Ruas amorosas

Hoje é dia dos namorados! Já tem quem esquente sua orelha à noite, nesse friozinho? Espero que sim! E, para comemorar o dia, nada melhor que um roteiro romântico pela cidade, com o oferecimento do Banco de Nomes™ 🙂

Desde 2003

Desde 2003

Um segredo sobre os vereadores: se eles não gostam muito de denominar ruas das quebradas, deixando a tarefa para o Banco de Nomes, eles simplesmente não se aguentam quando veem um “espaço verde inominado”. Daí, qualquer bosque, rotatória, ilha central de avenida vira praça – embora às vezes não haja sequer um banquinho para sentar. E vem bem a ser o caso da Praça dos Namorados, que foi batizada pelo então vereador Jooji Hato em 2003, com essa justificativa: “a denominação foi solicitada pelos moradores locais através de abaixo-assinado e expressa uma característica da praça, frequentada por namorados”. Eu só queria saber onde que os casais ficam…

Só achei esse "casal" no Street View... e eles trouxeram as cadeiras de fora

Só achei esse “casal” no Street View… e eles trouxeram as cadeiras de fora

Pois é: a pracinha, na Saúde, na confluência da rua Guararema com a travessa Ângelo Pecin não tem nem um banquinho para namorar… resta sentar no morrinho, bem no estilo FFLCH.

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Môoooor!!!!!!!!!!!!!!!! Môooorrrrrrr!!!!!!!!!

mozão fica satisfeito quando dá um passeio na “Via de Pedrestre Amor“, travessa da rua Francisco Peixoto Bizerra, no Jardim Brasil (ZN). Mas engana-se quem pensa que o Amor é aquele nobre sentimento. A Prefeitura explica que é “personagem da mitologia Grega, um dos mais poderosos mortais, era filho de Vênus” – ninguém mais, ninguém menos que o outro nome do Cupido, aquele que é bem…

No Jardim da Conquista, onde mais?

No Jardim da Conquista, onde mais?

Nem precisa de muita explicação, não é? É a música mesmo.

No <3 da Vila Sônia

No ❤ da Vila Sônia

Na Vila Sônia, entre as ruas Francisco Marson Karlina Reiman Wandabeg, está a Praça dos Amores – nome que a Prefeitura não sabe explicar, mas que batiza uma pracinha bem aproveitável (quando a grama está bem cortada):

Dá até para ganhar umas lambidas

Dá até para ganhar umas lambidas

Na Vila Santa Catarina, uma linda rotatória entre as ruas Contos Gauchescos Latif Fakhouri tem o nome oficial de Rosa do Amor. Pelos Contos, que é um livro tri-clássico da literatura gaúcha, você já imagina que Rosa tem algo com literatura, não é? Sim: é um livro de poemas, escrito em 1902 por Vicente de Carvalho (que hoje é nome de praia em Santos).

Tudo que move é sagrado

E remove as montanhas

Com todo o cuidado, meu amor…

by Beto Guedes, 1978

by Beto Guedes, 1978

Aqui não se trata de Banco de Nomes: assim como os vizinhos do Jardim da Conquista, os moradores da Amor de Índio, no Conjunto Residencial José Bonifácio, na ZL, deliberadamente escolheram batizar as ruas com nomes de músicas da MPB – como as suas paralelas Casa No Campo Águas de Março.

Na ZL

Na ZL

Por sua vez, o tema do Jardim Popular, próximo à avenida São Miguel, na ZL, são as flores. Que coisa linda, não é? Evidentemente que em algum momento chegaria a vez do Amor-perfeito:

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No Aricanduva, ZL

Cantiga de Amor, se você lembra das aulas de Literatura do colégio, é um gênero do Trovadorismo. Mas esta aqui não: é um trecho dos Motetos Profanos do compositor alemão (naturalizado brasileiro) Bruno Kiefer, baseado num texto medieval.

