Que rua é hoje? – novembro

Nem dá para acreditar, mas o ano entra na sua penúltima fase, os panetones já estão à venda e as tenebrosas decorações de natal já soltas por aí. E, claro, as ruas de novembro (que nem são muitas):

No meio do Jabaquara.

No meio do Jabaquara.

Como todo mundo sabe, não é por outro motivo senão o dia de finados. E a ideia dele cair no dia 2 de novembro, para variar, vem da Igreja Católica. A ICAR, oficialmente, chama o dia de finados de “dia dos fiéis defuntos“. Alguns fieis defuntos famosos deste dia são o cineasta Pasolini, barbaramente assassinado por um michê em 2 de novembro de 1975, mesmo destino que teve o colega holandês Theo Van Gogh em 2004, vitimado por um fanático islâmico.

Uma travessa da Luís Dumont Villares, no Tucuruvi, zona norte.

Uma travessa da Luís Dumont Villares, no Tucuruvi, zona norte.

Já a 7 de novembro “homenageia” a primeira lei que tentava proibir o tráfico de escravos no Brasil, assinada pelo regente Feijó em 7 de novembro de 1831. A verdade é que essa lei era, literalmente, só para inglês ver, já que o nosso Império devia até as calças para os “parceiros” britânicos, que exigiam o fim do tráfico (e da escravidão). O “intercâmbio escravocrata” seria realmente proibido em 1850, com a Eusébio de Queirós, como explica este artigo aqui. Num mesmo dia 7 de novembro, mas de 1910, os irmãos Wright levantaram voo pela primeira vez – e os americanos juram que eles (e só eles) foram os primeiros.

No Jabaquara

No Jabaquara.

Esta aprazível ruinha sem saída alude ao dia do urbanismocomemorado em 8 de novembro. A data foi instituída em 1949 pela então recém-criada ONU, e teria “o objectivo de promover a consciência, a sustentação, a promoção e a integração entre a comunidade e o Urbanismo“, segundo a Wikipedia. Em um 8 de novembro, também, foram descobertos os raios Xpelo físico alemão Wilhelm Roentgen, em 1895. Já num dia 8/11 de 1975, seria lançado o quarto disco do Led Zeppelin. Que bom.

Zona norte.

Travessa da avenida Parada Pinto, na Cachoeirinha, zona norte.

A rua 9 de novembro faz parte de uma certa “vila calendário”, já que suas vizinhas figuraram em quase todos os posts anteriores desta série. E, como todas as outras, não carrega uma explicação do seu batismo, a não ser o fato de ter sido pela lei 6350, promulgada em 18/06/1963. Então, pode ser que a rua homenageie a criação da Brazil Railway Company, em 1917, ou ainda o golpe do 18 Brumário de Napoleão Bonaparte, em 1799. Ou, talvez, o niver da atriz Eva Todor, nascida em 1919.

No centro, claro.

No centro, claro.

É evidente que você sabe que o dia 15 de novembro não é outro senão o dia da Proclamação da República, em 1889, homenagem compartilhada com pelo menos 394 outras ruas do país, segundo este levantamento. É o quadragésimo nome mais comum (o primeiro é “dois”, com 1534 ocorrências). Mas a rua do Centro, famosa pelos bancos, é bem mais antiga que a República. Surgiu ainda na época da fundação da cidade, no século 16, quando servia de ligação entre o Pátio do Colégio e o Largo de São Bento (aliás, ainda serve, rsrrsrsrs). No século seguinte, passou a ser a Rua do Rosário, aludindo à Igreja (cuja última reconstrução foi feita em 1906, no Largo do Paissandu). Na época, também era conhecida como Rua do Manuel Paes Linhares, justamente porque era nela que o bandeirante Manuel Paes Linhares morava, ora pois. No século 19, passou a ser a Rua da Imperatriz, que, como o Império, foi enxotada com a República. Como boa cidade, a então Santo Amaro também tinha sua XV de novembro. E ela, assim como tantas outras, ganhou um nominho pra lá de chinfrim no final da década de 70, com o advento do Banco de Nomes, passando a homenagear uma escola literária, veja só. É a…

Pois é.

Pois é.

Dias depois…

Na quebrada do Conjunto da Paz, no Itaim Paulista (ZL).

Na quebrada do Conjunto da Paz, no Itaim Paulista (ZL).

