Que rua é hoje? – outubro

Bem-vindos a outubro:

No Ipiranga, pertinho da Ricardo Jafet

No Ipiranga, pertinho da Ricardo Jafet.

A aprazível pracinha 1 de outubro homenageia, segundo a Prefeitura, o “dia do viajante comercial”. Talvez não seja por acaso que uma das ruas próximas à 01/10 seja justamente a…

Lá, quando dá 4:20, o povo fica todo viajandão #legalize

Lá, quando dá 4:20, o povo fica todo viajandão #legalize

Além dos viajantes comerciais (que podem ser até os de Telexfree Herbalife, dentro do Marketing Multinível™), o dia 01/10 também é o dia mundial do vegetarianismo, veja só.

Dois dias depois…

No Limão, zona norte.

No Limão, zona norte.

Essa praça, na verdade uma calçada arborizada da rua Salvador Ligabue, de acordo com a Prefeitura, homenageia o dia das eleições presidenciais. Mas, como você deve ter reparado nos últimos anos, as eleições em geral sempre têm ocorrido no primeiro domingo de outubro, que pode cair entre os dias 1 e 7. Mas, até elas serem gentilmente interrompidas pela ditadura militar, as eleições diretas presidenciais realmente tinham esta data como fixa – a partir da constituição de 1946. Então, Getúlio Vargas (em 1950), JK (em 1955), e Jânio Quadros em 1960, foram mesmo eleitos em dias 3 de outubroO dia também marca a morte de duas sumidades religiosas (pelo menos para seus devotos): o criador da umbanda Zélio de Morais (em 1975). E o fundador da bizarríssima Tradição Família e Propriedade, e, segundo certos devotos, dotado de poderes sobrenaturais, o sr. Plínio Correa de Oliveira, em 1995 – cujo túmulo, no cemitério da Consolação, até hoje atrai os tradicionais estandartes medievais da comunidade e os honrados homens de bem que dão sua vida pela luta contra o cOmUnIsMo.

No Jabaquara, zona sul

No Jabaquara, zona sul

A 5 de outubro é uma rua até grandinha no coração do Jabaquara. Mas sobre ela, a única informação que a Prefeitura dá é que foi denominada pelo decreto nº 15.784 de 04/04/1979. Prefiro considerar que o dia homenageado é o 05/10 de 1969, quando estreou o Monty Python na TV britânica. Ou ainda a proclamação da República… de Portugal, que aconteceu 21 anos depois da nossa, em 05/10/1910.

No Tatuapé, ZL

No Tatuapé, ZL

A 7 de outubro, travessa da Serra de Botucatu, “no coração do Tatuapé”não tem explicação para o nome.  Espero que não seja uma homenagem ao Manifesto de Outubro, quando os integralistas ~botaram para quebrar~ lançando seu manifesto, em 1932. Sorte que só dois anos depois, os galinhas-verdes foram literalmente postos para correr. Mas sabendo que a nossa querida cidade tem ruas como a Plínio Salgado, é capaz que tenha algo a ver com a primeira data.

Na Lapa

Na Lapa

A maior artéria da Lapa, que concentra boa parte do comércio do bairro (e o Mercado), foi uma grande fornecedora de roupas na minha primeira infância, em lojas como a Pelicano. Mas qual dos 12 de outubro que a rua homenageia? Segundo a Prefeitura, o mais antigo deles: a descoberta da América, por Cristóvão Colombo, em 12 de outubro de 1492. Mas, além disso, também é o dia de Nossa Senhora Aparecida e o das crianças, como se sabe.

Em Artur Alvim, ZL

Em Artur Alvim, ZL

Um dos caminhos para se adentrar a “comunidade” do Cambalacho (sim, o nome é por causa da novela) é a rua 14 de outubroo qual (adivinhe) a Prefeitura não sabe explicar. Hipóteses: a fundação da CNBB, em 1952, ou ainda o Nobel de Martin Luther King, em 1964, quatro anos antes da sua morte.

No Tatuapé

Na Vila Carrão, ZL

A praça 15 de outubro marca a confluência da avenida Conselheiro Carrão com as ruas ManilhaAstarté, Taubaté e a 19 de Janeiro. Baita encruzilhada, perfeita para os macumbeiros de plantão. E que, claro, homenageia aquele dia em que você fingia que era legal e dava a maçã que não fora comida na hora do lanche ao seu querido professor. A data, que só é comemorada neste dia aqui no Brasil, é uma homenagem à santa Teresa D’Ávila, padroeira dos professores – e que, por sua vez, inspirou D. Pedro I a regulamentar a abnegada profissão, no dia 15 de outubro de 1827. Dia 15 de outubro também é, acredite, o dia mundial da lavagem das mãos.

Em Interlagos, zona sul

Em Interlagos, zona sul

Na frente do shopping Interlagos, como a velha plaquetinha explicativa diz, a rua 17 de outubro homenageia o tal dia do securitárioOu seja, os corretores de seguros, vendedores de seguros, etc, etc. Merece até uma vinheta, a que eu mais gostei do Pânico em todos os 10 anos de programa:

No Jardim Maria Estela, zona sul

No Jardim Maria Estela, zona sul

Quase em São Bernardo, às margens da Anchieta, está a 18 de outubro. Segundo a Prefeitura, é porque na data se comemora o dia do médico. Para variar, os doutores ganharam o dia por causa do santo padroeiro, São LucasJá em 18 de outubro de 1968, John Lennon e Yoko Ono foram presos por porte de drogas. Maior vacilo.

Na Vila Sônia, zona oeste

Na Vila Sônia, zona oeste

Na Vila Sônia, entre as avenidas Eliseu de Almeida Francisco Morato, está a 23 de outubroque homenageia o dia do aviador. Afinal, foi no dia 23 de outubro de 1906 que Santos Dumont sobrevoou o Campo de Bagatelle, em Paris.

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Não é por acaso que eles estão juntos, em Santana

O avião? Você conhece bem:

No meio (e embaixo) da 9 de Julho.

No meio (e embaixo) da 9 de Julho.

Nada como um dia após o outro:

No Ipiranga

No Ipiranga.

O dia 24 de outubro ser rua em São Paulo ajuda a calar um pouco a boca daqueles que dizem “ah, São Paulo é o único lugar onde não há rua com nome do Getúlio Vargas, só aqui os trabalhistas não são reconhecidos, etc etc”. Ok, além disso não ser verdade…

Ok, a rua fica em Perus, perto do nada e de lugar nenhum, mas existe

Ok, a rua fica em Perus, perto do nada e de lugar nenhum, mas existe.

… o dia 24 de outubro de 1930 marcou o fim da revolução de 1930, que enxotou Washington Luiz do poder e alçou Vargas à presidência. Os paulistas, como se sabem, não deixariam barato e logo se meteriam na ~revolução~ de 1932, que rendeu várias avenidas e ruas datadas, como a 9 de Julho e a 23 de Maio

No Tremembé, perto do Horto Florestal.

No Parque Casa de Pedra, perto do Horto Florestal.

Diz a Prefeitura que 25 de outubro é “dia da Democracia”. A origem da data não podia ser mais controversa: uns dizem que é alusiva à “”””eleição “”” de Emílio Médici à presidência, em 1969, depois da morte de Costa e Silva e da junta militar. Outros dizem que o 25/10 é o de seis anos depois, em 1975, quando o jornalista Wladimir Herzog foi “suicidado” nas dependências do DOI-Codi, fato que acelerou a “abertura” do regime militar (que, ainda assim, duraria mais 10 anos). Segundo consta, os moradores da 25 de outubro não gostavam tanto assim do nome – tanto que o então vereador (e apresentador de tv) Dárcio Arruda apresentou um abaixo-assinado dos moradores para dar o nome de um padre do bairro à 25/10. Mas não deu certo – e o tal padre até hoje não dá nome a nenhum logradouro.