Ninguém mora na rua Cravo de Amor :(

Ninguém mora na rua Cravo de Amor 😦

Por que ninguém mora na Cravo de Amor, em São Miguel (ZL)? Porque nada mais é que uma passagem, com menos de 50 metros de extensão… tem muro dos dois lados, ligando a José Dias Miranda à Osvaldo Santini. E o Cravo, o que é? Você já deve imaginar, não?

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“Gypsophila paniculata. Planta perene, de caule ramificado que atinge 1 metro de altura, folhas lanceoladas e pequenas flores brancas. Espécie ornamental. É originária da Ásia e bem aclimatada no Brasil. (Família das cariofiláceas)”

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Sinônimos: Dois Irmãos, Picão e Sapatinho-dos-Jardins. É da família das Euforbiáceas – diz a Prefeitura

Essa travessinha da Sadamu Inoue, em Parelheiros, tem nome de planta também – daquela bem comum e que gruda na roupa. Mas, pensando bem, os moradores da Dois Amores deram foi sorte: imagine se o nome da rua fosse Picão ou Sapatinho dos Jardins?

Você já conhece

Você já conhece

Se você me acompanha faz algum tempo, já conhece a Rua dos Ventos do Amor – que fica no mimoso Jardim Oriental, em Parelheiros – onde todas as ruas têm nomes estranhos. A principal rua, por onde se chega ao bairro, é a dos Ventos, nome de uma composição do Itinerário Amoroso e Idílico de um certo José de Almeida Prado, composta em 1976. Caso queira conhecer a rua, pode marcar um evento na Chácara das Flores, que fica lá.

Não é música

Não é música

Pois é: Duetos de Amor, uma ruinha sem saída no Jardim Selma, dentro do Jd. São Luís, não é uma música, e sim um poema, de Alphonsus de Guimaraens, de onde vem esse lindo verso:

A minha face é uma caveira

Que tu não podes lisonjiar

Que aroma

Que aroma

Nada de novo no front: São Miguel, ZL, nessa altura, só pode ser planta. Ou melhor: “designação comum a algumas plantas rústicas da família das hidrofiláceas, originárias da Califórnia e cultivadas no Brasil.”. A criatividade passou longe: suas paralelas são a Flor da Paixão e a Flor de Noiva – e é travessa da Flor de Baile. 

"O nome desta rua foi solicitado pela Associação de Moradores do Jardim Celeste II."

“O nome desta rua foi solicitado pela Associação de Moradores do Jardim Celeste II.”

Essa ruinha, que, como a descrição diz, fica no Jardim Celeste, travessa da rua Nossa Senhora da Moradia, no Cursino (ZS), ganhou o nome em 2003. Pois bem: pela data, e pela ausência de outras explicações, tudo indica que se trata da cidade ficcional na qual a novela ‘O Beijo do Vampiro’ se passava – exibida justamente entre 2002 e 2003. Se ainda fosse uma novela melhorzinha… se eu contar para essa moça aqui, é capaz dela querer se mudar para a Maramores.

Que lindo

Que lindo

A rua Primaveras do Amor, no meio do Parque Arariba, no Capão Redondo (ZS) tem o nome de um “Livro de poesia de Ibrantina de Oliveira Cardona. Nascida em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, em 1868. ” E quem é essa senhora? É Ibrantina Froidevaux de Oliveira Cardona, autora de pérolas como Plectros Heptacórdio – e que é nome de uma escola em Holambra, no interior do estado. Ou seja: ninguém.

O Parque do Carmo, na ZL, é tão grande que ainda tem uns bairrinhos escondidos nas suas bordas e nas roça dos japoneses que ainda plantam pêssegos por ali. Na Gleba do Pêssego, há uma área bem literária, onde a principal rua é a Cinza das Horas (do Manuel Bandeira). Uma de suas minitravessas é a…

Não é poema

Não é poema

… que é o nome de uma “obra musical para conjunto de 3 vozes iguais, sobre textos de diversos autores, música do renomado compositor paulista Osvaldo Lacerda”que morreu não faz muito tempo, em 2011, que, dizem, era um dos melhores professores de música erudita do mundo, com material didático usado até hoje.