Como é feriado, você sabe que o 20 de novembro é o dia da consciência negra, em memória à morte do famoso Zumbi dos Palmares, em 1695. Não tem erro. Aliás, a própria consciência também tem rua:

No outro extremo, no Capão Redondo, ZS.

No outro extremo, no Capão Redondo, ZS.

Calma, ainda tem mais… mas depois atualizo 🙂

Anúncios

Que rua é hoje? – julho

Bem-vindo a julho, um dos meses mais prolíficos em ruas paulistanas. Vai vendo:

É comemorado também o Dia do Bombeiro.

“É comemorado também o Dia do Bombeiro.”

Se você é esperto, só de saber que a rua 2 de julho está no Ipiranga deve imaginar que tem algo a ver com a independência do Brasil. Afinal, foi lá que o grito foi dado e que de suas margens plácidas o brado retumbante tocou. Pois bem: quase um ano depois do fatídico 7 de setembro de 1822, ainda tinha uma tropa militar lusitana, anti-independência, aportada em Salvador. Pois é: tinha, pois foram expulsos pelo Visconde de Pirajá (cuja rua carioca o fez virar nome de bar paulistano) e o general Labatut (que fica bem próxima à 2 de julho no Ipiranga).

Nascida em quatro de julho

Nascida em quatro de julho

Falando em independência, já vimos tantos filmes falando do 4 de julho americano que não seria nem tão estranho imaginar que a rua de fato homenageasse o Independence Day:

Day

Ô filme ruim

Mas não. Essa ruinha de uma quebrada de Itaquera, na ZL, tem esse nome por uma razão muito mais singela, segundo a Prefeitura: “4 de julho é a data do início do mutirão para colocação e guias na Rua.”. Quer dizer, a rua é nascida em 4 de julho, portanto.

Pela mitologia celta, 5 de julho é o dia de Angus Mac Og, deus da juventude e da beleza

Pela mitologia celta, 5 de julho é o dia de Angus Mac Og, deus da juventude e da beleza

Na Vila Nair, bairro do Ipiranga entre as avenidas Nazaré e Tancredo Neves, fica a 5 de julho. A Prefeitura não sabe explicar sua origem. Como o bairro é mais antigo que o Banco de Nomes e a região gosta de uma raiz histórica para batizar as vias, meu chute é o dia da Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, no dia 5 de julho de 1922, uma das primeiras revoltas militares contra a República Velha.  Dois anos depois, no mesmo 5 de julho, começava a Coluna Prestes. 

Conhece essa?

Conhece essa?

Assim como a 23 de maio que você já viu aqui, esta artéria paulistana relembra a ~Revolução constitucionalista de 1932~, iniciada justamente no dia 9 de julho daquele ano. Os jovens paulistanos de classe média alta não gostaram dos resultados da Revolução de 1930que acabou com a República Velha, e queriam desfazê-la na marra. Primeiro a turma saiu do Facebook e #foi para a rua no dia 23 de maio. Daí, no 9 de julho, os militares entraram no meio e o kissuco ferveu de vez. As tropas paulistas, ajudadas por uns perdidos de outros estados, entraram em guerra com as tropas federais. Morreu um monte de gente dos dois lados (quase todos também viraram ruas paulistanas) e os coxinhas não tiraram Getúlio do poder. O máximo que rendeu foi a constituição de 1934, mais abrangente que as anteriores – e que durou só três anos…

julho09_stamaro

Também tem 9 de julho em Santo Amaro.

julho10

Lá na Cidade Ademar, perto da Cupecê

A História sempre vai rolando e uma data importante pode virar mera página de rodapé no dia seguinte. É o caso do 10 de julho de 1832, quando foi fundado o município de Santo Amaro, cuja área correspondia a quase tudo que você chama de zona sul de São Paulo, e que voltou a ser paulistana em 1935, 102 anos depois. Segundo os arquivos da Prefeitura, a rua 10 de julho ganhou o nome na década de 1940, quando já não valia nada. A lembrança foi sugestão de Plínio Schmidt (ele mesmo já nome de rua faz tempo), funcionário da ex-prefeitura santamarense.

julho14

Lá no Bixiga, meu

Essa rua do Bixiga é em boa parte do seu leito imprensada pelo elevado da Ligação Leste-Oeste. E hoje, é conhecida pelas deliciosas fábricas de pão italiano. Não por acaso, uma das mais antigas é a padaria 14 de Julho, aberta em 1897 – ou seja, quando a rua já tinha esse nome. Fico no chute entre duas datas antigas, que não têm nada a ver entre si mas, sei lá: ou é a Revolução Francesa mesmo, em 1789, ou ainda o singelo aniversário de Campinas, fundada em 14 de julho de 1774. Conhecendo a história paulistana, essa acaba sendo a hipótese mais provável – embora a Prefeitura prefira ir de França, usando um texto colado da Wikipedia no seu Dicionário de Ruas. 

