, no Pará, que logo vai acabar.

Segundo a prefeitura, não é nenhuma nobreza: a referência é a Ilha da Coroa Comprida, no Pará, que logo vai acabar. Mas há indícios que isso seja mentira, como aponta a enciclopédia urbana de Ralph Giesebrecht

Cruzando a ponte das Bandeiras, chegamos na Avenida Assis Chateaubriand:

Esse merece homenagens: "apenas" trouxe a TV para o país, bancou boa parte da imprensa, etc e tal. E isso mesmo depois de ter sofrido um derrame. Dizem que seu amigo Lima Duarte se inspirou em Assis para compor o Dom Lázaro, da novela Meu Bem Meu Mal.

Chatô (1892-1968) merece homenagens: “apenas” trouxe a TV para o país, bancou boa parte da imprensa, etc e tal. E isso mesmo depois de ter sofrido um derrame. Dizem que seu amigo Lima Duarte se inspirou em Assis para compor o Dom Lázaro, da novela Meu Bem Meu Mal.

Dura pouco esse nome: já no cruzamento com a ponte da Casa Verde, Chatô (de quem o ator Guilherme Fontes é muito fã) dá lugar a um certo Otaviano (que não é esse):

O rico empresário Otaviano não tinha onde gastar seu dinheiro e fundou uma certa Folha da Manhã, que depois passou para as mãos da família Frias. Também era "fisiocrata por idealismo", segundo a Prefeitura.

O rico empresário Otaviano certamente não tinha onde gastar seu dinheiro. Por isso, em 1925, fundou uma certa Folha da Manhã, que depois chegaria às mãos da família Frias. Também era “fisiocrata por idealismo“, segundo o Dicionário de Ruas.

Não deixa de ser curioso que a sede do Estadão, no Limão, fique, oficialmente, numa “avenida” cujo nome é o do fundador de seu principal concorrente. Ele só sai de cena depois da saída lateral da rodovia Anhanguera, uns bons quilômetros depois. Caia para trás com a descoberta:

Não me leva a mal, aqui é marginal

Não me leva a mal, aqui é marginal

O nome Marginal permanece até um pouquinho antes da entrada da rodovia Castello Branco – que, você nem percebe, mas já é Osasco. Lá, vira Avenida Presidente Kennedy. Um pouco antes, na saída da Anhanguera, a Marginal se confunde com os leitos das avenidas Manoel Monteiro de Araújo Domingos de Sousa Marques – dois irrelevantes artesãos do século XVIII. Breve mostrarei que esses nomes são mais comuns do que se pensa.

Mas eis que você cruzou o Cebolão, inaugurado apenas em 1978 (ou melhor, Complexo Viário “Heróis” de 1932) e chegou na marginal Pinheiros, não? Não! Primeiro que a pista final do Cebolão, embora não tenha placas, se chama André Beauneaveu – um escultor francês da Idade Média. Daí, sim você chegou aqui:

O engenheiro americano Asa White Billings foi importado para o Brasil para construir hidrelétricas, como a de Cubatão - e, claro, a represa que também leva seu nome.

O engenheiro americano Asa White Billings, morto em 1949, foi importado para o Brasil para construir hidrelétricas, como a de Cubatão – e, claro, a represa que também leva seu nome. Fizeram até revista em quadrinhos sobre sua vida.

Mas olha que loucura: a Billings começa, na verdade, lá dentro do Jaguaré, na avenida Presidente Altino, fazendo esquina com ela mesma! É que a avenida Billings já existia antes e já fazia essa curva… Mas se você tivesse vindo da pista direita da Castello Branco, ainda teria passado por duas “ruas”, a Andries Both e a Antoine Bourdelle:

Tanto Andries (que nem tem placa) quanto Antoine são obra do Banco de Nomes: Andries era um pintor holandês do século 17. Antoine, um escultor francês - tem obras dele espalhadas por toda Paris.

Tanto Andries (que nem tem placa) quanto Antoine são obra do Banco de Nomes: Andries era um pintor holandês do século 17. Antoine, um escultor francês – tem obras dele espalhadas por toda Paris.

Mas passou, tá? Depois disso, ela continua Billings até a ponte Cidade Universitária. Daí, o engenheiro troca de lugar com o médico:

Doutor José Ferraz Magalhães de Castro foi um dos pioneiros da homeopatia no Brasil, tendo aberto sua clínica em 1890. Morreu em 1942.

Doutor José Ferraz Magalhães de Castro foi um dos pioneiros da homeopatia no Brasil, tendo aberto sua clínica em 1890. Morreu em 1942.