Na Cidade Tiradentes, ZL

Na Cidade Tiradentes, ZL

Lá na quebrada da Cidade Tiradentes, no Conjunto Habitacional Inácio Monteiro, fica a Semente do Amor…

Não, isso não é a semente do amor

… que não é a “sementinha” que seu papai colocou na mamãe para você nascer, tá? E sim uma obscura composição de uma obscura compositora, Najla Jabor – que não era parente do Arnaldo – e que, para variar, teve seu nome “editado” pela prefeitura para virar nome de rua: na verdade, a composição se chama “A semente é dor amor“. 

Sabe por que eu sei onde é a Seresta do Amor? Porque eu estava lá!

Sabe por que eu sei onde é a Seresta do Amor? Porque eu estava lá!

O nome dessa rua da Chácara Santo Amaro, no extremo sul, é tão singelo, não é? Mas a música que a intitula talvez não seja tão romântica assim – já que é composta por esse cidadão:

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… que, como o nome diz, foi o pioneiro da música eletrônica no Brasil. Mas não pense que você vai ouvir Jorge Antunes na balada: sua pegada é mais no estilo Kraftwerk (e que não deve ser ouvida à noite, pois é trilha sonora de pesadelos). É dele também a Valsa Sideral – mais uma rua do meu querido Jardim Oriental – e paralela da…

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Valsa Amorosa que consiste apenas nessa curvinha, saindo dos Ventos do Amor, que logo a transformam em Valsa Lenta – e que é (pra variar) o nome de uma outra composição musical – agora, de Souza Lima.

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Na ZL

E se eu te telefonar
Se mandar te buscar
Der o braço a torcer
Sei que irias ganhar
E eu não iria perder
Da outra vez eu sofri
Te magoei, me feri
Foi difícil aprender

Dica: a Verbos do Amor fica no Conjunto Habitacional José Bonifácio – então é da MPB – mais precisamente, do João Donato e do Abel Silva. E você já deve ter ouvido, pois toca até hoje na rádio, na voz da Gal Costa, gravada em 1982:

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De João Donato, vamos para Sullivan e Massadas: as máquinas de compor música dos anos 80. Fizeram toneladas delas, para Xuxa, Faustão e Tim Maia, dentre outros milhares de artistas. São músicas como…

Jardim da Conquista, claro

Jardim da Conquista, claro

Vida minha, vida minha
Meu amor cigano
Como posso me enganar
Fingir que não te amo
Vida minha, vida minha
Não me deixe agora
Logo quando eu mais
Preciso de você
Diz pra mim que não deixou de me querer

que você provavelmente já ouviu na voz de Fafá de Belém. Algumas quadras adiante, você fica:

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… que é um clássico do brega, conhecido na voze de Lindomar Castilho, inclusive com versão em espanhol

Reconheço não mereço seu carinho,
Mas de si não guardo ódio nem rancor,
O que eu sinto é vê-la sem felicidade,
E você só quer me ver ébrio de amor…

 

Isso em 2011

Isso em 2011

Já na Vila Império, no meio da Cidade Ademar, há a Travessa Fonte do Amor, que só existe no mapa – e que, em 2011, aparentemente estava para desabar. Tudo bem: é só mais um poema do Cruzzzzzzz…. e Sousa.

Por isso eu te amo querida,
Quer no prazer, quer na dor…
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor.

A travessa Gondoleiro do Amor, poema de Castro Alves de onde vem a estrofe acima, é primeira de todo esse post a não ficar na periferia: trata-se do nome oficial de uma aprazível vilinha, travessa da rua Venâncio Aires, na Pompeia – mas acho que nem os moradores sabem disso, pois devem dar a Venâncio como endereço, só marcando o número da casa.