Lembro até do que eu fazia naquele dia

Lembro até do que eu fazia naquele dia

A “aquisição” mais recente desta lista é a praça Memorial 17 de Julho, inaugurada no ano passado. A referência, claro, é ao voo JJ3054 da TAM, que, no dia 17 de julho de 2007, varou a pista do aeroporto de Congonhas e dizimou um terminal de cargas da própria TAM e um posto de gasolina – cuja área hoje corresponde à própria praça. A homenagem às 199 vítimas do acidente até que virou uma praça bem agradável (e vamos torcer para que não comece a ser depredada por uma minoria de vândalos).

Segundo a Prefeitura, o 19 de julho desta rua de Pirituba seria o “dia da Caridade”. Também é a data de nascimento de várias pessoas importantíssimas  (obrigado, Wikipedia), como o tenista romeno Ilie Nastase (de 1946) e a miss Pompeia Ellen Roche (de 1979).

Na Vila Calendário

Na Vila Calendário

Essa travessa da Parada Pinto, na Cachoeirinha (zona norte) faz parte de um bairro cheio de datas. Tem a 10 de maio, a 9 de novembro… E, para cada um deles, a Prefeitura dá uma explicação diferente. Segundo eles, o dia 20 de julho é uma homenagem a Santos Dumont, nascido em 20 de julho de 1873. Além do inventor do avião, outra pessoa importantíssima nasceu num 20/07: nada mais, nada menos que Gracyanne Barbosa, de 1982. 20 de julho também é Dia do Revendedor de Posto de Gasolina (Frentista) – e também Dia do Amigo. ❤ !

25 de Julho é comemorado o Dia do Motorista.

25 de Julho é comemorado o Dia do Motorista.

É assim que a Prefeitura explica o nome dessa ruinha do Sacomã, quase na fronteira com São Caetano. Pode ser também a criação do Ministério da Saúde, em 25 de julho de 1953. Ou ainda, o dia do escritorinternacional da mulher negra, do colono, de Santiago de Compostela, etc, etc. Escolha o seu!

julho82

Os mutirão da habitação

Pra fechar, mais uma da linha lutas. Julho de 1982, na mesma região do Capão Redondo onde ficam a Maio e a Junho de 1985, é a data em que a área foi legalizada pela Prefeitura. Justo. E chega! Até o próximo post!

Ruas amorosas

Hoje é dia dos namorados! Já tem quem esquente sua orelha à noite, nesse friozinho? Espero que sim! E, para comemorar o dia, nada melhor que um roteiro romântico pela cidade, com o oferecimento do Banco de Nomes™ 🙂

Desde 2003

Desde 2003

Um segredo sobre os vereadores: se eles não gostam muito de denominar ruas das quebradas, deixando a tarefa para o Banco de Nomes, eles simplesmente não se aguentam quando veem um “espaço verde inominado”. Daí, qualquer bosque, rotatória, ilha central de avenida vira praça – embora às vezes não haja sequer um banquinho para sentar. E vem bem a ser o caso da Praça dos Namorados, que foi batizada pelo então vereador Jooji Hato em 2003, com essa justificativa: “a denominação foi solicitada pelos moradores locais através de abaixo-assinado e expressa uma característica da praça, frequentada por namorados”. Eu só queria saber onde que os casais ficam…

Só achei esse "casal" no Street View... e eles trouxeram as cadeiras de fora

Só achei esse “casal” no Street View… e eles trouxeram as cadeiras de fora

Pois é: a pracinha, na Saúde, na confluência da rua Guararema com a travessa Ângelo Pecin não tem nem um banquinho para namorar… resta sentar no morrinho, bem no estilo FFLCH.