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No Jardim Nazaré, quebrada da Vila Curuçá (ZL).

A travessa 26 de outubro é a “caçulinha” da lista: só foi oficializada em 2011. Mas engana-se quem pensa que há alguma explicação. O chute é o dia do músico, comemorado nesta data.

Em Heliópolis

Em Heliópolis, no Sacomã.

Segundo a Prefeitura, há duas ruas 28 de outubro: essa aí de cima, na comunidade de Heliópolis, cujo nome foi escolhido pelos moradores e deve ter alguma explicação deles, e outra, no Tatuapé, que homenagearia o dia do funcionário público. A ironia é que essa última foi privatizada: é fechada com portão nas duas pontas e, aparentemente, é um estacionamento. Tá certo então.

Na Vila Matilde, ZL.

Na Vila Matilde, ZL.

Que lindo: o dia 29 de outubro desta longa rua da ZL seria o Dia do Livro, em homenagem à data em que a Real Biblioteca Portuguesa foi trazida para o Brasil, em 1810. Neste dia, em 4004 a.C, segundo um alucinado monge do século 15, Deus teria terminado de criar o mundo. E, como você sabe, levou seis dias. Logo, começou lá no dia 23/10. Tá certo (2).

Na Capela do Socorro, zona sul.

Na Capela do Socorro, zona sul.

Para a prefeitura, o 30 de outubro desta travessa sem saída da avenida do Rio Bonito é o dia do comerciário – que, por sua vez, alude a uma grande manifestação dos comerciários por melhores condições de trabalho, no Rio de Janeiro. Só que não foi no dia 30, mas no dia 29 de outubro de 1932. Porém, ficou o 30 porque foi nesse dia que o então presidente Getúlio Vargas, para fazer uma média, aceitou as reivindicações da categoria em forma de lei, impondo rotina de oito horas diárias e descanso aos domingos. Veja só.

No Mandaqui, ZN

No Mandaqui, ZN

O dia 31 de outubro virou dia das bruxas na Inglaterra porque coincidia com o ano-novo celta, “pagão”. Vai saber se não é a origem do 31 de outubro da rua, já que a Prefeitura não sabe explicar. Outra explicação mais plausível é que o 31/10 é o dia mundial da Reforma Protestante. Ou ainda, a independência da Hungria, em 31/10 de 1918.

Acabou? Não! Ainda tem ela, a…

No Grajaú, zona sul.

No Grajaú, zona sul. 1DASUL procês.

Nossa Musa de Outubro, que vem a ser um poema de Carlos Drummond de Andrade. A quebrada do extremo sul onde fica a Musa é especialmente literária. Lá perto, além do Luar de Lágrimas (que é um poema de Cruz e Sousa), temos as ruas do Eterno e do Desfile. 

Chega. Até a próxima!

Parece mas não é…

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Pede pra sair!

Na manhã de hoje, via o SPTV e mostravam uma perseguição policial na rua Capitão Nascimento, uma travessa da avenida Jaçanã (ZN). Lembrei, então, das ruas que lembram o nome de alguém conhecido – da vida real ou não, como o Capitão – mas são simplesmente homônimos:

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Missão abortada, na verdade: a Prefeitura não sabe dizer quem é o Capitão Nascimento da rua, que existe desde a década de 1960.

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Também conhecido como “Tio Darcí”

Não que ele seja lá muito conhecido atualmente: o ator, conhecido pela sua bela cútis, fez várias novelas na Globo nos anos 80 e 90, como O Dono do Mundo, que foi recentemente reprisada no Viva. Mais recentemente ele andou pela política, como atesta a fotinho abaixo:

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… mas o da rua, no meio da Cidade Ademar (ZS), é outro: “Antônio Grassi, comerciante aposentado, natural de Avaré, Estado de São Paulo. Nasceu em 13 de junho de 1917 e faleceu em 13 de julho de 1980.”

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Mas ele não morreu, já?

Você deve estar perguntando o que faz essa rua na Cidade Kemel, extremo da ZL, aqui. Afinal, como todos sabemos, este senhor aqui…Mário_Covas

 

… morreu em 6 de março de 2001. Mas a rua existe desde bem antes disso, ué… Explico: o governador era o Mário Covas JÚNIOR – e o da rua, o “sênior”: Mário Covas, comerciante, nasceu e morou por longos anos em Santos, Estado de São Paulo. Era pai de Mário Covas Jr. que foi prefeito de São Paulo, senador da República e governador do Estado de São Paulo. Faleceu em 25 de maio de 1981, com 79 anos de idade em São Paulo.

Devia ter colocado em preto e branco

Devia ter colocado a foto da placa em preto e branco 

Essa rua do Morumbi pode parecer ter o nome do fotógrafo mundialmente conhecido, mas não tem. Na verdade, como tantos Josés, Sebastiões e Joões, este “Sebastião Salgado” vem do aleatoríssimo…

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… de onde vêm centenas de logradouros paulistanos. Se o cara, lá pelos idos de 1756, assinou algum papel com o nome dele, foi parar aí. Justamente como o Sebás… que “Sebastião Salgado exercia o ofício de carpinteiro em Barbacena, Estado de Minas Gerais, na primeira metade do século XVIII.” Para vocês verem como Deus não Joga Dados e tudo está interligado, a autora do livro acima, a sra. Judith Martins, era a secretária do fundador do IPHAN, aquele do Velho Amor do Drummond, de um dos últimos posts daqui. É o que mostra este artigo acadêmico. E, como boa secretária, ela simplesmente fez. à mão, uma planilha de dados dos artífices, juntando muitas fontes dispersas – que as autoras do artigo, décadas depois, colocaram no Excel!

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Não muito longe da última rua, no Jardim Rosa Maria, no Butantã perto do limite com Taboão da Serra, está o Ernesto Paglia:

Aqui, quando ele reportava o "aniversário de 430 anos de SP", em 1984.

Aqui, quando ele reportava o “aniversário de 430 anos de SP”, em 1984.

… que era um… “Benemérito. Ernesto Paglia nasceu em 1892 e faleceu em 1931.”, com apenas 39 anos. É só isso que diz a Prefeitura. Seria ele avô (ou bisavô) do repórter global?

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Na Fazenda da Juta, uma encruzilhada entre São Paulo, Mauá e Santo André, no extremo da ZL, está a…

não é a Maria Padilha Gonçalves...

não é a Maria Padilha Gonçalves, que estreou na TV em Água Viva (1980), na clássica cena do topless...

muito menos essa aqui, embora a toponímia paulistana seja bem amiga dos cultos afro-brasileiros:

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Maria Padilha é uma das principais entidades da umbanda e do candomblé traz consigo o dom do encantamento de amor é muito procurada pelas pessoas que sofre de paixões não Correspondidas . E suas oferendas são compostas geralmente de cigarros champanhe rosas vermelhas perfumes anéis e gargantilhas batom pentes espelho farofa feita com azeite de dendê suas obrigações são geralmente arriadas nas encruzilhadas de T aceita como sacrifício galinha vermelha cabra e pata preta. Mulheres que trabalham com esta entidade são geralmente belas bonitas atraentes e sensuais são dominadoras e de personalidade muito forte sabem amar como ninguém mas com a mesma facilidade sabem odiar seus parceiros amorosos. Maria Padilha é protetora das prostitutas gosta do luxo e do sexo adora a lua mas odeia o sol suas roupas são geralmente vermelhas e pretas igualmente seus colares e sua coroa suas cantigas são muito alegres e cheias de magia e segredos. E mulher de sete exu rainha dos cabarés e das encruzilhadas. – descrição retirada daqui.