Entre uma loja de cadeiras e outra de congelados

Entre uma loja de cadeiras e outra de congelados

“Grande amor, grande amor, grande mistério
Que as nossas almas trêmulas enlaça…
Céu que nos beija, céu que nos abraça
Num abismo de luz profundo e sério.”

É do Cruz e Sousa

É do Cruz e Sousa

Pelo romance que transborda da estrofe, já deu para notar que é mais um poema do Cruz e Sousa, que fica no Campo Limpo, margeando a área do condomínio Morumbi Sul, e que é travessa da rua Lira Cearense (também literária, como se pode notar). O curioso é que enquanto “ruas” como a Cravo-do-Amor não têm nem 30 metros, a travessa Grande Amor até que é grande…

E eis que voltamos ao Conquest Garden:

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Nada mais é que a versão brasileira do Hymne à l’Amourda Edith Piaf – feita pela nossa lendária (e caótica) Maysa.

Para mostrar como nosso Jardim da Conquista é musicalmente florido, a paralela da Hino ao Amor é sertaneja:

Essa é a história de um amor
Que aumentou o meu sofrer
e me fez compreender
/Todo o mal de querer
Tu me deste luz e vida
destruindo-me depois, oh que vida amargurada
Vivo só sem teu calor…

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… você já lembrou, né? É do Leandro e Leonardo.

Mas a música não tem esse nome

Mas a música não tem esse nome

Procurando, você acha músicas gospel com esse nome, ou ainda uma antiga novela da Globo. Mas, segundo a prefeitura, o nome vem da música Terceiro Amor – do Francis Hime… que começa falando de “primeiro amor”.

O primeiro amor já passou
O segundo amor já passou
Como passam os afluentes
Como passam as correntes

Ainda na Conquista, temos a…

Direto da Jovem Guarda

Direto da Jovem Guarda

Passeando em um jardim eu te encontrei meu bem
Foi tão grande a emoção que minha voz perdi
E com certa timidez de mim se aproximou
Para ir a uma festa você me convidou

Será que o jardim ao qual a cantora Diana, da Jovem Guarda, se referia era o da Conquista? D E S C U B R A.

No Ipiranga

No Ipiranga

Essa travessinha da rua Bamboré, no Ipiranga, é daquelas vilinhas com cara de cidade do interior – e o nome vem do mesmo livro Versiprosa, do Drummond, de onde vieram o Desfile e a  Musa de Outubro do último post. E como a Musa eram as eleições, o Velho Amor do Drummond não era nenhuma musa, mas a arte do seu amigo Rodrigo Andrade, diretor do Departamento Histórico na época…

Mestre Rodrigo, o da DPHAN,que me perdoe se neste cantohoje canto a gentil balzacade seus encantos e quebrantos,aquela que, noite após noite,e dia após dia, inclusiveos domingos – outrora livres,os feriados – antes gozados.

…e que, ao menos no mapa, é nome de uma praça na Brasilândia.

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E fechamos com o nosso Jardim da Conquista, com mais uma surpresinha: Veneza do Amor – uma maravilha do lado B da Perla – a paraguaia! Ali perto, só lembrando, também tem a Galopeeeeeeeeeeeeeeeeeeeira:

galopeiraPronto: agora já deu. Feliz dia dos namorados!

 

 

 

 

 

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Que ruas estranhas são essas, afinal?

Olá! Talvez você tenha chegado aqui a partir da notinha de hoje (22/05) no Divirta-se do Estadão, não é?

Charanga do circo é uma peça musical do maestro Yves Schimidt, que ainda vive. A placa é um pouco diferente porque a Charanga fica exatamente no limite com Osasco.

Charanga do circo é uma peça musical do maestro Yves Schmidt, ainda vivo e que você pode conhecer aqui. A placa é um pouco diferente porque a Charanga fica exatamente no limite com Osasco, e segue o padrão de lá.

E, no mínimo, deve achar que eu inventei coisas absurdas para impressionar o Edison Veiga, que me entrevistou, não é mesmo? Antes fosse… se der uma olhadinha, de leve, nos posts mais antigos, vai dar para ter uma ideia disso.