CapturFiles-Jun-12-2015_09.15.06

Môoooor!!!!!!!!!!!!!!!! Môooorrrrrrr!!!!!!!!!

mozão fica satisfeito quando dá um passeio na “Via de Pedrestre Amor“, travessa da rua Francisco Peixoto Bizerra, no Jardim Brasil (ZN). Mas engana-se quem pensa que o Amor é aquele nobre sentimento. A Prefeitura explica que é “personagem da mitologia Grega, um dos mais poderosos mortais, era filho de Vênus” – ninguém mais, ninguém menos que o outro nome do Cupido, aquele que é bem…

No Jardim da Conquista, onde mais?

No Jardim da Conquista, onde mais?

Nem precisa de muita explicação, não é? É a música mesmo.

No <3 da Vila Sônia

No ❤ da Vila Sônia

Na Vila Sônia, entre as ruas Francisco Marson Karlina Reiman Wandabeg, está a Praça dos Amores – nome que a Prefeitura não sabe explicar, mas que batiza uma pracinha bem aproveitável (quando a grama está bem cortada):

Dá até para ganhar umas lambidas

Dá até para ganhar umas lambidas

Na Vila Santa Catarina, uma linda rotatória entre as ruas Contos Gauchescos Latif Fakhouri tem o nome oficial de Rosa do Amor. Pelos Contos, que é um livro tri-clássico da literatura gaúcha, você já imagina que Rosa tem algo com literatura, não é? Sim: é um livro de poemas, escrito em 1902 por Vicente de Carvalho (que hoje é nome de praia em Santos).

Tudo que move é sagrado

E remove as montanhas

Com todo o cuidado, meu amor…

by Beto Guedes, 1978

by Beto Guedes, 1978

Aqui não se trata de Banco de Nomes: assim como os vizinhos do Jardim da Conquista, os moradores da Amor de Índio, no Conjunto Residencial José Bonifácio, na ZL, deliberadamente escolheram batizar as ruas com nomes de músicas da MPB – como as suas paralelas Casa No Campo Águas de Março.

Na ZL

Na ZL

Por sua vez, o tema do Jardim Popular, próximo à avenida São Miguel, na ZL, são as flores. Que coisa linda, não é? Evidentemente que em algum momento chegaria a vez do Amor-perfeito:

CapturFiles-Jun-12-2015_09.24.04

No Aricanduva, ZL

Cantiga de Amor, se você lembra das aulas de Literatura do colégio, é um gênero do Trovadorismo. Mas esta aqui não: é um trecho dos Motetos Profanos do compositor alemão (naturalizado brasileiro) Bruno Kiefer, baseado num texto medieval.

Ninguém mora na rua Cravo de Amor :(

Ninguém mora na rua Cravo de Amor 😦

Por que ninguém mora na Cravo de Amor, em São Miguel (ZL)? Porque nada mais é que uma passagem, com menos de 50 metros de extensão… tem muro dos dois lados, ligando a José Dias Miranda à Osvaldo Santini. E o Cravo, o que é? Você já deve imaginar, não?

Resultado de imagem para Gypsophila paniculata

“Gypsophila paniculata. Planta perene, de caule ramificado que atinge 1 metro de altura, folhas lanceoladas e pequenas flores brancas. Espécie ornamental. É originária da Ásia e bem aclimatada no Brasil. (Família das cariofiláceas)”

doisamores_planta-picao

Sinônimos: Dois Irmãos, Picão e Sapatinho-dos-Jardins. É da família das Euforbiáceas – diz a Prefeitura

Essa travessinha da Sadamu Inoue, em Parelheiros, tem nome de planta também – daquela bem comum e que gruda na roupa. Mas, pensando bem, os moradores da Dois Amores deram foi sorte: imagine se o nome da rua fosse Picão ou Sapatinho dos Jardins?

Você já conhece

Você já conhece

Se você me acompanha faz algum tempo, já conhece a Rua dos Ventos do Amor – que fica no mimoso Jardim Oriental, em Parelheiros – onde todas as ruas têm nomes estranhos. A principal rua, por onde se chega ao bairro, é a dos Ventos, nome de uma composição do Itinerário Amoroso e Idílico de um certo José de Almeida Prado, composta em 1976. Caso queira conhecer a rua, pode marcar um evento na Chácara das Flores, que fica lá.

