Que rua é hoje? – dezembro

Vocês, meus 17 leitores do blog, devem ter sentido minha falta. Afinal, já houve tempos em que eu atualizava este espaço semanalmente, assim como a página do Facebook. E não é que faltam ruas bizarras para mostrar: é só o blogueiro que nem sempre está inspirado (ou com tempo) para postar. Afinal, cada texto que você lê aqui dá trabalho pra fazer, como diz Marcelão.

Aliás, já boto EXCLUSIVO para o tema de hoje: as ruas de dezembro, o mês que já chegou chegando para mandar 2013 para a vala (amém!).

Diz a Prefeitura que existe uma rua 1 de dezembro, mas a informação não procede. Por isso, a primeira é essa aqui:

Uma ruinha de apenas uma quadra ao lado da Radial (nesta altura, José Pinheiro Borges), em Itaquera.

Uma ruinha de apenas uma quadra ao lado da Radial (nesta altura, José Pinheiro Borges), em Itaquera.

A explicação oficial é que o 2 de dezembro é o dia do migrante – nomenclatura até que adequada para uma das regiões que mais recebeu migrantes nordestinos na cidade. Entre outras coisas que aconteceram em 2 de dezembros, dá pra lembrar também da eleição de Abraham Lincoln em 1860 e a Lei da Anistia, em 1979. Tá certo.

No centro, entre a Boa Vista e a 15 de novembro.

No centro, entre a Boa Vista e a 15 de Novembro. Ao fundo, uma casa lotérica.

A localização já dá a dica de que deve ser uma data histórica. E é mesmo: alude ao dia 3 de dezembro de 1870, quando Quintino Bocaiúva lançou o primeiro “manifesto republicano” brasileiro, iniciando um lobby que enfim levou à proclamação (bem, meio ao estilo coup-d’etat), 19 anos depois. Exatos 124 anos depois, outro 3 de dezembro entraria para a história, com o lançamento, pela Sony, do primeiro Playstationno ano da graça de 1994.

Na Vila Formosa, perto da avenida Aguiar da Beira (ZL)

Na Vila Formosa, perto da avenida Aguiar da Beira (ZL)

Tá difícil de ver mas é 4 de dezembro, que vem a ser, por incrível que pareça, uma homenagem ao Dia da Propaganda, comemorado na data. A homenagem aos criativos veio de um job interessante: a criação, em 1936, da primeira associação de agências da América Latina, a Asociación de Jefes de La Propaganda, na Argentina. Não sabia? Agora sabe. No mesmo dia, o simpático e doce Emílio Garrastazu Médici (que ainda não era general) assoprava 31 velinhas.

Na "Vila Calendário", lá na Cachoeirinha (zona norte)

Na “Vila Calendário”, lá na Cachoeirinha (zona norte), entre a 22 de Agosto e a 28 de Janeiro. 

Já falei desse bairro, cujo loteador resolveu olhar as datas mais bonitas no calendário e jogou nas ruas – e a origem oficial se perdeu no tempo. Será que o 7 de dezembro era o de 1941, quando os japoneses atacaram Pearl Harbor, na II Guerra? Ou ainda a promulgação do Código Penal, em 1940 (incrivelmente ainda em vigor)? Mistérios…

Não esses

Não esses

Próxima…

Em Itaquera também, paralela à Jacu Pêssego

Em Itaquera também, paralela à Jacu Pêssego

Diz a Prefeitura que o 8 de dezembro da rua é o Dia da Justiça – data criada em 1951 pelo então presidente Vargas, aludindo a algo que não sei explicar. Além disso, o dia é feriado em dezenas de cidades brasileiras, em homenagem à Nossa Senhora da Conceição. E mais: deve ter sido o dia em que mais cidades paulistas foram fundadas. Olha só: Birigui, Diadema, Dracena, Guararapes, Guarulhos, Indaiatuba, Jandira, Mauá, Mendonça, Rancharia e Votorantim. Parabéns.

Na Vila Borges, uma travessa da Engenheiro Heitor Eiras Garcia (Butantã)

Na Vila Borges, uma travessa da Engenheiro Heitor Eiras Garcia (Butantã)

Essa não podia estar em outro lugar: afinal, desde 1975, graças ao nobre ex-vereador Brasil Vita, todo dia 16 de dezembro é Dia do Butantã. A explicação para que o dia do Butantã fosse este e não o, sei lá, 26 de agosto ou 31 de janeiro, ele ficou devendo no projeto da lei, promulgada no próprio dia 16/12 daquele ano. Parabéns antecipados, Butantã.

É mais uma da "vila calendário" da Cachoeirinha.

É mais uma da “vila calendário” da Cachoeirinha.

A 19 de dezembro é uma das mais curtas – liga a 10 de Maio à 9 de Novembro. E, como todas as outras, não tem explicação. Espero só que não seja o 19 de dezembro de 1941, quando Adolf Hitler se tornou o supremo comandante do império alemão. Pelo menos já sabemos que não é o dia 19 de dezembro de 1995, quando o PSTU foi registrado em definitivo – podia ter sido três dias antes, num 16. Afinal, contra burguês…

Em Santana, entre a Luís Dumont Villares e a Ataliba Leonel.

Em Santana, entre a Luís Dumont Villares e a Ataliba Leonel.

A Prefeitura não sabe explicar a razão do 24 de dezembroque provavelmente se relaciona com o loteador do bairro, já que as duas paralelas de baixo são a 25 de Fevereiro e a 7 de Novembro. E duvido que tenha algo a ver com a festa cristã, do velho e do novo…

Então é Natal

Então é Natal

Além da véspera natalina, também é o dia do Órfão. Você sabia? Agora sabe!