A Magalhães continua com esse nome até a ponte Cidade Jardim – ou melhor, ponte Engenheiro Roberto Rossi Zuccolo. Embora já tivesse uma avenida com seu nome, a homenagem (dada nos anos 90) foi merecida. É que, na “cena arquitetônica”, Zuccolo (morto em 1967) era conhecido como o homem das pontes” – justamente por ter ajudado a erguer a própria Cidade Jardim. Mas a partir daí, Marginal passa a ser a…

Se meus pais fossem religiosos, talvez meu nome seria Bonifácio - já que o seu "dia" é o mesmo do meu aniversário: 5 de junho

Se meus pais fossem ultracarolas católicos, talvez meu nome fosse Bonifácio – já que o seu “dia” é o mesmo do meu aniversário: 5 de junho. O maior feito de São Bonifácio foi ter derrubado o carvalho sagrado dedicado ao deus nórdico Thor, no ano 723.

Essa rua já existia antes de ser “engolida” pela Marginal, na década de 1970 – tanto que, depois da ponte, ainda havia casas que davam para a pista. Algumas delas, recentemente demolidas para a construção de uma nova alça para a Cidade Jardim. No final da São Bonifácio, você tem uma bifurcação para a ponte Ary Torres, que leva à avenida dos Bandeirantes. Caso queira prosseguir, sem que se note, você entrou na

O professor Alcides dava aula de História e Geografia no Grupo Escolar do Bananal. Morreu em 1931, aos 50 anos.

O professor Alcides Sangirardi dava aula de História e Geografia no Grupo Escolar do Bananal. Morreu em 1931, aos 50 anos.

Agora, pense em algo louco, bem louco. Mas muito louco meeesmo. Talvez uma avenida que volte a ter o mesmo nome que tinha antes:

Isso. A partir da esquina com a rua Joapé, na frente do shopping Cidade Jardim, a marginal volta a se chamar Magalhães de Castro.

Isso mesmo. A partir da esquina com a rua Joapé, na frente do shopping Cidade Jardim, a Marginal volta a se chamar Magalhães de Castro !

É que, na verdade, a Marginal nunca perdeu esse nome. Tecnicamente, todo o tempo em que Magalhães passou longe da gente foi porque ele estava nomeando só a pista expressa, não a local – a numeração continua o trecho anterior, inclusive. Este trecho da Marginal ainda é relativamente recente: só tem uns 35 anos, tendo sido construído pelo então governador Abreu Sodré. Dá mesmo para dizer que foi o Rodoanel da época, como diz Giesbrecht.

O trecho seguinte, a partir da ponte do Morumbi, foi inaugurado em 1982 pelo atual presidente da CBF. Aquele, que antes de ter sido governador-tampão também foi cúmplice de assassinato. Por ter sido inaugurada depois, ainda manteve o nome de Marginal Esquerda do Rio Pinheiros. Para o desespero dos vereadores, o batismo “sem graça” até que sobreviveu bastante, 22 anos. Só em 2004 ganhou outro:

Até 2004, era apenas "Marginal Esquerda do Rio Pinheiros"...

E, enfim, o famigerado ACR, aquele que é senador e vereador ao mesmo tempo, conseguiu. Desde então, a avenida homenageia o Major Sylvio, que foi presidente do Comitê Olímpico Brasileiro entre 1963 e 1990 – e que bateu as botas em 2002.

Por alguns poucos anos, a então Marginal acabava na entrada da ponte João Dias. Mas logo sairia a ampliação, no finalzinho da década de 1980, impulsionada pelo grande centro empresarial que foi aberto ali (e que não tinha acesso…). Daí, você ganhava uma ligação com o outro lado da via (tema do próximo post), pela ponte Transamérica, ou ainda seguir em frente até a avenida Guarapiranga. Este último trecho foi uma gentileza com a fábrica de bicicletas que já existia ali – até porque desde muito antes, já havia uma rua com o mesmo nome no Brooklin:

Fundador da Caloi, Guido morreu em 1955.

Fundador da Caloi, Guido morreu em 1955.

A bem da verdade, deveria ter começado este post ao contrário, já que estes são os trechos mais recentes. Mas como nosso turista imaginário sairia de Guarulhos de outro jeito? Aguarde o próximo que eu explicarei o caminho de volta pelas marginais – ops, pela Rodovia Professor Simão Faiguenboim.