Não é música

Não é música

Pois é: Duetos de Amor, uma ruinha sem saída no Jardim Selma, dentro do Jd. São Luís, não é uma música, e sim um poema, de Alphonsus de Guimaraens, de onde vem esse lindo verso:

A minha face é uma caveira

Que tu não podes lisonjiar

Que aroma

Que aroma

Nada de novo no front: São Miguel, ZL, nessa altura, só pode ser planta. Ou melhor: “designação comum a algumas plantas rústicas da família das hidrofiláceas, originárias da Califórnia e cultivadas no Brasil.”. A criatividade passou longe: suas paralelas são a Flor da Paixão e a Flor de Noiva – e é travessa da Flor de Baile. 

"O nome desta rua foi solicitado pela Associação de Moradores do Jardim Celeste II."

“O nome desta rua foi solicitado pela Associação de Moradores do Jardim Celeste II.”

Essa ruinha, que, como a descrição diz, fica no Jardim Celeste, travessa da rua Nossa Senhora da Moradia, no Cursino (ZS), ganhou o nome em 2003. Pois bem: pela data, e pela ausência de outras explicações, tudo indica que se trata da cidade ficcional na qual a novela ‘O Beijo do Vampiro’ se passava – exibida justamente entre 2002 e 2003. Se ainda fosse uma novela melhorzinha… se eu contar para essa moça aqui, é capaz dela querer se mudar para a Maramores.

Que lindo

Que lindo

A rua Primaveras do Amor, no meio do Parque Arariba, no Capão Redondo (ZS) tem o nome de um “Livro de poesia de Ibrantina de Oliveira Cardona. Nascida em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, em 1868. ” E quem é essa senhora? É Ibrantina Froidevaux de Oliveira Cardona, autora de pérolas como Plectros Heptacórdio – e que é nome de uma escola em Holambra, no interior do estado. Ou seja: ninguém.

O Parque do Carmo, na ZL, é tão grande que ainda tem uns bairrinhos escondidos nas suas bordas e nas roça dos japoneses que ainda plantam pêssegos por ali. Na Gleba do Pêssego, há uma área bem literária, onde a principal rua é a Cinza das Horas (do Manuel Bandeira). Uma de suas minitravessas é a…

Não é poema

Não é poema

… que é o nome de uma “obra musical para conjunto de 3 vozes iguais, sobre textos de diversos autores, música do renomado compositor paulista Osvaldo Lacerda”que morreu não faz muito tempo, em 2011, que, dizem, era um dos melhores professores de música erudita do mundo, com material didático usado até hoje.

Na Cidade Tiradentes, ZL

Na Cidade Tiradentes, ZL

Lá na quebrada da Cidade Tiradentes, no Conjunto Habitacional Inácio Monteiro, fica a Semente do Amor…

Não, isso não é a semente do amor

… que não é a “sementinha” que seu papai colocou na mamãe para você nascer, tá? E sim uma obscura composição de uma obscura compositora, Najla Jabor – que não era parente do Arnaldo – e que, para variar, teve seu nome “editado” pela prefeitura para virar nome de rua: na verdade, a composição se chama “A semente é dor amor“. 

Sabe por que eu sei onde é a Seresta do Amor? Porque eu estava lá!

Sabe por que eu sei onde é a Seresta do Amor? Porque eu estava lá!

O nome dessa rua da Chácara Santo Amaro, no extremo sul, é tão singelo, não é? Mas a música que a intitula talvez não seja tão romântica assim – já que é composta por esse cidadão:

CapturFiles-Jun-12-2015_10.59.54

… que, como o nome diz, foi o pioneiro da música eletrônica no Brasil. Mas não pense que você vai ouvir Jorge Antunes na balada: sua pegada é mais no estilo Kraftwerk (e que não deve ser ouvida à noite, pois é trilha sonora de pesadelos). É dele também a Valsa Sideral – mais uma rua do meu querido Jardim Oriental – e paralela da…

CapturFiles-Jun-12-2015_11.09.11

Valsa Amorosa que consiste apenas nessa curvinha, saindo dos Ventos do Amor, que logo a transformam em Valsa Lenta – e que é (pra variar) o nome de uma outra composição musical – agora, de Souza Lima.

verbosdoamor_joaodonato2

Na ZL

E se eu te telefonar
Se mandar te buscar
Der o braço a torcer
Sei que irias ganhar
E eu não iria perder
Da outra vez eu sofri
Te magoei, me feri
Foi difícil aprender

Dica: a Verbos do Amor fica no Conjunto Habitacional José Bonifácio – então é da MPB – mais precisamente, do João Donato e do Abel Silva. E você já deve ter ouvido, pois toca até hoje na rádio, na voz da Gal Costa, gravada em 1982:

.