Não: por incrível que pareça, de acordo com a Prefeitura,a Maria Padilha dessa pequena travessa é uma nobre espanhola da Idade Média: “Maria de Padilla, nasceu em 1300, na Espanha. Foi amante, conselheira e, posteriormente, esposa de Dom Pedro I de Castela, exercendo forte influência sobre ele. Foi graças a ela que o jovem rei de 19 anos escolheu governar como um autocrata, ainda que apoiado pelo povo, recebendo a alcunha de Justiceiro. Casaram-se secretamente em Olmedo, embora D. Pedro ainda estivesse casado com sua mulher Branca de Bourbon, pertencente à corte francesa.” Essa aqui:

Gatinha

Gatinha

Ainda no elenco televisivo, temos esse aqui:

A data já explica muita coisa

A data já explica muita coisa

Pois é: é impossível que seja o nosso conhecido:

"Dá uma subidinha"

“Dá uma subidinha”

Mas é alguém bem próximo – e importante num período histórico do país (e depois, num que só é importante aqui em SP). O Capitão Agildo Barata Ribeiro, nome dessa rua do Jaçanã, bem pertinho da Capitão Nascimento, era o pai do humorista da TV – e.. “Já como tenente, participou da revolução de 1930, comandando o 22º Batalhão de caçadores, na Paraíba, fazendo parte da Brigada Juracy Magalhães. Insatisfeito com os resultados da revolução de 1930, veio para São Paulo, sendo um dos organizadores da revolução de 1932, sob o comando do General Isidoro Dias Lopes, participando ativamente da mesma. Faleceu em 19 de dezembro de 1967.”

Não é à toa que o Agildo Barata Ribeiro júnior tinha um programa chamado…

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na antiga TV Manchete.

 

Agora, um teste:

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se você não reconheceu esse nome, é porque não assiste novelas – mais precisamente, as do Manoel Carlos, onde sempre tem um “dr. Moretti”. O Maneco explica que esse era o nome do seu “médico da família” na infância, e por isso sempre o homenageia, inclusive com o papel principal da novela História de Amorde 1995, que recentemente passou no Viva.

lembra de mim?

Era o José Mayer

Mas como a plaquetinha denuncia, o dr. Moretti da vida real, dessa avenida de Pirituba, era engenheiro – e por isso, provavelmente não era o médico do paulistano Maneco.

Por hoje chega. Quando estiver inspirado, eu volto: nem cheguei a esgotar essa listinha 🙂 Até!

 

Ruas amorosas

Hoje é dia dos namorados! Já tem quem esquente sua orelha à noite, nesse friozinho? Espero que sim! E, para comemorar o dia, nada melhor que um roteiro romântico pela cidade, com o oferecimento do Banco de Nomes™ 🙂

Desde 2003

Desde 2003

Um segredo sobre os vereadores: se eles não gostam muito de denominar ruas das quebradas, deixando a tarefa para o Banco de Nomes, eles simplesmente não se aguentam quando veem um “espaço verde inominado”. Daí, qualquer bosque, rotatória, ilha central de avenida vira praça – embora às vezes não haja sequer um banquinho para sentar. E vem bem a ser o caso da Praça dos Namorados, que foi batizada pelo então vereador Jooji Hato em 2003, com essa justificativa: “a denominação foi solicitada pelos moradores locais através de abaixo-assinado e expressa uma característica da praça, frequentada por namorados”. Eu só queria saber onde que os casais ficam…

Só achei esse "casal" no Street View... e eles trouxeram as cadeiras de fora

Só achei esse “casal” no Street View… e eles trouxeram as cadeiras de fora

Pois é: a pracinha, na Saúde, na confluência da rua Guararema com a travessa Ângelo Pecin não tem nem um banquinho para namorar… resta sentar no morrinho, bem no estilo FFLCH.

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Môoooor!!!!!!!!!!!!!!!! Môooorrrrrrr!!!!!!!!!

mozão fica satisfeito quando dá um passeio na “Via de Pedrestre Amor“, travessa da rua Francisco Peixoto Bizerra, no Jardim Brasil (ZN). Mas engana-se quem pensa que o Amor é aquele nobre sentimento. A Prefeitura explica que é “personagem da mitologia Grega, um dos mais poderosos mortais, era filho de Vênus” – ninguém mais, ninguém menos que o outro nome do Cupido, aquele que é bem…

No Jardim da Conquista, onde mais?

No Jardim da Conquista, onde mais?

Nem precisa de muita explicação, não é? É a música mesmo.

No <3 da Vila Sônia

No ❤ da Vila Sônia

Na Vila Sônia, entre as ruas Francisco Marson Karlina Reiman Wandabeg, está a Praça dos Amores – nome que a Prefeitura não sabe explicar, mas que batiza uma pracinha bem aproveitável (quando a grama está bem cortada):

Dá até para ganhar umas lambidas

Dá até para ganhar umas lambidas

Na Vila Santa Catarina, uma linda rotatória entre as ruas Contos Gauchescos Latif Fakhouri tem o nome oficial de Rosa do Amor. Pelos Contos, que é um livro tri-clássico da literatura gaúcha, você já imagina que Rosa tem algo com literatura, não é? Sim: é um livro de poemas, escrito em 1902 por Vicente de Carvalho (que hoje é nome de praia em Santos).

Tudo que move é sagrado

E remove as montanhas

Com todo o cuidado, meu amor…

by Beto Guedes, 1978

by Beto Guedes, 1978

Aqui não se trata de Banco de Nomes: assim como os vizinhos do Jardim da Conquista, os moradores da Amor de Índio, no Conjunto Residencial José Bonifácio, na ZL, deliberadamente escolheram batizar as ruas com nomes de músicas da MPB – como as suas paralelas Casa No Campo Águas de Março.

Na ZL

Na ZL

Por sua vez, o tema do Jardim Popular, próximo à avenida São Miguel, na ZL, são as flores. Que coisa linda, não é? Evidentemente que em algum momento chegaria a vez do Amor-perfeito:

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No Aricanduva, ZL

Cantiga de Amor, se você lembra das aulas de Literatura do colégio, é um gênero do Trovadorismo. Mas esta aqui não: é um trecho dos Motetos Profanos do compositor alemão (naturalizado brasileiro) Bruno Kiefer, baseado num texto medieval.

Ninguém mora na rua Cravo de Amor :(

Ninguém mora na rua Cravo de Amor 😦

Por que ninguém mora na Cravo de Amor, em São Miguel (ZL)? Porque nada mais é que uma passagem, com menos de 50 metros de extensão… tem muro dos dois lados, ligando a José Dias Miranda à Osvaldo Santini. E o Cravo, o que é? Você já deve imaginar, não?

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“Gypsophila paniculata. Planta perene, de caule ramificado que atinge 1 metro de altura, folhas lanceoladas e pequenas flores brancas. Espécie ornamental. É originária da Ásia e bem aclimatada no Brasil. (Família das cariofiláceas)”

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Sinônimos: Dois Irmãos, Picão e Sapatinho-dos-Jardins. É da família das Euforbiáceas – diz a Prefeitura

Essa travessinha da Sadamu Inoue, em Parelheiros, tem nome de planta também – daquela bem comum e que gruda na roupa. Mas, pensando bem, os moradores da Dois Amores deram foi sorte: imagine se o nome da rua fosse Picão ou Sapatinho dos Jardins?

Você já conhece

Você já conhece

Se você me acompanha faz algum tempo, já conhece a Rua dos Ventos do Amor – que fica no mimoso Jardim Oriental, em Parelheiros – onde todas as ruas têm nomes estranhos. A principal rua, por onde se chega ao bairro, é a dos Ventos, nome de uma composição do Itinerário Amoroso e Idílico de um certo José de Almeida Prado, composta em 1976. Caso queira conhecer a rua, pode marcar um evento na Chácara das Flores, que fica lá.