Do mesmo autor de Borboletas Psicodélicas, mais um grande sucesso

Do mesmo autor de Borboletas Psicodélicas, mais um grande sucesso, que você ouve aqui. É uma travessa da avenida Sapopemba ainda na altura do jardim Anália Franco – ou seja, bem no começo dela.

No último post, que escrevi em 2012 e “reprisei” nesta semana, você já conheceu um pouquinho sobre o nosso eterno Henrique de Curitiba, tão querido pelo Banco de Nomes da Prefeitura.

Que banco de nomes é esse, afinal?

Onde será que vendem chácaras no Itaim Bibi? Tem alguma coisa errada...

Onde será que vendem chácaras no Itaim Bibi? Tem alguma coisa errada… Ouça aqui, enquanto descobre que a rua está nos confins de Parelheiros.

Para você que chegou agora, o Banco de Nomes é uma maravilhosa máquina aleatória de batismo de ruas criada pela Prefeitura paulistana no final da década de 1970. O objetivo do então prefeito Olavo Setúbal era nobre: havia milhares de ruas com nomes manjados e super-repetidos (“Dom Pedro”, “7 de setembro”, “São Paulo”, “A”, “1”, “2”…) e outras, simplesmente, sem nome algum. Ainda que os vereadores adorem dar nomes de pessoas para as ruas, nem o mais criativo daria conta de tantas ruas, não é?

Para resolver esse problema, ficou a cargo do então professor da FAU-USP Benedito Lima de Toledo organizar uma equipe de pesquisadores que vasculhou enciclopédias, dicionários e tudo mais que havia pela frente, para criar o tal Banco de Nomes. Só que a impressão que dá é que… bem… eles simplesmente juntaram nomes, sem nenhum critério. O segredo é esse: as ruas de São Paulo não seguem NENHUM CRITÉRIO de batismo (ainda que a ideia original do arquiteto fosse a de criar “manchas urbanas” com algum tema). Foi bom para mim, que pude criar esse blog quase 40 anos depois. E para a maioria das pessoas, também. Afinal, não tem nada de mais morar na…

ou na…

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Domingos Dantas foi um pedreiro que viveu na Minas Colonial no século XVIII, segundo a prefeitura. A rua fica no Jd. d’Abril, zona oeste.

 

ou ainda na…

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Daniel Cerri: militar argentino, nasceu em 1841 e faleceu em 1914; lutou na Guerra do Paraguai e foi o primeiro governador dos Andes; Francisco Margal :político e escritor catalão, autor de “Recuerdos” e “Belezas de España”.Período 1.813 à 1.824.; As ruas ficam na Brasilândia;

ou…

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O Gustavo Paiva da rua não é uma pessoa, mas sim uma estação de trem, em Alagoas! A rua está no Campo Limpo (ZO).

ou ainda, simplesmente, pessoas que morreram de alguma forma.

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Vladimir Sinkus trabalhava na Miller Conway & Cia Ltda (comissária de despachos) como auxiliar de escritório, brasileiro natural de São Paulo, com 17 anos de idade, estudante. Morreu por afogamento como laudo do I. M. L. , em Guarulhos no dia 24 de outubro de 1982. A rua fica em São Miguel, ZL.

A Prefeitura é tão doida que homenageou pessoas historicamente ligadas a um certo lugar da cidade… em outro, bem longe. É o caso dele:

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Pedro Vitor Massote era um líder comunitário da Vila Maria, na zona norte, e foi parar no Parque dos Príncipes, quase em Osasco.

São, afinal, nomes de pessoas e lugares quaisquer, ainda que pela descrição você possa notar que têm algo em comum. Afinal, que importância para a memória paulistana tem um político argentino (!) de 200 anos atrás, um pedreiro da época da Xica da Silva, do qual só se sabe o nome ou algo que nem nome de pessoa é, embora dê a entender que seja? Você deve ter a mesma opinião que eu: nenhuma. 