De João Donato, vamos para Sullivan e Massadas: as máquinas de compor música dos anos 80. Fizeram toneladas delas, para Xuxa, Faustão e Tim Maia, dentre outros milhares de artistas. São músicas como…

Jardim da Conquista, claro

Jardim da Conquista, claro

Vida minha, vida minha
Meu amor cigano
Como posso me enganar
Fingir que não te amo
Vida minha, vida minha
Não me deixe agora
Logo quando eu mais
Preciso de você
Diz pra mim que não deixou de me querer

que você provavelmente já ouviu na voz de Fafá de Belém. Algumas quadras adiante, você fica:

CapturFiles-Jun-12-2015_11.59.07

… que é um clássico do brega, conhecido na voze de Lindomar Castilho, inclusive com versão em espanhol

Reconheço não mereço seu carinho,
Mas de si não guardo ódio nem rancor,
O que eu sinto é vê-la sem felicidade,
E você só quer me ver ébrio de amor…

 

Isso em 2011

Isso em 2011

Já na Vila Império, no meio da Cidade Ademar, há a Travessa Fonte do Amor, que só existe no mapa – e que, em 2011, aparentemente estava para desabar. Tudo bem: é só mais um poema do Cruzzzzzzz…. e Sousa.

Por isso eu te amo querida,
Quer no prazer, quer na dor…
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor.

A travessa Gondoleiro do Amor, poema de Castro Alves de onde vem a estrofe acima, é primeira de todo esse post a não ficar na periferia: trata-se do nome oficial de uma aprazível vilinha, travessa da rua Venâncio Aires, na Pompeia – mas acho que nem os moradores sabem disso, pois devem dar a Venâncio como endereço, só marcando o número da casa.

Entre uma loja de cadeiras e outra de congelados

Entre uma loja de cadeiras e outra de congelados

“Grande amor, grande amor, grande mistério
Que as nossas almas trêmulas enlaça…
Céu que nos beija, céu que nos abraça
Num abismo de luz profundo e sério.”

É do Cruz e Sousa

É do Cruz e Sousa

Pelo romance que transborda da estrofe, já deu para notar que é mais um poema do Cruz e Sousa, que fica no Campo Limpo, margeando a área do condomínio Morumbi Sul, e que é travessa da rua Lira Cearense (também literária, como se pode notar). O curioso é que enquanto “ruas” como a Cravo-do-Amor não têm nem 30 metros, a travessa Grande Amor até que é grande…

E eis que voltamos ao Conquest Garden:

CapturFiles-Jun-12-2015_12.20.17

Nada mais é que a versão brasileira do Hymne à l’Amourda Edith Piaf – feita pela nossa lendária (e caótica) Maysa.

Para mostrar como nosso Jardim da Conquista é musicalmente florido, a paralela da Hino ao Amor é sertaneja:

Essa é a história de um amor
Que aumentou o meu sofrer
e me fez compreender
/Todo o mal de querer
Tu me deste luz e vida
destruindo-me depois, oh que vida amargurada
Vivo só sem teu calor…

CapturFiles-Jun-12-2015_12.24.01

 

… você já lembrou, né? É do Leandro e Leonardo.

Mas a música não tem esse nome

Mas a música não tem esse nome

Procurando, você acha músicas gospel com esse nome, ou ainda uma antiga novela da Globo. Mas, segundo a prefeitura, o nome vem da música Terceiro Amor – do Francis Hime… que começa falando de “primeiro amor”.

O primeiro amor já passou
O segundo amor já passou
Como passam os afluentes
Como passam as correntes

Ainda na Conquista, temos a…

Direto da Jovem Guarda

Direto da Jovem Guarda

Passeando em um jardim eu te encontrei meu bem
Foi tão grande a emoção que minha voz perdi
E com certa timidez de mim se aproximou
Para ir a uma festa você me convidou

Será que o jardim ao qual a cantora Diana, da Jovem Guarda, se referia era o da Conquista? D E S C U B R A.