Zona Sul Extreme – parte 2

Quem acessa o extremo sul pelo, digamos, “lado oeste” deve pegar a avenida Senador Teotônio Vilella, que um dia foi o primeiro trecho da Estrada de Parelheiros. Perdeu o nome original pouco depois da morte do Menestrel das Alagoas, como o político, morto em 1983, era conhecido. Ela começa ainda atrás do Autódromo de Interlagos.

Gostavam tanto do Teotônio que fizeram até música

Gostavam tanto do Teotônio que fizeram até música

Seguindo a avenida, cruza-se o trecho urbano da Paulo Guilguer Reimberg (de quem já falei no outro post) e, pouco depois, quando chegamos em Parelheiros,  Teotônio Vilela se torna Sadamu Inoue – que, até 2000, ainda conservava o nome de Estrada de Parelheiros. 

Sadamu foi

Sadamu Inoue foi agricultor da região e um dos que trouxe energia elétrica ao bairro do Cipó, fronteira com Embu-Guaçu. Morreu em 31 de maio de 1998

Em volta do final da Teotônio e o início da Sadamu (olha a intimidade), há vários bairros de classe média baixa. O maior deles é o Varginha. O Banco de Nomes, para variar, foi bem criativo ali. Tem…

Música brega...

Música gaúcha… (no aguardo da rua Cheia de Manias)…

Os pixos na parede também são eternos?

… sentimentos <3…

um pouco de astronomia...

um pouco de astronomia – afinal, o ET de Varginha, na verdade, é de lá…

... orixás...

orixás

Cada um tem a Sunset Boulevard que merece

… e filmes, afinal cada um tem a Sunset Boulevard que merece. Na verdade, a referência é Götterdämmerung, de Richard Wagner.

Mas na verdade ainda nem chegamos de fato em Parelheiros, que começa mesmo quando você entra na avenida do Jaceguava. Ela dá acesso a diversos “microbairros” de chácaras, uma constante ali. Pela estrada do Jaceguai (vulgo avenida Hermann von Ihering), chega-se, por exemplo, ao Solo Sagrado da igreja messiânica e ao clube de campo do Palmeiras, todos à beira da represa Guarapiranga. Alguns, mais chiques, são fechados, e por isso fico devendo ruas como a dos Jograis e a Sons Musicais.

Uma amostra do que se vê por ali, na avenida Mathilde de Lutis Barbosa, conhecida por ter sido casada com Adoniran Barbosa.

Uma amostra do que se vê por ali, na avenida Mathilde de Lutis Barbosa, conhecida por ter sido casada com Adoniran Barbosa.

Do lado oposto à Jaceguava, voltando à Sadamu, há a rua Amaro Alves do Rosário (não se sabe quem foi, mas também tem uma rua com esse nome em Guarulhos), a antiga Estrada do Itaim – nome do córrego que ainda passa por ali. Com paciência, ela termina no bairro São Norberto, por onde o Street View também não passou e ao lado do antigo leito da linha do trem. Lá o Banco também foi musical. A predominância são os artistas muito antigos, como Luigi Caruso e Isabela Canalli. De lá, você pode voltar à Colônia Alemã, que é pertinho.

motel sadamu

Como boa estrada, a Sadamu é coalhada de coisas que tem em… estradas! São vários moteis, borracheiros e chácaras, entre os bairros que vão ficando cada vez mais esparsos. Até a Subprefeitura fica numa espécie de chácara adaptada. O último “centrinho urbano” é onde fica o CEU Parelheiros. Lá, cruzamento com a Estrada da Colônia, a Sadamu se torna a estrada Engenheiro Marsilac, e os nativos da região encontram lojas, igrejas, bancos, etc. Mas calma: nem saímos de Parelheiros ainda.

cruzamentomarsilacsadamu

Cidade do interior? Não, apenas o encontro da Estrada da Colônia com a Sadamu Inoue, que vira Engenheiro Marsilac. Para trás da igrejinha é o “centro” de Parelheiros.

Virando um pouco antes, na altura do cemitério Parque dos Girassois, que é bem grande, você poderia pegar a Rua do Juza:

É uma travessa da Sadamu, que leva a um bairro de chácaras sem asfaltamento chamado Chácara Santo Humbertus. Sabe aquelas estradinhas que, de longe, você já começa a ver aquelas plaquinhas “casamento Kedma e Giliémerson” nos postes? É assim a Juza. Segundo o mapa, no Santo Humbertus fica a rua Diógenes dos Santos Melquisedec. Aí você me pergunta: não tem nada de mais nesse nome, né? Tem sim, mas vou contar depois. Segure a curiosidade 🙂