Não saberia de nada disso sem a ajuda do Dicionário de Ruas da Prefeitura, que digitalizou as fichinhas do Banco de Nomes e “entregou” a fonte. Nesses casos como os acima, são, simplesmente, listagens aleatórias de nomes que eles foram jogando a esmo sobre os mapas. Seria como se, daqui a alguns séculos, alguém pegasse uma lista de aprovados no vestibular, por exemplo, e desse como resolvido o batismo das vias de algum novo loteamento.

Só que eles não fazem os moradores passar vergonha ao dar o endereço…

Isso já não acontece quando você foi “sorteado” para viver nas ruas em que a Prefeitura resolveu usar alguma das outras categorias do Banco de Nomes, que fazem nossa alegria. Eles não deixaram quase nada de fora, já que usaram todos os critérios possíveis:

– dicionário de línguas indígenas: Falei isso na matéria, e foi um dos poucos lugares onde a ideia de “manchas urbanas temáticas” vingou: a esmagadora maioria está na Penha, abordando a anatomia tupi:

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Não seja sarambé (esquecido): opiá é fígado; piquinhú, joelhoe puquixá, unha !

– músicas e instrumentos: a preferência inicial foram as obras eruditas, para dar aquele toque de classe à malha viária. A preferência, claro, foi para as obras mais obscuras. Alguns compositores – que você provavelmente não conhece – são campeões: o seu já conhecido Henrique de Curitiba, Yves Schimidt (da Serenata à Brasileira que citei acima) e a capixaba Lycia Bidart, com mais de 20 vias – falei dela aqui. Alguns nomes, vamos combinar, são bonitos:

É uma peça para piano do padre paranaense José Penalva, composta em 1955. Se você estiver à toa e puxar a lista de músicas dele aqui, vai achar pelo menos 10 delas no mapa. Esta rua está no Sítio Conceição, um conjunto habitacional de Guaianazes (ZL)

É uma peça para piano do padre paranaense José Penalva, composta em 1955. Se você estiver à toa e puxar a lista de músicas dele aqui, vai achar pelo menos 10 delas no mapa. Esta rua está no Sítio Conceição, um conjunto habitacional de Guaianazes (ZL)

mas outros, nem tanto…

Não são três lotes vazios que ficam nessa rua de terra no Jardim Oriental, em Parelheiros, mas "três espaços para viola e piano", do maestro Claudio Santoro, composta em 1966: espaços delimitados, espaços interpostos e espaços infinitos. Os Infinitos têm até sua rua própria, no outro extremo da cidade, lá no Itaim Paulista (por onde o street view não passou)

Não são três lotes vazios que ficam nessa rua de terra no Jardim Oriental, em Parelheiros, mas “três espaços para viola e piano”, do maestro Claudio Santoro, composta em 1966: espaços delimitados, espaços interpostos e espaços infinitos. Os Infinitos têm até sua rua própria, no outro extremo da cidade, lá no Itaim Paulista (por onde o street view não passou

e de quem será que foi a ideia de usar os instrumentos, hein?

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No M’Boi Mirim, mais precisamente no Jardim Santa Zélia.

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No mesmo bairro, a rua do Pirofone, um tipo de órgão tocado com FOGO! Todas as ruas do Jardim Santa Zélia têm esses nomes estranhos e musicais

Calma que a gente ainda nem começou direito. Mais para o final dos anos 1980, graças aos moradores de um único bairro, o Jardim da Conquista, na ZL,  já abordado no blog. A Prefeitura deu a eles o direito de escolher o nome de suas ruas – e, simplesmente, eles passaram na loja de discos mais próxima. E o que sobrou das sugestões, a Prefeitura foi espalhando pelos outros bairros. Tem sertanejo…

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Quando eu digo que deixei de te amar / É porque eu te amo / Quando eu digo que não quero mais você / É porque eu te quero… o clássico de Chitãozinho e Xororó fica no Jardim da Conquista.