No Ipiranga

No Ipiranga

Essa travessinha da rua Bamboré, no Ipiranga, é daquelas vilinhas com cara de cidade do interior – e o nome vem do mesmo livro Versiprosa, do Drummond, de onde vieram o Desfile e a  Musa de Outubro do último post. E como a Musa eram as eleições, o Velho Amor do Drummond não era nenhuma musa, mas a arte do seu amigo Rodrigo Andrade, diretor do Departamento Histórico na época…

Mestre Rodrigo, o da DPHAN,que me perdoe se neste cantohoje canto a gentil balzacade seus encantos e quebrantos,aquela que, noite após noite,e dia após dia, inclusiveos domingos – outrora livres,os feriados – antes gozados.

…e que, ao menos no mapa, é nome de uma praça na Brasilândia.

CapturFiles-Jun-12-2015_12.39.02

E fechamos com o nosso Jardim da Conquista, com mais uma surpresinha: Veneza do Amor – uma maravilha do lado B da Perla – a paraguaia! Ali perto, só lembrando, também tem a Galopeeeeeeeeeeeeeeeeeeeira:

galopeiraPronto: agora já deu. Feliz dia dos namorados!

 

 

 

 

 

Ruas astronômicas – parte 1 de 2

Pense em algo grande. Já pensou? Certamente jamais será tão grande quanto o universo, do qual somos apenas uma merdinha de um pálido ponto azul. Bilhões de estrelas, planetas, asteroides, poeira, cometas, etc – que comportam diversas teorias sobre sua criação, como a do Big Bang ou ainda certas lendas que tem gente que jura de pés juntos que são sérias.

Boa parte dos especialistas, aliás, ainda crê que o universo esteja se expandindo. Exatamente como a malha viária paulistana, que pegou vários nomes astronômicos. A começar pelo próprio universo:

Na Vila Formosa, perto da avenida Eduardo Cotching.

Na Vila Formosa, perto da avenida Eduardo Cotching.

Vamos fechar mais um pouco, quem sabe naquela estrela que nos dá a vida:

Na Cidade Satélite, em São Mateus

Na Cidade Satélite, em São Mateus

Não é por acaso que esta quebradíssima da ZL se chama Cidade Satélite, como você verá. Em torno da Sol, gravitam constelações…

Não são exatamente os signos do horóscopo

Os nativos de Gêmeos possuem habilidade manual, o que pode torná-los hábeis prestigitadores (mágicos ou ladrões!)

… estrelas …

castor

Fica lá em Gêmeos. O nome não vem do bichinho comedor de madeira, mas da mitologia mesmo. Castor, junto com Pólux (também rua) são os tais “gêmeos”.

galáxias…

andromeda

Você talvez lembre dos Cavaleiros do Zodíaco, mas eu era a única criança da sala que não assistia.

outros tipos de astros…

De uma nebulosa acabam aparecendo planetas, estrelas, etc

De uma nebulosa acabam aparecendo planetas, estrelas, etc

e até um certo praneta azul e seu satélite.

A Lua é maior que a Terra, pelo menos na Cidade Satélite: são 5 quadras contra apenas 1 da Terra.

A Lua é maior que a Terra, pelo menos na Cidade Satélite: são cinco quadras contra apenas uma da Terra – que nem tem uma plaquinha nítida para colocar aqui.

Planetas mesmo, além da Terra, só há outros dois:netuno

ou melhor, um, já que esse aí não é mais:

plutão

Só “Plutão “era nos áureos tempos. Hoje é só “134340 Plutão“, apenas um dos objetos do Cinturão de Kuiper. Fuén.

É que o resto do sistema solar está bem longe. Na Aclimação, perto da Vergueiro, estão os gigantes gasosos:

jupiter saturno urano

Os outros telúricos (nada a ver com a Baby da época que andava com o homem do rá) se espalham por aí. No centro, ao lado do Mercadão, está ele, o

... cujo deus grego é o padroeiro do jornalismo, como muito ouvi de um professor "prata da casa" da PUC...

… cujo deus grego é o “padroeiro” do jornalismo, como muito ouvi de um professor “prata da casa” da PUC…

na ZL, na Vila Formosa, não muito longe da praça Universo, está a irmã gêmea da Terra. Ele mesmo:

Terra é a Ruthinha e Vênus é a Raquel: afinal, só o tamanho é igual, porque Vênus é pior que o inferno

Terra é a Ruthinha e Vênus é a Raquel: afinal, só o tamanho é igual, porque Vênus é pior que o inferno

Só faltou um:

O Planeta Vermelho fica atrás do shopping Eldorado.

O Planeta Vermelho fica atrás do shopping Eldorado.