Não é música

Não é música

Pois é: Duetos de Amor, uma ruinha sem saída no Jardim Selma, dentro do Jd. São Luís, não é uma música, e sim um poema, de Alphonsus de Guimaraens, de onde vem esse lindo verso:

A minha face é uma caveira

Que tu não podes lisonjiar

Que aroma

Que aroma

Nada de novo no front: São Miguel, ZL, nessa altura, só pode ser planta. Ou melhor: “designação comum a algumas plantas rústicas da família das hidrofiláceas, originárias da Califórnia e cultivadas no Brasil.”. A criatividade passou longe: suas paralelas são a Flor da Paixão e a Flor de Noiva – e é travessa da Flor de Baile. 

"O nome desta rua foi solicitado pela Associação de Moradores do Jardim Celeste II."

“O nome desta rua foi solicitado pela Associação de Moradores do Jardim Celeste II.”

Essa ruinha, que, como a descrição diz, fica no Jardim Celeste, travessa da rua Nossa Senhora da Moradia, no Cursino (ZS), ganhou o nome em 2003. Pois bem: pela data, e pela ausência de outras explicações, tudo indica que se trata da cidade ficcional na qual a novela ‘O Beijo do Vampiro’ se passava – exibida justamente entre 2002 e 2003. Se ainda fosse uma novela melhorzinha… se eu contar para essa moça aqui, é capaz dela querer se mudar para a Maramores.

Que lindo

Que lindo

A rua Primaveras do Amor, no meio do Parque Arariba, no Capão Redondo (ZS) tem o nome de um “Livro de poesia de Ibrantina de Oliveira Cardona. Nascida em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, em 1868. ” E quem é essa senhora? É Ibrantina Froidevaux de Oliveira Cardona, autora de pérolas como Plectros Heptacórdio – e que é nome de uma escola em Holambra, no interior do estado. Ou seja: ninguém.

O Parque do Carmo, na ZL, é tão grande que ainda tem uns bairrinhos escondidos nas suas bordas e nas roça dos japoneses que ainda plantam pêssegos por ali. Na Gleba do Pêssego, há uma área bem literária, onde a principal rua é a Cinza das Horas (do Manuel Bandeira). Uma de suas minitravessas é a…

Não é poema

Não é poema

… que é o nome de uma “obra musical para conjunto de 3 vozes iguais, sobre textos de diversos autores, música do renomado compositor paulista Osvaldo Lacerda”que morreu não faz muito tempo, em 2011, que, dizem, era um dos melhores professores de música erudita do mundo, com material didático usado até hoje.

Na Cidade Tiradentes, ZL

Na Cidade Tiradentes, ZL

Lá na quebrada da Cidade Tiradentes, no Conjunto Habitacional Inácio Monteiro, fica a Semente do Amor…

Não, isso não é a semente do amor

… que não é a “sementinha” que seu papai colocou na mamãe para você nascer, tá? E sim uma obscura composição de uma obscura compositora, Najla Jabor – que não era parente do Arnaldo – e que, para variar, teve seu nome “editado” pela prefeitura para virar nome de rua: na verdade, a composição se chama “A semente é dor amor“. 

Sabe por que eu sei onde é a Seresta do Amor? Porque eu estava lá!

Sabe por que eu sei onde é a Seresta do Amor? Porque eu estava lá!

O nome dessa rua da Chácara Santo Amaro, no extremo sul, é tão singelo, não é? Mas a música que a intitula talvez não seja tão romântica assim – já que é composta por esse cidadão:

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… que, como o nome diz, foi o pioneiro da música eletrônica no Brasil. Mas não pense que você vai ouvir Jorge Antunes na balada: sua pegada é mais no estilo Kraftwerk (e que não deve ser ouvida à noite, pois é trilha sonora de pesadelos). É dele também a Valsa Sideral – mais uma rua do meu querido Jardim Oriental – e paralela da…

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Valsa Amorosa que consiste apenas nessa curvinha, saindo dos Ventos do Amor, que logo a transformam em Valsa Lenta – e que é (pra variar) o nome de uma outra composição musical – agora, de Souza Lima.

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Na ZL

E se eu te telefonar
Se mandar te buscar
Der o braço a torcer
Sei que irias ganhar
E eu não iria perder
Da outra vez eu sofri
Te magoei, me feri
Foi difícil aprender

Dica: a Verbos do Amor fica no Conjunto Habitacional José Bonifácio – então é da MPB – mais precisamente, do João Donato e do Abel Silva. E você já deve ter ouvido, pois toca até hoje na rádio, na voz da Gal Costa, gravada em 1982:

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De João Donato, vamos para Sullivan e Massadas: as máquinas de compor música dos anos 80. Fizeram toneladas delas, para Xuxa, Faustão e Tim Maia, dentre outros milhares de artistas. São músicas como…

Jardim da Conquista, claro

Jardim da Conquista, claro

Vida minha, vida minha
Meu amor cigano
Como posso me enganar
Fingir que não te amo
Vida minha, vida minha
Não me deixe agora
Logo quando eu mais
Preciso de você
Diz pra mim que não deixou de me querer

que você provavelmente já ouviu na voz de Fafá de Belém. Algumas quadras adiante, você fica:

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… que é um clássico do brega, conhecido na voze de Lindomar Castilho, inclusive com versão em espanhol

Reconheço não mereço seu carinho,
Mas de si não guardo ódio nem rancor,
O que eu sinto é vê-la sem felicidade,
E você só quer me ver ébrio de amor…

 

Isso em 2011

Isso em 2011

Já na Vila Império, no meio da Cidade Ademar, há a Travessa Fonte do Amor, que só existe no mapa – e que, em 2011, aparentemente estava para desabar. Tudo bem: é só mais um poema do Cruzzzzzzz…. e Sousa.

Por isso eu te amo querida,
Quer no prazer, quer na dor…
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor.

A travessa Gondoleiro do Amor, poema de Castro Alves de onde vem a estrofe acima, é primeira de todo esse post a não ficar na periferia: trata-se do nome oficial de uma aprazível vilinha, travessa da rua Venâncio Aires, na Pompeia – mas acho que nem os moradores sabem disso, pois devem dar a Venâncio como endereço, só marcando o número da casa.

Entre uma loja de cadeiras e outra de congelados

Entre uma loja de cadeiras e outra de congelados

“Grande amor, grande amor, grande mistério
Que as nossas almas trêmulas enlaça…
Céu que nos beija, céu que nos abraça
Num abismo de luz profundo e sério.”

É do Cruz e Sousa

É do Cruz e Sousa

Pelo romance que transborda da estrofe, já deu para notar que é mais um poema do Cruz e Sousa, que fica no Campo Limpo, margeando a área do condomínio Morumbi Sul, e que é travessa da rua Lira Cearense (também literária, como se pode notar). O curioso é que enquanto “ruas” como a Cravo-do-Amor não têm nem 30 metros, a travessa Grande Amor até que é grande…

E eis que voltamos ao Conquest Garden:

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Nada mais é que a versão brasileira do Hymne à l’Amourda Edith Piaf – feita pela nossa lendária (e caótica) Maysa.

Para mostrar como nosso Jardim da Conquista é musicalmente florido, a paralela da Hino ao Amor é sertaneja:

Essa é a história de um amor
Que aumentou o meu sofrer
e me fez compreender
/Todo o mal de querer
Tu me deste luz e vida
destruindo-me depois, oh que vida amargurada
Vivo só sem teu calor…

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… você já lembrou, né? É do Leandro e Leonardo.