 

Raul Seixas, então, é o rei das ruas paulistanas. Essas duas são apenas parte de uma longa série:

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Essa rua tem o início, o fim e o meio… 

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Tanto a Gita quanto a Novo Aeon ficam no conjunto Águia de Haia, perto da avenida de mesmo nome em Itaquera.

E ainda sobra para Rita Lee:

"O ano inteiro eu passei sem dinheiro, eu sei, e foi um corre-corre danado..." é do disco Mania de Você, de 1979. Fica também em Itaquera.

“O ano inteiro eu passei sem dinheiro, eu sei, e foi um corre-corre danado…” é do disco Mania de Você, de 1979. Fica também em Itaquera.

Ou ainda Chico Buarque:

 

… sem falar nos artistas mais regionais, como Elomar e Xangai:

literatura também marca presença. Dos clássicos:

O Homem de La Mancha fica no Jardim São Jorge, no Butantã.

O Homem de La Mancha fica no Jardim São Jorge, no Butantã.

… até outros nomes de livros e poemas que precisam de alguma explicação:

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Na Vila Alabama (!), um bairro do Itaim Paulista (ZL). É um poema de Carlos Drummond de Andrade, acreditem

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No Capão Redondo, de tudo ao meu amor serei atento, e sempre, e tanto, imortal posto que é chama mas que seja infinito enquanto dure

 

Esses são bonitinhos. Mas imagina o que é morar aqui:

sextilhasdefreiantao

É um poema do Gonçalves Dias (o mesmo da Canção do Exílio). Fica na Vila Gustavo (ZN)

ou ainda:

dobucolismo

Um “clássico” do Brás. Tem quem diga que foi uma homenagem ao “bucolismo” do bairro, mas não é. A rua tinha outro nome, e ganhou o do estilo literário porque o antigo era repetido.

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É um livro de poemas, de Augusto Frederico Schmidt. Se quiser, pode comprar uma edicão autografada aqui. A ruinha está lá no meio da Cidade Ademar.

cinema e as outras artes também marcam presença. Seja homenageando artistas obscuros (a maioria do tempo do cinema mudo):

Erik Satie (Honfleur, 17 de Maio de 1866 — Paris, 1 de Julho de 1925) foi um compositor e pianista francês.1 Relevante no cenário de vanguarda parisiense do começo do século XX, foi o precursor de movimentos artísticos como minimalismo, música repetitiva e teatro do absurdo.

Erik Satie (Honfleur, 17 de Maio de 1866 — Paris, 1 de Julho de 1925) foi um compositor e pianista francês.1 Relevante no cenário de vanguarda parisiense do começo do século XX, foi o precursor de movimentos artísticos como minimalismo, música repetitiva e teatro do absurdo. A rua está no Capão Redondo.

ou filmes:

Não é uma rua que é muito rigorosa, muito severa… é o primeiro filme falado de Portugal! Você sabia ?!?!?!?

Não é uma rua que é muito rigorosa, muito severa… é o primeiro filme falado de Portugal! Você sabia ?!?!?!?

Saindo das “artes”, a bizarrice só piora. Por exemplo, elementos químicos:

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Na Cidade Tiradentes. Só não dá para abreviar o nome da rua…

francio

Em São Rafael, na ZL também.

 

… e os reinos! Do mineral…

quartzo

No Tremembé, perto da av. Parada Pinto

ao vegetal…

alpiste

Na Cidade Líder, ZL

e o animal…

ROLACABOCLA

Não é o nome de nenhum filme pornô, não… é só uma das aves mais comuns do mundo. Fica no Iguatemi, ZL.

São apenas ALGUMAS das categorias. O resto você pode ir vendo no arquivo, enquanto apronto mais coisas. Bem-vindos!

 

 

Que de-Lycia!