Mas faltou falar do verdadeiro mato do sistema solar (e provavelmente dos outros sistemas planetários que vêm sendo descobertos): os satélites…

satelite

Não por acaso, a via central da Cidade Satélite.

 Saturno tem, conhecidos, 61. Júpiter tem dois a mais: 63. Em ambos, os nomes também vêm da mitologia. A única exceção são os de Urano: os (até agora) 27 pedregulhos que o orbitam têm nomes de personagens de peças de teatro dos britânicos William William Shakespeare e Alexander Pope. E eles estão espalhados pela cidade. Alguns estão lá no limite entre Parelheiros e Grajaú, no extremo sul. O bairro é o Jardim Casa Grande. E, na falta de placas oficiais, o povo pixou o nome das ruas nas paredes, olha só:

O povo tem de se virar, já que a Prefeitura não pôs placa na rua. Ariel orbita Urano, e "homenageia" um personagem de Alexander Pope.

Ariel orbita Urano, e “homenageia” um personagem de Alexander Pope. Ele gira meio torto, e só o seu pólo sul fica virado para o Sol.

Na mitologia, Dione (ou Dionéia) era filha de Urano - mas é satélite de Saturno.

Na mitologia, Dione (ou Dionéia) era filha de Urano – mas é satélite de Saturno.

Completando o kit planetário do Casa Grande, ainda tem FebeJanus e Japetus, de Saturno, e o jupiteriano Europa, que, dizem, tem até um oceano congelado. Mas você ainda leva umas constelações de brinde, logo abaixo, margeando o início da (imensa) avenida Paulo Guilguer Reimberg:

Pequena e pouco visível, a do Corvo

Pequena e pouco visível, a do Corvo

constelacaodoesquadro

Também conhecida como Norma.

Rodando pela cidade, achamos o amiguinho de Plutão perdido no City América, na zona norte. Mas, provavelmente, o Caronte em questão é o barqueiro que levava os mortos para o mundo inferior, liderado por Plutão, na mitologia romana.

É quase do próprio tamanho de Plutão

É quase do mesmo tamanho de Plutão

De volta ao Jardim Satélite, temos o quê? Satélites, claro:

Esse é o maior de Netuno. Por muito tempo achou-se que era o único.

Esse é o maior de Netuno. Por muito tempo achou-se que Tritão era o único.

de Urano também tem de montão:

Olha o Ariel aí de novo! Mas agora tem amigos:

Olha o Ariel aí de novo!
Mas agora tem amigos:

oberon

Oberon foi uma das primeiras a serem descobertas, ainda no século 19, é um personagem de Sonho de uma noite de verãode Shakespeare.

titania

Também foi descoberta no século 19 e é uma personagem da mesma Sonho de uma noite de verão.

umbriel

Umbriel vem do mesmo texto de Ariel, e não é por acaso que ganhou esse nome. “Umbriel” é a irmã escura, como o satélite, que reflete apenas uma pequena fração da luz solar que recebe.

De Saturno temos um dos mais importantes satélites do sistema solar. Uns dizem que parece com a Terra do passado. Outros, que poderá ser nosso refúgio quando a Terra for pro saco (e nós já teremos ido faz tempo, não é?)

Titã é maior que a Lua e que Mercúrio. E tem algo que esses dois não têm: atmosfera.

Titã é maior que a Lua e que Mercúrio. E tem algo que esses dois não têm: atmosfera.

Até mesmo as duas pedras que giram em volta de Marte são lembradas no Satélite:

Deimos é o menor satélite do sistema solar. Tem apenas 6,2 km de comprimento: meno

Deimos é o menor satélite do sistema solar. Tem apenas 6,2 km de comprimento: menos que a própria rua Deimos tem de extensão. Visto do céu de Marte, confunde-se com uma estrela.

Fobos (as ruas têm as grafias antigas) está caindo 1,8 m por século. Daqui a uns 50 milhões de anos, provavelmente, vai se esfacelar contra a superfície marciana. Quem viver, verá

Fobos (as ruas têm as grafias antigas) está caindo 1,8 m por século. Daqui a uns 50 milhões de anos, provavelmente, vai se esfacelar contra a superfície marciana. Quem viver, verá.

Ainda tem mais satélites orbitando por aí – o que faria esse post, já longo, interminável. Semana que vem (prometo) falo das pessoas ligadas ao espaço que foram parar nas ruas paulistanas.