Mas a música não tem esse nome

Mas a música não tem esse nome

Procurando, você acha músicas gospel com esse nome, ou ainda uma antiga novela da Globo. Mas, segundo a prefeitura, o nome vem da música Terceiro Amor – do Francis Hime… que começa falando de “primeiro amor”.

O primeiro amor já passou
O segundo amor já passou
Como passam os afluentes
Como passam as correntes

Ainda na Conquista, temos a…

Direto da Jovem Guarda

Direto da Jovem Guarda

Passeando em um jardim eu te encontrei meu bem
Foi tão grande a emoção que minha voz perdi
E com certa timidez de mim se aproximou
Para ir a uma festa você me convidou

Será que o jardim ao qual a cantora Diana, da Jovem Guarda, se referia era o da Conquista? D E S C U B R A.

No Ipiranga

No Ipiranga

Essa travessinha da rua Bamboré, no Ipiranga, é daquelas vilinhas com cara de cidade do interior – e o nome vem do mesmo livro Versiprosa, do Drummond, de onde vieram o Desfile e a  Musa de Outubro do último post. E como a Musa eram as eleições, o Velho Amor do Drummond não era nenhuma musa, mas a arte do seu amigo Rodrigo Andrade, diretor do Departamento Histórico na época…

Mestre Rodrigo, o da DPHAN,que me perdoe se neste cantohoje canto a gentil balzacade seus encantos e quebrantos,aquela que, noite após noite,e dia após dia, inclusiveos domingos – outrora livres,os feriados – antes gozados.

…e que, ao menos no mapa, é nome de uma praça na Brasilândia.

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E fechamos com o nosso Jardim da Conquista, com mais uma surpresinha: Veneza do Amor – uma maravilha do lado B da Perla – a paraguaia! Ali perto, só lembrando, também tem a Galopeeeeeeeeeeeeeeeeeeeira:

galopeiraPronto: agora já deu. Feliz dia dos namorados!

 

 

 

 

 

Ruas estranhas, apenas – 2

Hoje é dia de falar de mais ruas estranhas que, de tão estranhas que são, mal cabem em algum critério. Por isso inventei um: as ruas “das” coisas. Tem cada uma… Claro, aqui não vou falar de “rua das amoreiras”, “dos pinheiros” (embora nessa não tenha nenhum pinheiro plantado), etc, que a ideia já tá meio que na cara. Mas vamos lá:

I <3 TATUAPÉ S2 S2 S2

I ❤ TATUAPÉ S2 S2 S2 S2 S2

Essa ruela, travessa da rua Emílio Mallet, foi aberta nos anos 60 e foi chamada de “rua da Amizade”. Em 1990, mesma época em que a Prefeitura fez um novo levantamento de ruas repetidas ou mal-batizadas (de onde vieram as Borboletas, lembra?), ela ganhou o nome de Campeadores (que, assim como as Butterflies,  também é uma obscura obra de música erudita). Mas veja só: mesmo com o nome até “normal” o pessoal tatuapense botou os campeadores pra correr! Daí, como já existe uma travessa da Amizade no Jaçanã, resolveram o problema botando o aposto “do tatuapé”. E os campeadores?

achoooou!!!

achoooou!!!

Eles foram exilados na Vila Emília, bairro do Sacomã (zona sul). Fazendo esquina, fica a Cantiga Ingênua, outra obscurantíssima peça para piano de uma certa Adelaide Pereira da Silva.

Contrariando o que diz Galvão Bueno, a Curva é Curva mesmo, não é reta

Contrariando o que diz Galvão Bueno, a Curva é Curva mesmo, não é reta

Essa ruinha, na Vila Guilherme (ZN), tem um grande atrativo:

A curva da rua curva é mais curva que a curva da rua reta (Paulo Leminski)

A curva da rua curva é mais curva que a curva da rua reta (Paulo Leminski)

Sim, uma curva. E ponto final. Nem o Dicionário sabe explicar, mas é um alento saber que a rua curva é curva (em U, para ser mais exato).

Fica na Casa Verde (zona norte).

Fica na Casa Verde (zona norte).

E a rua da Divisa? Pode botar no mapa: ela não divide nada com lugar nenhum, pelo menos nos dias de hoje. O Dicionário também não tem explicação. Alguém sabe? Mistério…’

"Olha, quem entra aqui nessa rua é no mínimo um imbecil, mal-educado. Olha, sai daqui, tá?"

“Olha, quem entra aqui nessa rua é no mínimo um imbecil, mal-educado. Olha, sai daqui, tá?”

Não tem nada a ver com grosseria, nem com a qualidade do asfalto. Essa rua do Jaraguá (zona norte) foi agraciada pelo Banco com o nome de uma serra, na verdade “das asperezas que fica na micro-cidade gaúcha de Pinheiro Machado.

fica no Jabaquara (zona sul).

fica no Jabaquara (zona sul).

Não se encontrarão exemplares de Ouro Rublo, Grande Midas ou Picolé, muito menos A Recreativa (que é bem mais chata de fazer). As cruzadas da rua são mesmo aquelas da Idade Média. Melhor assim.

#mtosincera: essa rua é uma porcaria, não vem morar aqui não, tá? #mtofranka

#mtosincera: essa rua é uma porcaria, não vem morar aqui não, tá? #mtofranka

Quem disse que as ruas não têm sentimentos? Essa aqui fica no Jaraguá (zona norte), pertinho da Rua da Franqueza. Mas, francamente, é bem quebrada ali: ambas são vias de um conjunto habitacional da região, já bem perto da Brasilândia.

Pode ficar tranquilo, aqui não tem assalto, todo mundo fica com a porta aberta...

Pode ficar tranquilo, aqui não tem assalto, todo mundo fica com a porta aberta…

Antes fosse assim nessa ruelinha da Vila Matilde (zona leste)… na verdade, deve ter sido um positivista ou algo do gênero que loteou o bairro, já que o Bem termina na rua da Ordem e é paralela à rua Do Trabalho Da Economia.

E, como tantas, a Cordialidade fica no meio de uma quebrada, o Jardim São Luís (zona sul). Pelo street view parece ser um lugar até aprazível (pelo menos de dia…). Aliás, falando em Cordialidade…

Se tem alguém cordial aqui é o homem. O cara.

Se tem alguém cordial aqui é esse homem. O cara.

Pois é, a maneira que o Sérgio Buarque de Hollanda tentou descrever o caráter do brasileiro, nem sempre de forma positiva, sabe-se lá o motivo, batiza a ruinha da Cidade Dutra (zona sul). Muito provavelmente, foi um “jeitinho” de fazer mais uma homenagem ao escritor, que morava no Pacaembu, pertinho do estádio. Não por acaso, a praça que fica em frente à casa dele ganhou o nome de sua obra seminal, publicada em 1936:

raizesdobrasil

Quando moleque, o Chico Buarque gostava de furtar carros estacionados e dar uns rolês pelas ruas do Pacaembu, até acabar a gasolina. Tanto que ele sabe até hoje dar ligação direta. Boa parte das ruas onde Chico pilotava têm nomes de cidades do interior de São Paulo, como Itápolis e Buri, que se unem ao lado da praça. A única desalojada foi Sorocaba:

A maior de todas, como você vê pela numeração, é a Itápolis. Ela dá várias voltas até cortar o estádio do Pacaembu pelo lado direito

A maior de todas, como você vê pela numeração, é a Itápolis. Ela dá várias voltas até cortar o estádio do Pacaembu pelo lado direito

Sorocaba, aliás, nunca mais voltou a ser nome de rua (a não ser uma não-oficial no Morro Doce, quebradinha na zona norte). Já o professor Ernest Marcus, zoólogo alemão radicado no Brasil, e morto em 1968, não tomou o nome da rua por acaso. É porque ele morava lá: sua casa, aliás, era essa mesma que tem a placa pendurada… Mas se as ruas do Pacaembu, em geral, têm nomes de cidades, o contrário também acontece, a umas oito horas de distância:

Bem-vindo a Pacaembu! A cidade mais querida do Brasil tem temperatura média de 39 graus à sombra e um site bem do chambeta

Bem-vindo a Pacaembu! A cidade mais querida do Brasil tem temperatura média de 39 graus à sombra e um site oficial bem do chambeta

Essa cidadela, de apenas 12 mil habitantes, fica lá no extremo oeste do estado, mais perto do Mato Grosso do Sul do que daqui da capital. Lembro que saí um tempinho com uma menina que era da cidade vizinha (e um pouco maior), Adamantina, e ela disse que rolavam umas festinhas por lá. Na verdade, apesar de serem independentes, as cidades daquela região, como Lucélia e Lavínia acabam meio que funcionando como “bairros”, de pequenas que são (e, todas predominanemtente rurais) – é uma conurbação, como dizem os geógrafos. Boa parte delas só começou a existir porque a estrada de ferro trouxe gente para lá (história de 9 entre 10 cidades do interior de SP, cá entre nós).