Uma tarde agradável de inverno pede um pouco de música. Mas claro que, se depender do Banco de Nomes, sempre serão clássicos da lavra de algum artista  caviar: nunca vi, nem ouvi e só (aqui) ouço falarDe um deles, o Henrique “de Curitiba” Morozowiczjá falamos lá atrás. Porém, tem uma outra que deixa o Henricão no chinelo. Essa senhora aqui:

Lycia de Biase Bidart

Lycia de Biase Bidart (1910-1990)

Dona Lycia, que morreu em 1990, foi uma das primeiras mulheres a reger orquestras no Brasil. E, como de costume, não era conhecida nem no seu estado de origem, o Espírito Santo – mas sim lá fora, tanto que só tem verbete na Wikipedia gringa. Pouco antes de morrer, ela doou todas as suas partituras para a biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da USP (a ECA), que disponibiliza essa listinha em seu site. Pois bem: essa relação das obras é quase um guia de ruas. Nada menos do que VINTE E SEIS delas nomeiam logradouros paulistanos. Sabe por que eu sei? Porque eu estava lá:

ZzZzZzZzZzZ... uma peça para flauta de 1976, no Aricanduva

ZzZzZzZzZzZ… uma peça para flauta de 1976, no Aricanduva

Uma peça para piano

Uma peça para piano, parte do Estudo Expressionista

Nessa aí de cima o dilema é saber em que município se está, já que fica numa quebrada nervosa na fronteira do Capão Redondo com Embu das Artes.

Você não está vendo, mas tem um cavalinho branco nessa foto

Você não está vendo, mas tem um cavalinho branco nessa foto

Pois bem: Cavalinho Branco é o nome dessa travessa da avenida Marechal Tito, no Itaim Paulista – na verdade, um poema de Cecília Meireles musicado pela Lycia.

Não duvido que achem que essa pinguela é uma homenagem a uma moça chamada BruNa

Não duvido que achem que essa pinguela é uma homenagem a uma moça chamada BruNa

Mas não: essa passagenzinha no Parque Edu Chaves (zona norte) é a Música da Bruma, um estudo delycioso sobre a obra de Claude Debussy.

Pequenas ruas, grandes momentos

Pequenas ruas, grandes momentos

Sabe aquelas vilinhas de casas que você ainda vê nas partes mais antigas da cidade? Onde tem portão na entrada, porteiro, etc? Pois bem: a maioria tem nomes, ainda que às vezes nem os moradores os usem, já que a entrada da vila é sempre na outra rua. No caso, a Afonso Celso, na Vila Mariana, que abriga a vila, ou melhor, a pequena travessa do Grande Momento, que de dia também serve de estacionamento para as firma da região.

Mar, que mar?

Mar, que mar?

Todos os limites de São Paulo com os Embus são marcados por obras de Lycia. Essa aqui fica no Jardim Oriental, em Parelheiros, do qual já falei por aqui, do ladinho de Embu-Guaçu. Aliás, nem os moradores do bairro (que nem calçamento tem) sabem bem se estão em São Paulo ou em Embu-Guaçu. Lá ainda tem outra peça rara delyciosa:

O nome combina bem com o matagal que é o bairro

O nome combina bem com o matagal que é o bairro.

Parece que uns meses atrás o Alckmin andou desapropriando a rua inteira para a Sabesp usar. Veremos. A Ventos e Ramagens também é um lugar propício para ser cativeiro de sequestro. Lá também mora a Caroline Silva dos Santos, que sonha que o Gugu refome seu barraco

Até que faz algum jus ao nome

Até que faz algum jus ao nome

A Prefeitura ainda inventa um nome inteiro só para encaixar a obra. Na verdade, se chama apenas “Duas Flores”. Vai ver o “canto” se refere mesmo ao tamanho da travessa…

Aê irmão, na quebrada nóis num tem tempo pra pensá nesses rolê aí não

“Aê irmão, na quebrada nóis num tem tempo pra pensá nesses rolê aí não”

Pois é, no Conjunto Habitacional Sítio Conceição, mais um extremo/quebrada da cidade (na ZL, quase em Ferraz de Vasconcelos) e mais uma peça da nossa compositora homenageada. 

Chega por hoje!