E chegamos à última, ou melhor, às últimas:

Em Heliópolis

Em Heliópolis

As ruas da comunidade de Heliópolis, na zona sul, também foram batizadas pelos moradores (senão imagina o que viria do Banco de Nomes…). Mas eles não explicaram o que aconteceu no dia 29 de dezembro pra ter virado rua. Será que queriam homenagear o dia da fundação do Nepal? Ou a inauguração do metrô de Lisboa? Você jamais saberá, querida.

E chega!

Se eu abandonar o blog por mais um mês (o que não pretendo), feliz ano novo antecipado!

o/

 

Que rua é hoje? – novembro

Nem dá para acreditar, mas o ano entra na sua penúltima fase, os panetones já estão à venda e as tenebrosas decorações de natal já soltas por aí. E, claro, as ruas de novembro (que nem são muitas):

No meio do Jabaquara.

No meio do Jabaquara.

Como todo mundo sabe, não é por outro motivo senão o dia de finados. E a ideia dele cair no dia 2 de novembro, para variar, vem da Igreja Católica. A ICAR, oficialmente, chama o dia de finados de “dia dos fiéis defuntos“. Alguns fieis defuntos famosos deste dia são o cineasta Pasolini, barbaramente assassinado por um michê em 2 de novembro de 1975, mesmo destino que teve o colega holandês Theo Van Gogh em 2004, vitimado por um fanático islâmico.

Uma travessa da Luís Dumont Villares, no Tucuruvi, zona norte.

Uma travessa da Luís Dumont Villares, no Tucuruvi, zona norte.

Já a 7 de novembro “homenageia” a primeira lei que tentava proibir o tráfico de escravos no Brasil, assinada pelo regente Feijó em 7 de novembro de 1831. A verdade é que essa lei era, literalmente, só para inglês ver, já que o nosso Império devia até as calças para os “parceiros” britânicos, que exigiam o fim do tráfico (e da escravidão). O “intercâmbio escravocrata” seria realmente proibido em 1850, com a Eusébio de Queirós, como explica este artigo aqui. Num mesmo dia 7 de novembro, mas de 1910, os irmãos Wright levantaram voo pela primeira vez – e os americanos juram que eles (e só eles) foram os primeiros.

No Jabaquara

No Jabaquara.

Esta aprazível ruinha sem saída alude ao dia do urbanismocomemorado em 8 de novembro. A data foi instituída em 1949 pela então recém-criada ONU, e teria “o objectivo de promover a consciência, a sustentação, a promoção e a integração entre a comunidade e o Urbanismo“, segundo a Wikipedia. Em um 8 de novembro, também, foram descobertos os raios Xpelo físico alemão Wilhelm Roentgen, em 1895. Já num dia 8/11 de 1975, seria lançado o quarto disco do Led Zeppelin. Que bom.

Zona norte.

Travessa da avenida Parada Pinto, na Cachoeirinha, zona norte.

A rua 9 de novembro faz parte de uma certa “vila calendário”, já que suas vizinhas figuraram em quase todos os posts anteriores desta série. E, como todas as outras, não carrega uma explicação do seu batismo, a não ser o fato de ter sido pela lei 6350, promulgada em 18/06/1963. Então, pode ser que a rua homenageie a criação da Brazil Railway Company, em 1917, ou ainda o golpe do 18 Brumário de Napoleão Bonaparte, em 1799. Ou, talvez, o niver da atriz Eva Todor, nascida em 1919.

No centro, claro.

No centro, claro.

É evidente que você sabe que o dia 15 de novembro não é outro senão o dia da Proclamação da República, em 1889, homenagem compartilhada com pelo menos 394 outras ruas do país, segundo este levantamento. É o quadragésimo nome mais comum (o primeiro é “dois”, com 1534 ocorrências). Mas a rua do Centro, famosa pelos bancos, é bem mais antiga que a República. Surgiu ainda na época da fundação da cidade, no século 16, quando servia de ligação entre o Pátio do Colégio e o Largo de São Bento (aliás, ainda serve, rsrrsrsrs). No século seguinte, passou a ser a Rua do Rosário, aludindo à Igreja (cuja última reconstrução foi feita em 1906, no Largo do Paissandu). Na época, também era conhecida como Rua do Manuel Paes Linhares, justamente porque era nela que o bandeirante Manuel Paes Linhares morava, ora pois. No século 19, passou a ser a Rua da Imperatriz, que, como o Império, foi enxotada com a República. Como boa cidade, a então Santo Amaro também tinha sua XV de novembro. E ela, assim como tantas outras, ganhou um nominho pra lá de chinfrim no final da década de 70, com o advento do Banco de Nomes, passando a homenagear uma escola literária, veja só. É a…

Pois é.

Pois é.

Dias depois…

Na quebrada do Conjunto da Paz, no Itaim Paulista (ZL).

Na quebrada do Conjunto da Paz, no Itaim Paulista (ZL).

Como é feriado, você sabe que o 20 de novembro é o dia da consciência negra, em memória à morte do famoso Zumbi dos Palmares, em 1695. Não tem erro. Aliás, a própria consciência também tem rua:

No outro extremo, no Capão Redondo, ZS.

No outro extremo, no Capão Redondo, ZS.

Calma, ainda tem mais… mas depois atualizo 🙂