Mas do que eu estava falando mesmo? Ah sim: Pacaembu, fundada em 1947, reza a lenda, tem esse nome porque, quando rolou sua emancipação de Lucélia,   os moradores começaram a brigar entre si, cada um com sua sugestão. Daí “um deputado que intermediava a conversa e tinha acabado de assistir um jogo do Corinthians no Pacaembu” (aham, naquela época ele teria levado umas 10 horas de trem pra chegar), “falou que a gritaria e a bagunça estavam parecendo a torcida no estádio”. Daí, a turma acabou gostando do nome e ficou: Pacaembu.

Galeria de ruas estranhas, apenas – 1

As ruas de São Paulo têm batismos tão sui generis que as vezes fica até difícil juntar materiais para posts temáticos como os que você vê por aqui. É que a viagem – nem sempre culpa do Banco de Nomes, as vezes são obras dos próprios moradores – é tão grande que nenhum critério é suficiente. Veja só:

A rua fica na Vila Maria (zona norte). O nome foi dado pelos próprios moradores.

A rua fica na Vila Maria (zona norte). O nome foi dado pelos próprios moradores.

A placa acima está bem ruim de ver, mas se trata do ilustríssimo Coronel Cucoque nunca pisou em nenhum quartel ou congênere simplesmente porque nunca existiu. Era apenas o pseudônimo do apresentador de um obscuro programa de rádio dos anos 1960 – segundo o colaborador do Dicionário de Ruas, na extinta Rádio Marconi. Já outros dizem que era na igualmente extinta Rádio Cometa.

Ada, na Cidade Ademar (zona sul)

Ada, na Cidade ADAmar (zona sul) KKKKK

Essa é controversa: segundo o Dicionário de Ruas, Ada é “palavra árabe que designa tanto o pagamento de uma dívida, quanto o cumprimento de um dever religioso. – Ada, na informática é linguagem de programação de alto nível. Mas acho que a explicação é mais simples: apenas um loteador querendo homenagear a mulher (ou uma loteadora querendo homenagear o marido). É que só uma quadra depois fica outra rua que “orna” com a “Ada”: a Adalberto.

O sonho de Anarello fica no Paraíso. Bonito, não?

O sonho de Anarello fica no Paraíso. Bonito, não?

Para começar a explicar o curioso nome da rua, você precisa conhecer o simpático italiano Giovanni Bruno. Garçom do famoso Gigetto, frequentado por artistas, ganhou do diretor de teatro Antunes Filho o apelido de Anarello, por causa do personagem principal do filme A Rosa Tatuada, de 1955. Logo, Bruno foi abrindo seus próprios restaurantes (um deles até pegou fogo), que foi vendendo. Até que, em 1980, realizou seu sogno, abrindo a cantina Il Sogno di Anarellono número 58 da rua Timbuí (nome de um rio no Espírito Santo). Lá, até hoje, ele atende pessoalmente os clientes e prepara pratos clássicos. Tanto carinho foi retribuído por um vereador paulistano que, em meados dos anos 80, transformou a Timbuí em Il Sogno di Anarello. Na Sogno só não vá no salão de cabeleireiro que fica no número 40, dizem que é um cenário de filme de terror.

No Carnaval, a venda de tapaxanas deve aumentar substancialmente

No Carnaval, a venda de tapaxanas deve aumentar substancialmente

Humor estilo Zorra: a gente vê por aqui. Não, Tapaxanas não são o que você está pensando. São (ou melhor, eram) uma tribo indígena já extinta que habitava as margens do rio Solimões, no Amazonas. A rua, por sua vez, fica quase dentro do parque da Cantareira, no Tremembé (zona norte).

Que legal, o pessoal da Prefeitura gosta tanto de usar o Photoshop e o Illustrator...

Que legal, o pessoal da Prefeitura gosta tanto de usar o Photoshop e o Illustrator… A rua está no Jardim Helena, zona leste.

Como você, um atento leitor, já percebeu, é claro que o Adobe não tem nada a ver com a empresa de softwares como o Photoshop. Até porque a placa é dos anos 70, mais precisamente da primeira leva do Banco de Nomes. Mas antes fosse, porque a homenagem é para um tipo de tijolo rudimentar, uma espécie de bloco de pau-a-pique, que pode ser feito até com esterco de vaca.

Fui à Vila Olímpia, bati de porta em porta e não achei o ator em nenhuma casa

Fui à Vila Olímpia, bati de porta em porta e não achei o tal ator, chatiado

Esta importante rua da Vila Olímpia já foi point dos baladeiros, em casas como a antiga Ibiza, que não foi a nossa Kiss por muito pouco. Mas garanto que ninguém sabe o motivo do nome, oficializado ainda no longínquo 1952. É que naquele tempo havia uma espécie de Retiro dos Artistascomo o carioca, justamente chamado de Casa do Ator – e que fechou ainda nos anos 50, pelo que consta. Isso num tempo em que a Vila Olímpia ainda era um pântano com cara de cidade do interior. Curiosamente, o Retiro dos Artistas carioca também fica na Rua Retiro dos Artistas. 

Uma microparalela da Jacu-Pêssego, no coração de Itaquera (parece propaganda de prédio)

Uma microparalela da Jacu-Pêssego, no coração de Itaquera (parece propaganda de prédio)

Nada a ver com o ator Paulo Gorgulho ou sua família. É pior: o Banco de Nomes achou por bem batizar uma rua com esse nome graças à outra acepção do termo Gorgulho: Detritos de rocha, ou seja, um nome diferente para cascalho. 

Mas rapaz, é uma fixação com pedra, gente...

Com certeza havia um fã de pedras na prefeitura

Como você vê pelas duas placas, a categoria de pedras moídas está muito bem representada na cidade, com a companhia da rua Brita, em Cangaíba, também na ZL. Além delas, também tem o Barão de Cascalho, mas ele existiu mesmo: foi o fundador da cidade de Cordeirópolis, no interior de São Paulo – aliás, “fundadores de cidades do interior” também são uma categoria bem grande do Banco de Nomes.

A classe média sofre mesmo: não bastam os escorchantes impostos diários, ainda "homenageiam" uma rua com um deles

A classe média sofre mesmo: não bastam os escorchantes impostos diários, ainda “homenageiam” uma rua com um deles

Isso mesmo que você leu. Uma das vertentes do Banco de Nomes, aparentemente, foi “eternizar” coisas e palavras em desuso há séculos nas coitadas das ruas. É o caso da Capitaçãoque fica no Lajeado (ZL), que nada mais era que um dos impostos que o Império cobrava dos exploradores de diamantes em Minas Gerais, nos séculos 17 e 18. Bom, pelo menos a “capitação” fica na boca do povo, assim como o…

Almotacel designa "O antigo inspetor de pesos e medidas", diz o Dicionário.

Almotacel, que designa “O antigo inspetor de pesos e medidas”, de acordo com o Dicionário. A rua está na Brasilândia (zona norte).

Na verdade, segundo consta, o almotacel, além de verificar os pesos e medidas, tinha cargos em lugares tão curiosos como a Câmara dos Vereadoresna prática sendo uma espécie de “moderador” dos vereadores. E pelo “al” do início, muito provavelmente o termo tem origem árabe. Mas já no século 19, ninguém mais precisava de almotaceis. Eles só voltariam a ser úteis a partir de 1978, quando um certo Banco de Nomes resolveu arrolar TODOS os almotaceis brasileiros e transformá-los em ruas. É, você leu certo: cerca de 100 ruas paulistanas (e eu não terminei de contar ainda), têm nomes de almotaceis, pelo simples motivo de terem existido um dia.

"Manoel Simões exerceu o ofício de carpinteiro em Conceição do Mato Dentro no Estado de Minas Gerais, na primeira metade do século XVIII. Foi almotacel do século XVI."

“Manoel Simões exerceu o ofício de carpinteiro em Conceição do Mato Dentro no Estado de Minas Gerais, na primeira metade do século XVIII. Foi almotacel do século XVI.” A rua é do Sacomã (zona sul).

Diz a lenda que é de Manoel Simões, que na verdade se chamava João Manoel Simões, a origem do termo Zé Mané, que designa o famoso ninguém. Atente para o detalhe do texto da Prefeitura na legenda da foto – que não editei. Segundo ele, Mané viveu 200 anos…

Espero voltar na semana que vem com mais nomes estranhos. Aguardem (mas sem pressa, tá?)

Galeria de tipos irrelevantes (argentinos) – 2

Para aproveitar nuestro novissimo papa hermano, vulgo Francisco, o tema da nossa galeria de tipos irrelevantes de hoje são os argentinos.

Este é um argentino

Um argentino típico

É porque, sabe-se lá por que cargas d’água, o sempre surpreendente Banco de Nomes resolveu usar algum obscuro livro da história portenha para batizar várias ruas da periferia de São Paulo. Não são tantos quantos os pedreiros mineiros do século 17 que você viu na semana passada, mas é um número considerável. São pelo menos umas 100 ruas com nomes de personalidades (?) argentinas do início do século XIX.

"Daniel Cerri: militar argentino, nasceu em 1841 e faleceu em 1914; lutou na Guerra do Paraguai e foi o primeiro governador dos Andes. Este nome foi retirado do Banco de Nomes de SEHAB-CASE." A rua está na Brasilândia, como vários outros portenhos

“Daniel Cerri: militar argentino, nasceu em 1841 e faleceu em 1914; lutou na Guerra do Paraguai e foi o primeiro governador dos Andes. Este nome foi retirado do Banco de Nomes de SEHAB-CASE.” A rua está na Brasilândia, como vários outros portenhos. Já Francisco Margall era um escritor, mas espanhol.

"Gregório Funes, Historiador argentino. Reitor da Universidade de Córdoba. Foi deputado e clérigo famoso.". A rua está no Tucuruvi.

“Gregório Funes, Historiador argentino. Reitor da Universidade de Córdoba. Foi deputado e clérigo famoso.”. A rua está no Tucuruvi.

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João das Heras: político da Argentina, nasceu em 1780 e faleceu em 1861. Foi governador de Buenos Aires no período de 1824 a 1826, tendo também dirigido a Campanha do Sul do Chile. A rua está no Lajeado, ZL.

Frederico Lacroze :Célebre economista e político argentino, nascido em 1.838, levantou a economia do país, projetou a primeira linha de ônibus urbano de Buenos Aires

Frederico Lacroze :Célebre economista e político argentino, nascido em 1.838, levantou a economia do país, projetou a primeira linha de ônibus urbano de Buenos Aires. Também fica na Brasilândia.

Guillermo Correa, jornalista, jurista, professor e romancista argentino nascido em 1858, na cidade de Catamarca. Foi membro do Partido Autonomista Nacional, duas vezes governador de Catamarca, tendo também representado sua província no Congresso Nacional (1904-1908). A rua fica no Jaraguá.

Guillermo Correa, jornalista, jurista, professor e romancista argentino nascido em 1858, na cidade de Catamarca. Foi membro do Partido Autonomista Nacional, duas vezes governador de Catamarca, tendo também representado sua província no Congresso Nacional (1904-1908). A rua fica no Jaraguá.

Histórico: Esta rua foi denominada através do Decreto nº 17.825 de 11/02/1982. João Pujol: estadista argentino, nasceu em 1817 e faleceu em 1861; foi o criador do primeiro selo de seu país. Fica no Aricanduva, ZL.

Histórico: Esta rua foi denominada através do Decreto nº 17.825 de 11/02/1982. João Pujol: estadista argentino, nasceu em 1817 e faleceu em 1861; foi o criador do primeiro selo de seu país. Fica no Aricanduva, ZL.

Curiosidade: desses aí, só Frederico Lacroze é nome de algo em Buenos Aires – uma das estações do metrô. Mas há alguns famosos:

Ah vai, ele era francês, mas é como se fosse argentino... a praça fica do lado do ginásio do Ibirapuera.

Ah vai, ele era francês, mas é como se fosse argentino… a praça fica do lado do ginásio do Ibirapuera.

Deixa a argentinada saber que a Evita é só uma viela no meio de uma quebrada da Cidade Tiradentes...

Deixa a argentinada saber que a Evita é só uma viela no meio de uma quebrada da Cidade Tiradentes…

Esse quem já foi a "BsAs" conhece porque é o nome do aeroporto - justamente porque ele foi um dos pioneiros da aviação argentina. E não por acaso a rua fica no parque Edu Chaves, outro aviador.

Esse quem já foi a “BsAs” conhece porque é o nome do aeroporto – justamente porque ele foi um dos pioneiros da aviação argentina. E não por acaso a rua fica no parque Edu Chaves, outro aviador.

Além disso, um vereador sem nada o que fazer já quis trocar o nome do Minhocão para “Elevado Presidente Nestor Kirchner”. Mas o Costa e Silva não sai de lá tão cedo.

Mas aí você me pergunta: não tinha opção melhor para batizar as ruas a usar esses nomes obscuros lá de cima? Bom, espero que você nunca trabalhe numa secretaria de habitação com mais de VINTE MIL ruas para dar nome…

Marginais de sul a leste – parte 2

Ok, você chegou até a avenida Guarapiranga vindo lá de Guarulhos. Ok. Agora, vamos partir do limite sul da Rodovia Simão Faiguenboim: a rua Miguel Yunes. Ela começa (ou acaba) no cruzamento da avenida Nossa Senhora do Sabará, na entrada da região da Pedreira. O nome “rua” é uma lembrança do tempo em que era só uma estreita rua atrás do autódromo de Interlagos. A duplicação, que a fez se tornar um prolongamento natural da avenida anterior, a partir do cruzamento com a Avenida Interlagos…

O "brimo" Miguel Yunes era comerciante. Morreu em 1943, aos 62 anos.

O “brimo” Miguel Yunes era comerciante. Morreu em 1943, aos 62 anos.

… que vem a ser a Avenida das Nações Unidas! Na verdade, no seu trecho final, entre a ponte do Socorro e a Miguel Yunes, é só uma avenida mesmo: o rio Pinheiros segue passando por trás dos lotes do seu lado direito, rumo à represa do Guarapiranga.

Nações Unidas são os países unidos, oras. Oficialmente, é uma homenagem à ONU.

Nações Unidas são os países de todo o mundo unidos, oras. Oficialmente, é uma homenagem à ONU.

Este trecho entre a avenida Interlagos e a ponte do Morumbi (mais ou menos onde está a placa acima) foi o último a ser inaugurado, no início da década de 1970, como lembra Giesbrecht. Ainda assim, entre a Socorro e a Interlagos, já existia uma “avenida” primordial, que hoje é um curioso estacionamento escondido no canteiro central da via.

Olha ele aí, na frente do shopping SP Market

Olha ele aí, na frente do shopping SP Market

Daí, a Nações Unidas (vulgo Marginal Direita de Pinheiros) continua margeando o rio (e a linha 9 da CPTM, antigo leito da Sorocabana, que levava ao litoral). Este trecho foi inaugurado em 1969, pelo prefeito Faria Lima, que terminou de retificar o leito do rio (processo iniciado ainda nos anos 1940). Logo a prefeitura começaria a canalizar os diversos córregos afluentes do Pinheiros, que você nem sonha que um dia existiram, como o do Sapateiro e o Uberaba, que correm sob as avenidas Faria Lima, Hélio Pellegrino e Juscelino Kubitschek (saiba mais aqui). Alguns sobreviveram até os anos 80 e 90. Do que eu estava falando mesmo? Ah, da Marginal Pinheiros… pois bem: ela continua como Nações Unidas por muito tempo. Mas, depois da ponte Cidade Jardim, mais precisamente quando cruza a rua Professor Artur Ramos, a pista local se mimetiza na rua…

Hungria "orna" com as ruas do Jardim Europa, ainda que esteja relativamente longe delas.

Hungria “orna” com as ruas do Jardim Europa, ainda que esteja relativamente longe delas.

A explicação é simples: a rua (e alguns de seus prédios) já existiam na década de 1960, quando a Marginal foi aberta (e engoliu todas as casas do lado ímpar da Hungria). A rua húngara termina discretamente na esquina com a rua Ofélia, acesso para uma das entradas do shopping Eldorado. Daí, a pista local recupera o nome Nações Unidas.

Sumidouro era onde o "caçador de esmeraldas" Fernão Dias vivia, no tempo dos bandeirantes. É nessa esquina que fica o NEA.

Sumidouro era onde o “caçador de esmeraldas” Fernão Dias vivia, no tempo dos bandeirantes. É nessa esquina que fica o NEA.

Ainda assim, sempre há confusão com os nomes. Cansei de marcar reuniões de leitoras da Gloss no tempo em que trabalhava lá e falava, inocentemente, que era na Abril da Marginal Pinheiros. E sempre tinha uma ou duas fofas que acabavam indo parar na outra sede da editora, na Otaviano Alves de Lima, vulgo Marginal Tietê. Pouco depois, mais precisamente na esquina com a rua Miralta, a pista local troca de nome:

General Jerônimo Furtado Nascimento, nasceu em 1873. Descendente de tradicional família cearense, tinha honrosa folha de relevantes serviços prestados a Nação. Possuia o curso das três armas.

General Jerônimo Furtado Nascimento nasceu em 1873. Descendente de tradicional família cearense, tinha honrosa folha de relevantes serviços prestados a Nação. Possuia o curso das três armas(!). Faleceu em 1951.

O general Furtado permanece até a altura do shopping Villa-Lobos (que, inclusive, fica oficialmente na Avenida das Nações Unidas, 4700). Seguindo, logo você encontrará o Ceagesp. Cruzando-o, já estará na avenida Mofarrej, que termina lá na Gastão Vidigal, dentro da vila Leopoldina. Antes do Cebolão ser inagurado, só passando por dentro destas ruas (que até hoje concentram armazéns de hortifrutis, embora alguns tenham virado até balada, como a antiga Pacha, meca dos douchebags de anos atrás) que se chegava à Tietê. Mas você não vai até lá: vai é pegar o viaduto ao lado do Cadeião de Pinheiros e, bem… continuará na Nações Unidas! O “quilômetro zero” da Marginal Tietê só é abaixo da ponte dos Remédios, esquina com a rua Major Paladino: 

O diplomata José Carlos de Macedo Soares foi ministro das Relações Exteriores de JK entre 1955 e 1958. Morreu em 1968. Coincidentemente, ano em que este trecho da Marginal foi aberto.

O diplomata José Carlos de Macedo Soares foi ministro das Relações Exteriores de JK entre 1955 e 1958. Morreu em 1968. Coincidentemente, ano em que este trecho da Marginal foi aberto.

O embaixador fica até a ponte da Freguesia do Ó. A partir dela, é a vez dele, o homem, o cara:

Alarme falso! Mas bem que gostariam que fosse ele..

Alarme falso! Mas bem que gostariam que fosse ele. A rua Carlos Marighella fica na Brasilândia.

É que a avenida Presidente Castello Branco vive tendo suas placas “esculachadas” por militantes de esquerda, que grudam os nomes de revolucionários do passado sobre o nome do primeiro presidente da ditadura militar, o marechal sem pescoço:

Castello era do grupo mais moderado entre os militares. Era contra o endurecimento do regime. Tanto que seus "colegas" resolveram se livrar dele derrubando o avião em que viajava, em 1967. A história até hoje é mal-explicada.

Castello era do grupo mais moderado entre os militares. Era contra o endurecimento do regime. Tanto que seus “colegas” resolveram se livrar dele derrubando o avião em que viajava, em 1967. A história até hoje é mal-explicada.

Pouco depois da ponte da Casa Verde, acontece algo curioso: a avenida Castello Branco se bifurca em duas: um lado entra no Bom Retiro e segue assim até o início da Avenida do Estado. O outro segue margeando o Tietê, passando sobre o afluente Tamanduateí. Rodam-se mais alguns quilômetros e só lá na frente, depois da ponte da Vila Maria (ou presidente Jânio Quadros), que o Castello vai abaixo, tornando-se a…

Bethinha, para os íntimos (1773-1864) era a fundadora da Congregação das Irmãs de São Vicente de Paulo, que tinham uma escola no bairro da Penha.

Bethinha, para os íntimos (1773-1864) era a fundadora da Congregação das Irmãs de São Vicente de Paulo, que tinham uma escola no bairro da Penha.

Só que a Elizabeth de Robiano, de repente, passa a ter “vida própria” a partir do Parque São Jorge, o velho estádio do Corinthians, dando a volta em toda a área do clube. Ao lado do rio, embora não haja placa, a Marginal se torna a Rogério Alves de Toledo, nome assumidamente retirado do Banco de Nomes que relembra um dos fundadores da cidade de Bebedouro, no interior paulista.

Logo depois do Corinthians (que tem o endereço oficial nessa Rogério mesmo), Elisabeth volta como se nada tivesse acontecido. Siga-a toda vida, caso queira pegar a Ayrton Senna (ex-Trabalhadores). A rodovia começa oficialmente tão logo se cruza a ponte Nordestino, que liga a Penha a Guarulhos.

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Ainda assim, a Elisabeth tem uma curta sobrevida como “marginal” da Ayrton Senna, quando dá na entrada do Parque Ecológico do Tietê. Sua última saída para algum bairro, no entanto, se dá um pouquinho antes, na esquina com a avenida Gabriela Mistral, antigo trecho da Estrada da Conceição e também antiga Estrada de Guarulhos – mas que desde 1957 tem o nome da escritora espanhola. 

Gabi foi Nobel de Literatura em 1945. Morreu em 1957, mesmo ano em que virou avenida.

Gabi foi Nobel de Literatura em 1945. Morreu em 1957, mesmo ano em que virou avenida.

Este trecho da Gabriela serve tão somente de alça de acesso à ponte Nordestino. Para acessar o bairro da Penha, você teria de ter entrado antes… mas fique tranquilo que lá tem placa (eu acho).